Terapia hormonal transforma o corpo — e o sangue — de mulheres trans, revela estudo internacional
Mudanças vão além da aparência física e atingem milhares de proteínas ligadas à imunidade, metabolismo e saúde cardiovascular.

Laverne Cox ficou conhecida por seu papel na série “Orange is The New Black”, na qual interpreta a trans Sophia. Diferente de muitas outras produções, não é um homem travestido que interpreta a personagem, mas sim uma atriz trans – Foto: reprodução
Um estudo publicado na revista científica Nature Medicine mostra que a terapia hormonal afirmativa de gênero em mulheres trans promove alterações profundas no organismo — não apenas visíveis no espelho, mas detectáveis no sangue. Em apenas seis meses de tratamento, centenas de proteínas plasmáticas sofreram mudanças significativas, aproximando o perfil biológico dessas pacientes ao observado em mulheres cisgênero .
A pesquisa acompanhou 40 mulheres trans, submetidas a estradiol combinado com dois tipos diferentes de bloqueadores de testosterona. O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores.
“Observamos uma remodelação sistêmica do organismo. O corpo responde de forma ampla aos hormônios, alterando funções metabólicas, imunológicas e reprodutivas”, afirma a endocrinologista Ada Cheung, coautora do estudo.

a , Visão geral do conjunto de dados do UK Biobank ( n = 54.219) com 2.922 proteínas Olink e comparação de fenótipos-chave: sexo, idade e IMC. b , Diagrama de Venn das proteínas sobrepostas entre nosso painel de 5.279 e o painel de 2.922 do UK Biobank (UKB) (esquerda) e porcentagem de proteínas do UKB associadas à GAHT (direita). c , Gráfico de colunas mostrando a porcentagem das 100 principais proteínas associadas a sexo, idade ou IMC que são afetadas pela GAHT feminizante. d , Gráfico de barras mostrando a mudança (estimativa) na expressão proteica no grupo CPA-GAHT entre 0 e 6 meses de GAHT feminizante para as principais proteínas associadas a idade, sexo e IMC. e , Gráfico de correlação das estimativas para as 100 principais proteínas associadas ao sexo entre homens e mulheres ( eixo y ) e CPA-GAHT ( eixo x ). f , Gráfico de correlação das estimativas para as 100 principais proteínas associadas ao sexo entre homens e mulheres ( eixo y ) e SPIRO-GAHT ( eixo x ). g , Gráfico de dispersão mostrando a média do logaritmo de 2 FC (6 meses 0 meses) por participante para dois conjuntos das 100 principais proteínas associadas ao sexo: proteínas associadas ao trato reprodutivo masculino ( n = 19) e todas as outras proteínas ( n = 81). Valores mais altos indicam maior assimetria em direção ao perfil cis-feminino. Pontos vermelhos: CPA-GAHT; pontos laranja: SPIRO-GAHT.
Números que revelam a transformação
Os dados mostram a dimensão do impacto da terapia hormonal: 5.279 proteínas foram analisadas no plasma sanguíneo; 245 proteínas sofreram alteração significativa em um dos grupos de tratamento; mais de 95% dessas proteínas apresentaram redução nos níveis; a testosterona caiu para níveis considerados femininos em 100% das pacientes que usaram um dos bloqueadores hormonais; proteínas ligadas à fertilidade masculina, como INSL3 e SPINT3, tiveram queda superior a 80%
Além disso, houve aumento de proteínas associadas ao tecido adiposo, como a leptina, refletindo mudanças corporais típicas do processo de feminização.
Para muitas mulheres trans, a terapia hormonal é um passo essencial no processo de afirmação de gênero. A estudante Marina, de 27 anos*, que iniciou o tratamento há um ano, relata que os efeitos vão além do físico.
“Não é só o corpo que muda. A relação com a própria identidade melhora, a autoestima cresce. Saber que meu corpo está se ajustando também por dentro traz uma sensação de alívio enorme”, diz.
O estudo confirma essa percepção subjetiva ao mostrar que o organismo passa a expressar um perfil proteico mais semelhante ao de mulheres cis, inclusive em aspectos ligados ao sistema imunológico.
Atenção aos riscos e escolhas terapêuticas
Apesar dos benefícios, os pesquisadores alertam para possíveis impactos de longo prazo. Algumas proteínas associadas a doenças autoimunes e alergias aumentaram após o tratamento, especialmente em um dos tipos de bloqueador hormonal.
“Essas alterações não significam necessariamente doença, mas indicam a necessidade de acompanhamento médico contínuo e individualizado”, ressalta Boris Novakovic, outro autor do estudo.
Os cientistas defendem que os resultados ajudem médicos e pacientes a tomar decisões mais informadas sobre os tipos de hormônios utilizados, equilibrando afirmação de gênero e saúde futura.
Especialistas apontam que a pesquisa representa um avanço importante para a medicina transgênero, ainda marcada pela escassez de dados de longo prazo.
“Entender como o corpo responde em nível molecular é fundamental para garantir tratamentos mais seguros e eficazes”, conclui Cheung.
Com mais de 1,6 milhão de pessoas trans vivendo apenas nos Estados Unidos, segundo estimativas citadas no estudo, os achados reforçam a urgência de políticas de saúde baseadas em evidência científica — e em respeito à diversidade.
Mais informações
Brodin, P. Mapeando os efeitos da terapia hormonal de afirmação de gênero. Nat Med (2026). https://doi.org/10.1038/s41591-025-04146-z