Saúde

Medicamento para pressão alta reverteu excesso de insulina em animais obesos
Anti-hipertensivo reduziu inflamação de tecido adiposo e ajudou a normalizar pressão arterial em ratos com obesidade, restaurando função protetora de tecido adiposo
Por Felipe Medeiros - 15/12/2025


Experimentos com Nebivolol abrem caminhos para tratamentos mais eficazes contra a hipertensão arterial associada à obesidade – Foto: Freepik
 

Além de afetar o metabolismo e o peso corporal, a obesidade também compromete o funcionamento das artérias e dos tecidos que as envolvem. Em pessoas com excesso de peso, a camada de gordura que reveste os vasos sanguíneos, chamada tecido adiposo perivascular (PVAT), deixa de exercer seu papel protetor e passa a contribuir para o aumento da pressão arterial. Mas um estudo conduzido em animais nos laboratórios da USP em Ribeirão Preto encontrou no Nebivolol – medicamento usado no tratamento da hipertensão arterial – a capacidade de reversão do processo inflamatório, ajudando a restaurar a função saudável do PVAT.

A pesquisa, realizada em linhagens de ratos – que é modelo para estudos sobre obesidade-, foi orientada pelo professor Carlos Renato Tirapelli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP. Segundo o professor, a proposta do estudo surgiu a partir das Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial e de artigos da literatura que apontam a obesidade, ou síndrome metabólica, como uma das principais causas de hipertensão arterial secundária – uma forma de hipertensão causada por uma condição médica identificável, diferente da hipertensão primária, que não tem uma causa aparente. “Em casos como esse, o tratamento farmacológico é recomendado e deve priorizar fármacos que melhoram, ou pelo menos não agravam, a resistência à insulina”, afirma.

A gordura que protege, mas pode prejudicar as artérias

O PVAT é uma fina camada de gordura que envolve as artérias e, em condições normais, libera substâncias que ajudam os vasos a relaxar, realizando um efeito conhecido como anticontrátil. Esse tecido também produz adipocinas – moléculas sinalizadoras que desempenham um papel crucial na regulação de diversas funções corporais, incluindo o metabolismo, a inflamação e o apetite – com ação anti-inflamatória e antioxidante, como a adiponectina. São proteínas que contribuem para o equilíbrio da função vascular.

Em quadros de obesidade, no entanto, Tirapelli informa que esse tecido muda de comportamento. “Ele passa a produzir e liberar substâncias que aumentam a contração das artérias e promovem inflamação. Nessa condição, deixa de proteger e passa a contribuir para o desenvolvimento de danos vasculares e doenças cardiovasculares associadas à obesidade.”

Com essas constatações, o grupo de pesquisa decidiu avaliar se o Nebivolol poderia reverter essas alterações e restaurar o papel protetor do PVAT e, com isso, reduzir a hipertensão arterial associada à obesidade.

Obesidade e efeitos do medicamento

Para o estudo, os animais foram alimentados por 14 semanas com uma dieta hipercalórica, rica em açúcares, para induzir a obesidade. A partir da 10ª semana, parte dos animais recebeu o Nebivolol por via oral. Formaram quatro grupos: controle, controle tratado, obeso e obeso tratado com o medicamento.

Após o período de alimentação e tratamento, os pesquisadores avaliaram diversos parâmetros metabólicos e cardiovasculares, incluindo colesterol total, triglicerídeos, insulina, glicose, pressão arterial e ganho de peso, além de análises detalhadas das artérias e do PVAT. 

Entre os principais efeitos do Nebivolol sobre esses parâmetros, Tirapelli destaca que o medicamento reverteu a hiperinsulinemia – excesso de insulina na corrente sanguínea -, bem como os aumentos de LDL (colesterol ruim), triglicerídeos e colesterol total induzidos pela obesidade, que são fatores associados ao risco cardiovascular. “Além disso, o fármaco também reduziu o aumento da pressão arterial, a inflamação e restaurou o efeito protetor que o PVAT exerce sobre as artérias, confirmando tanto a efetividade do modelo experimental quanto do próprio medicamento.”

O tratamento com Nebivolol reduziu ainda a infiltração de macrófagos – células do sistema imunológico que, quando se acumulam em excesso, aumentam a inflamação – e diminuiu a concentração de citocinas pró-inflamatórias – moléculas sinalizadoras que promovem a inflamação, liberadas por células do sistema imunológico em resposta a infecções, lesões ou estresse, como TNF-? (fator de necrose tumoral alfa), IL-6 (interleucina-6) e IL-1? (interleucina-1 beta) – no PVAT. “Além disso, observamos a redução da proteína MCP-1 (proteína quimiotática de monócitos-1), responsável por atrair macrófagos para o tecido, o que é um resultado inédito”, destaca o pesquisador.

Adicionalmente, o medicamento aumentou a produção de óxido nítrico (NO), molécula que promove o relaxamento dos vasos sanguíneos, além da produção da proteína adiponectina, reforçando a ação antioxidante. O aumento desses aspectos ajuda o PVAT a recuperar sua função anticontrátil, ou seja, a capacidade de liberar substâncias que mantêm as artérias relaxadas e com boa circulação.

Futuro tratamento

Esses resultados indicam que o Nebivolol não apenas controla a pressão arterial, mas também atua como agente protetor vascular, o que pode ser decisivo no tratamento de pacientes obesos com hipertensão. “Concluímos que, ao mesmo tempo em que regula a pressão arterial em quadro de obesidade, o Nebivolol exerce efeito benéfico no tecido adiposo perivascular, contribuindo para a prevenção de doenças vasculares decorrentes da obesidade”, ressalta o especialista.

O estudo foi realizado com animais machos, e o grupo pretende agora avaliar se os mesmos efeitos são observados em fêmeas, uma vez que as diferenças hormonais podem influenciar os resultados. Também serão realizados experimentos para entender se o Nebivolol exerce ação direta sobre os macrófagos e se ele pode beneficiar outros tipos de tecido adiposo, além do perivascular, como o tecido adiposo branco.

Os resultados encontrados neste estudo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foram obtidos por Victor Assis, Thales Dourado e Gustavo Pimenta, alunos de pós-graduação do Programa de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

 Mais informações: crtirapelli@usp.br, com o professor Carlos Renato Tirapelli

 

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