Estudo internacional mostra que restrição de açúcar nos primeiros anos reduz em até 14% o risco de insuficiência cardíaca décadas depois.

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Uma decisão tomada em meio à Segunda Guerra Mundial pode estar salvando corações até hoje. Um estudo publicado na revista científica Nature Communications revela que pessoas expostas à restrição de açúcar nos primeiros mil dias de vida — da gestação até os dois anos de idade — apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida.
A pesquisa analisou mais de 61 mil britânicos, nascidos entre 1951 e 1956, período que abrange o fim do racionamento de açúcar no Reino Unido, encerrado oficialmente em 1953. Os resultados são contundentes: indivíduos que cresceram sob restrição de açúcar tiveram redução de cerca de 14% no risco de insuficiência cardíaca e desenvolveram a doença, em média, 2,6 anos mais tarde do que aqueles que não passaram por essa limitação alimentar.
“Nossos achados mostram que a exposição ao açúcar no início da vida tem efeitos duradouros sobre a saúde cardiovascular”, afirma o cardiologista Yequn Chen, um dos autores do estudo. “A infância parece ser uma janela crítica para a programação do risco de doenças do coração”.
Um experimento natural da história
Durante a guerra, o governo britânico limitava o consumo diário de açúcar a menos de 40 gramas para adultos e menos de 15 gramas para crianças, com recomendação de zero açúcar para menores de dois anos. Quando o racionamento acabou, o consumo quase dobrou: saltou de 41 gramas por dia, em 1953, para cerca de 80 gramas em 1954, segundo dados oficiais da época.
Esse contraste criou um raro “experimento natural”, permitindo aos pesquisadores comparar pessoas expostas e não expostas ao açúcar em excesso ainda no início da vida. O acompanhamento se estendeu por mais de seis décadas, com dados do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo.
Os autores estimam que entre 4% e 5% de todos os casos de insuficiência cardíaca poderiam ter sido evitados se a restrição de açúcar tivesse sido mantida nos primeiros anos de vida — um impacto comparável ao de estratégias clássicas de prevenção, como controle do diabetes e do tabagismo.
Hoje, a insuficiência cardíaca afeta mais de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas globais, e está entre as principais causas de hospitalização e morte prematura. No Brasil, responde por milhares de internações anuais no SUS.
Açúcar, genética e escolhas precoces
O estudo também mostra que a genética não anula os benefícios da restrição de açúcar. Mesmo indivíduos com alto risco genético apresentaram menor probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca quando expostos a menos açúcar na infância. Quando genética desfavorável e excesso de açúcar se somam, o risco aumenta de forma significativa.
“A genética importa, mas não determina tudo. O ambiente alimentar nos primeiros anos pode compensar — ou agravar — riscos herdados”, explica a farmacêutica clínica Yali Wang, coautora do trabalho.
Debate atual
Em um mundo onde crianças são expostas cada vez mais cedo a bebidas açucaradas e ultraprocessados, os resultados reacendem o debate sobre regulação da indústria alimentícia, rotulagem, taxação do açúcar e políticas públicas voltadas à primeira infância.
Para os autores, a mensagem é clara: o que se come nos primeiros anos de vida pode ecoar no coração décadas depois.
“Investir em uma alimentação saudável desde o início não é apenas uma escolha individual — é uma estratégia de saúde pública de longo prazo”, conclui Chen
Mais informações
Tang, H., Zhang, X., Huang, J. et al. Racionamento de açúcar durante os primeiros 1000 dias de vida e risco vitalício de insuficiência cardíaca. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68713-9