Opinião

Joaquim Nabuco e Oliveira Vianna e os infortúnios da República! – Parte 1
Os argumentos de Nabuco para justificar a transformação pessoal revelam raciocínio arguto que, cedo, percebeu os perigos para a nação do radicalismo revolucionário de qualquer natureza, seja republicano ou socialista.
Por Geraldo Filho - 12/12/2021

(...)
Nos últimos dois anos (2020-2021) o mundo foi assolado com a Pandemia Covid-19, todos os países lançaram mão de estratégias de enfrentamento da doença, nenhum de expressão mundial convive ao mesmo tempo com crises políticas internas entre os poderes constituintes da ordem política, forjadas no Legislativo e no Judiciário tendo como justificativa o gerenciamento da crise sanitária, cujo único objetivo é a desestabilização do governo nacional eleito, somente o Brasil! Portanto, a citação acima, de Nabuco e Bagehot, sobre a incapacidade do governo republicano presidencial para enfrentar grandes questões de maneira eficiente enquadra analiticamente o Brasil de hoje, e revela a genialidade política de ambos.

A influência de Walter Bagehot na conversão monárquica de Joaquim Nabuco se exprime na mudança de atitude em relação à transmissão de poder do Estado mediante a hereditariedade dinástica, que garantiu a continuidade da monarquia parlamentar inglesa e é símbolo de sua estabilidade há mais de 800 anos. Isto significa 40 gerações de súditos ingleses (aproximadamente 20 anos cada) compartilhando e aperfeiçoando suas instituições sociais [que criam a identidade de uma sociedade] com as respectivas tradições (costumes), “conservando” o que comprovadamente deu certo pela experiência coletiva da população e descartando novidades aventureiras como o radicalismo igualitário e utópico dos iluministas franceses, que mergulharam a França no caos da Revolução (BURKE: 2017):

(...) Antes de o ler, eu tinha o preconceito democrático contra a hereditariedade, o princípio dinástico e a influência aristocrática. Foi esse democrata [observem como Nabuco se refere a Bagehot, mostrando como não há incompatibilidade entre ser democrata e monarquista] que me fez compreender como o que ele chamou as partes imponentes [a monarquia dinástica] da Constituição inglesa, “as que produzem e conservam o respeito das populações”, são tão importantes como as eficientes [o gabinete parlamentar], “as que dão à obra o movimento e a direção”. (...) “A massa de gente sem instrução na Inglaterra não poderia ouvir hoje tranquilamente estas simples palavras: Ide escolher o vosso governo; semelhante ideia lhes perturbaria a razão e lhes faria recear um perigo quimérico. A vantagem incalculável das instituições imponentes em um país livre é que elas impedem essa catástrofe. Se a nomeação dos governantes se faz sem abalo, é graças à existência aparente de um governo não sujeito à eleição. As classes pobres e ignorantes imaginam ser governadas por uma rainha hereditária [na época de Bagehot a Rainha Vitória, hoje Elizabeth II] e que governa pela graça de Deus, quando na realidade são governadas por um gabinete e um Parlamento composto de homens escolhidos por elas mesmas e que saem das suas fileiras.” (NABUCO, 2004, p. 27-28)

Nabuco ressalta a perspicácia sociológica de Bagehot ao descrever como ele identificou nas representações sociais (consciência coletiva; imaginário social) que tornam concretas no cotidiano, reais, quase palpáveis, para o povo inglês suas instituições políticas o alicerce do Estado (DURKHEIM, 1983; CASTORIADIS: 1982), ou seja, ele está enraizado na história dessa sociedade, não é um experimento social nascido da imaginação de alguns teóricos radicais como a república francesa de 1789:

A pompa, a majestade, o aparato todo da realeza entrava assim para mim nos artifícios necessários para governar e satisfazer a imaginação das massas, qualquer que seja a cultura da sociedade; a realeza passava naturalmente para a classe das instituições a que Herbert Spencer [um dos fundadores da sociologia inglesa] chamou cerimoniais (...). “Nada mais pueril [infantil] na aparência do que o entusiasmo dos ingleses pelo casamento do príncipe de Gales. Mas nenhum sentimento está mais em harmonia com a natureza humana.” (...) E mais: “Enquanto a espécie humana tiver muito coração e pouca razão, a realeza será um governo forte, porque se harmoniza com os sentimentos espalhados por toda parte, e a República, um governo fraco, porque se dirige à razão”. (NABUCO, 2004, p. 28)
  
Nabuco viu, certamente, representações sociais semelhantes nas raízes da tradição monárquica parlamentar no Império do Brasil o, que, provavelmente, foi uma das motivações para a conversão monárquica após o contato com a obra de Walter Bagehot. Isto o faria deplorar a Proclamação da República e intuir a era de crises, de governos fracos e incompetentes que sobreviria, ele estava absolutamente correto, a história republicana lhe deu razão:

 

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