Opinião

Lucidez é ferramenta para enfrentar incertezas e isolamento
Melhor forma de manter a sensatez é o autocuidado, além de conversar com quem nos faz bem
Por por: Cláudia Prioste - 28/03/2020

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A rápida propagação do novo coronavírus e sua letalidade têm aumentado as incertezas em nossas vidas. Insegurança sobre a economia mundial, sobre o curso do capitalismo, da globalização e sobre o futuro de nações que se pensavam inabaláveis. A pandemia lançou dúvidas sobre a capacidade das ciências em oferecer respostas rápidas ao ataque silencioso e progressivo de um microrganismo com importante potencial reprodutivo e destrutivo. Somem-se a isso os precários investimentos que o meio científico tem recebido dos dirigentes políticos.

A pandemia expõe ainda mais as desigualdades de renda e a política selvagem de privatizações dos bens públicos, que contribui para o crescimento e manutenção de oligopólios financeiros em detrimento das garantias de segurança das bases sociais e científicas necessárias à preservação da vida.

A doença que se propaga de maneira insidiosa e exponencial lançou também desconfiança sobre nosso estilo de viver, de consumir, de se divertir, de se relacionar e de educar as novas gerações. Fechou escolas e universidades, escancarando a desigualdade entre os que têm acesso às tecnologias digitais e aqueles que são privados de informações consistentes e educativas.

O vírus interrompeu o trânsito turístico e comercial de pessoas no mundo, impossibilitou bruscamente algumas satisfações narcísicas tão consolidadas nas últimas décadas. Nossas prioridades entraram em quarentena. Os laços sociais e a capacidade de nos mantermos lúcidos em meio ao caos progressivo passaram a ser fortemente testados. Além do vírus, temos os delírios paranoicos, a depressão e a ansiedade rondando nossos espaços intersubjetivos, hiperinflacionados pelas redes sociais e pelas mídias tradicionais. Como nos mantermos lúcidos nesse contexto?

Zigmund Bauman na introdução do livro “A individualidade numa época de incertezas” enfatiza que “a impossibilidade da certeza, assim como de prever o futuro em termos não probabilísticos, não é um efeito da insuficiência de conhecimento, mas da excessiva e, sobretudo, ilimitada complexidade do Universo”. Viver em épocas de muitas incertezas e complexidade contribui para aumentar estados paranoicos e de desânimo. Colabora também para o ancoradouro em pensamentos mágicos e onipotentes.

Estamos iniciando um período que exige mudanças significativas de nossos hábitos, valores e estilo de vida. A contenção química do vírus ainda está um tanto distante. A letalidade dele assusta e a única forma de contermos a progressão da doença é por meio de mudanças comportamentais, com ênfase no distanciamento social. No entanto, tenho notado alguns obstáculos a essas mudanças. As pessoas têm oscilado entre as previsões catastróficas e as crenças onipotentes. Os delírios coletivos e as “fake news” se propagam tão rapidamente quanto o vírus. As onipotências, também.

A paranoia, grosso modo, pode ser definida como pensamento obsessivo de perseguição. Como não mais podemos saber quem está infectado e pode nos transmitir a doença, é possível que se acentuem as defesas persecutórias, cujos desdobramentos podem ser o medo do outro e reações, de antemão, agressivas. Os ataques a enfermeiros nos transportes públicos de São Paulo são indicativos dessa insanidade.

Em sua análise sobre a paranoia, Freud destacou a associação com os delírios onipotentes. Ou seja, diante de nossa extrema fragilidade, podemos recorrer à ilusão infantil de sermos fortes e invencíveis. Podemos também projetar a onipotência nos deuses ou líderes religiosos. O risco é de que esses indivíduos sabotem as orientações de isolamento e contribuam para a propagação da Covid-19. Além disso, há o vírus da ignorância de alguns dirigentes políticos.

A angústia e os estados depressivos podem aumentar no período de confinamento. No texto “Inibição, sintoma e angústia,” Freud define a angústia como uma reação a um estado de perigo, revelando-se como um produto da condição humana de desamparo. A angústia tem uma função protetora de nos preparar para enfrentar o perigo. Porém, ela também pode ter um efeito paralisante ou excitatório. Os estados ansiosos causam uma excitação viciante, por isso algumas pessoas tendem a buscar continuamente por notícias trágicas da epidemia, mantendo-se em constante estado de atenção. O aparelho psíquico começa a funcionar em alerta, o que produz uma sobrecarga intensa, podendo levar à insônia e aos estados depressivos e paralisantes.

Os estados depressivos se caracterizam por um desinvestimento em si, nas relações, nos estudos e no trabalho. A tristeza, o desânimo e a falta de vontade de fazer as coisas podem se intensificar. Não estou aqui falando de depressão como transtorno psíquico, mas de pessoas saudáveis que podem entrar em estados depressivos.

Não há fórmulas mágicas para lidar com essa nova situação, alguns casos podem necessitar de profissionais da saúde mental, porém é cada vez mais necessária uma revisão das prioridades de vida. Reflexões sobre nossos valores, sobre como conduzimos nossa rotina, nosso cotidiano. Mais do que isso, precisamos reacender a solidariedade, principalmente com aqueles que estão em condições mais vulneráveis, como os idosos e as pessoas em situação de pobreza ou miséria. Além disso, necessitamos proteger as crianças que estão sendo privadas de seus espaços de aprendizagem e sociabilidade, ao mesmo tempo em que têm sido expostas a uma avalanche de medos.

A melhor forma de manter a lucidez e a sensatez é o autocuidado, nos esforçando para manter uma rotina de trabalho, atividade física, estudo, leitura, música, dança, além de conversa com quem nos faz bem. A pandemia não deve nos impedir de mantermos uma proximidade solidária e fraterna. Por fim, destaco a importância de acender a chama de nossas lutas políticas em defesa da ciência e da educação.

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*Cláudia Prioste é professora do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras, no câmpus de Araraquara.