Saúde

Pesquisas analisam os efeitos dos microplásticos no organismo
Estudos mostram a relação com doenças ósseas e apontam alternativas
Por Silvio Anunciação - 17/01/2026




Estudos recentes indicam uma presença crescente de microplásticos nos alimentos. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp investigam os impactos dessas partículas no organismo humano e analisam possíveis associações com doenças ósseas, como a osteoporose.

As pesquisas são lideradas pelo professor Rodrigo Bueno de Oliveira, coordenador do Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia (Lemon), da FCM, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A relação entre microplásticos e saúde humana é um campo relativamente recente. Embora os plásticos façam parte do cotidiano há mais de um século, o entendimento sobre seus efeitos no organismo humano não ultrapassa seis anos. Atualmente, é comum que os alimentos sejam acondicionados em recipientes plásticos, o que expõe o trato gastrointestinal a essas partículas. Elas conseguem entrar na circulação e já foram identificadas em artérias carótidas, no cérebro, na urina, na placenta e até no esqueleto”, explica Oliveira.

Segundo o pesquisador, ainda não há consenso científico sobre quais doenças podem estar associadas à ingestão dessas substâncias. “Na área óssea, buscamos entender se os microplásticos estão relacionados ao desenvolvimento da osteoporose. Para isso, estudamos, em modelos animais, os efeitos dessas partículas na resistência, na composição e no metabolismo do tecido ósseo. Os resultados devem ser divulgados em breve.”

Microplásticos no prato do consumidor

A nutricionista e professora Andressa Mara Baseggio, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, destaca que, de acordo com a literatura científica, os alimentos mais associados à presença de microplásticos são os de origem aquática, como peixes e frutos do mar, além do sal marinho e da própria água potável. “O principal problema está na quantidade de resíduos plásticos que chega aos oceanos e aos rios”, afirma.

Um artigo científico publicado por um grupo internacional de pesquisadores aponta que roupas confeccionadas com fibras sintéticas — como poliéster, poliéster com algodão e acrílico — podem liberar mais de 700 mil fibras de microplásticos a cada lavagem em máquina, considerando uma carga de seis quilos. Essas partículas acabam sendo transportadas para os corpos d’água. O estudo indica ainda que uma pessoa pode ingerir, em média, cerca de cinco gramas de microplásticos por semana, o equivalente aproximado ao peso de um cartão de crédito.

Novas soluções

Diante dos impactos ambientais e sanitários associados aos plásticos, pesquisadores da Unicamp também trabalham no desenvolvimento de alternativas sustentáveis. Um dos projetos envolve a criação de um filme biodegradável e comestível, capaz de substituir o plástico na indústria alimentícia, especialmente em embalagens de produtos perecíveis, como hortaliças, carnes e frutas.

O principal componente do biofilme é a amilopectina — um tipo de amido utilizado na produção de polímeros biodegradáveis —, encontrada naturalmente em vegetais como milho, batata, arroz e trigo. “O material se decompõe em até 45 dias. Dessa forma, devolvemos à natureza apenas dióxido de carbono e água”, explica Giovana Padilha, professora da FCA, que participou da pesquisa ao lado de Deborah Montagnoli, então sua orientanda de mestrado.

A tecnologia já está disponível para licenciamento comercial. A patente foi depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pela Agência de Inovação Inova Unicamp e conta com proteção internacional por meio do Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT).

 

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