Opinião

A vacina para a covid-19 e o distanciamento do saber acadêmico
A eclosão da pandemia nos obriga a copiar a conduta de Nietzsche, criticar a falência da cultura universitária da nossa época. O vírus revelou inteligências inertes, engessadas, despreparadas.
Por Benedito Carlos de Araújo Júnior - 23/04/2020

Domínio publico

Nietzsche foi professor na Universidade de Basileia. Com 24 anos começou a lecionar filologia. O ano era 1869. O cargo não o impediu de fazer a crítica vigorosa do ensino superior. A universidade contribuía para a “cultura do escravo” reinante na sociedade europeia, dizia Nietzsche. Cultura de sujeitos fracos, medíocres, obedientes, tementes da fúria de deus, com a esperança de arranjar vagas no céu, crentes na impostura da vida eterna.

A eclosão da pandemia nos obriga a copiar a conduta de Nietzsche, criticar a falência da cultura universitária da nossa época. O vírus revelou inteligências inertes, engessadas, despreparadas. As gélidas universidades se ocupam em reproduzir saberes repetitivos, fragmentados, descontextualizados, oriundos de ciências disciplinares, especializadas ao extremo, ao ponto de perderem a noção de totalidade.

Desde o início da propagação, foram divulgadas informações erradas, desencontradas, paradoxais sobre o comportamento do vírus. O progresso no sentido da criação de vacinas viceja em laboratórios da iniciativa privada. O maior colaborador é Bill Gates. As universidades, que desperdício, se ocupam nas defesas de dissertações e teses ocas, sem sustentação científica, em mofentos programas de pós-graduação que fariam Nietzsche adoecer de novo de desinteria e difteria, contraídas quando ele foi soldado na guerra franco-prussiana.

Agora mesmo, no centro de humanidades da universidade do Piauí, enquanto o mundo, desorientado, faz rainhas e presidentes tremerem, a bobagem em discussão é o uso de tecnologias para produção de aulas virtuais em tempos de pandemia. Ora, se até aulas presenciais já revelavam a miséria do ensino superior, o que se pode esperar de aulas sem a vigilância crítica dos alunos?

"As gélidas universidades se ocupam em reproduzir saberes repetitivos, fragmentados, descontextualizados, oriundos de ciências disciplinares, especializadas ao extremo, ao ponto de perderem a noção de totalidade".


Como nos dias de hoje um doutorado não faz grande diferença cultural, a sociedade corre o risco de descobrir que certos professores doutores grafam natureza com s (naturesa), deixar com ch (deichar), como li dias atrás em documentos administrativos.

Nietzsche está morto!


*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional do maisconhecer.com

Benedito Carlos de Araújo Júnior
Sociólogo, professor da UFPI 

 

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