Saúde

Estudo dinamarquês revela que doenças intestinais inflamatórias não seguem o mesmo padrão genético e ambiental
O trabalho analisou dados de quase 10 milhões de pessoas a partir de registros nacionais de saúde, genealogia, estudos genéticos e microbiota intestinal.
Por Laercio Damasceno - 21/01/2026


Imagem Internet


Um dos maiores estudos já realizados sobre doenças inflamatórias autoimunes indica que doença de Crohn e retocolite ulcerativa, embora geralmente agrupadas sob o rótulo de doença inflamatória intestinal (DII), apresentam padrões distintos de associação genética, familiar e microbiológica com outras enfermidades imunomediadas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, em colaboração com instituições da Espanha e hospitais universitários dinamarqueses, e publicada na revista Nature Communications em janeiro de 2026. O trabalho analisou dados de quase 10 milhões de pessoas a partir de registros nacionais de saúde, genealogia, estudos genéticos e microbiota intestinal.

“Apesar de Crohn e retocolite ulcerativa serem tratadas como uma única entidade clínica, nossos resultados mostram que elas se relacionam de forma muito diferente com outras doenças imunomediadas”, afirma a epidemiologista Marie Vibeke Vestergaard, autora principal do estudo e pesquisadora do Center for Molecular Prediction of Inflammatory Bowel Disease (PREDICT), da Universidade de Aalborg.

Os pesquisadores utilizaram o Sistema Nacional de Registro Civil da Dinamarca, que reúne informações de 9,8 milhões de indivíduos, conectando dados familiares, diagnósticos médicos e histórico hospitalar. Foram analisados mais de 29 milhões de pares de parentesco, com foco especial em irmãos completos, estratégia que reduz distorções causadas por diferenças de idade e acesso ao sistema de saúde.

A herdabilidade estimada foi elevada: 59% para doença de Crohn e 49% para retocolite ulcerativa, indicando forte influência genética. Ainda assim, os padrões de associação com outras doenças variaram significativamente.

Crohn e retocolite: caminhos diferentes

Entre os principais achados, o estudo mostrou que a retocolite ulcerativa apresenta correlação familiar e microbiológica com doenças como esclerose múltipla e lúpus eritematoso sistêmico, mesmo quando a correlação genética é negativa. Segundo os autores, isso sugere um papel central de fatores ambientais, como a microbiota intestinal.

Já a doença de Crohn demonstrou maior convergência genética e microbiana com artrite reumatoide, psoríase e asma, reforçando a hipótese de vias imunológicas compartilhadas.

“Encontramos situações em que o risco genético aponta para uma direção, enquanto o perfil microbiano aponta para outra. Isso indica que ambiente e genética nem sempre caminham juntos”

Tine Jess, professora de gastroenterologia da Universidade de Aalborg e coautora do estudo

Ao analisar dados de mais de 4.300 amostras fecais, os pesquisadores identificaram assinaturas bacterianas comuns entre diferentes doenças. Um exemplo é a redução consistente da bactéria Faecalibacterium prausnitzii em pacientes com Crohn e retocolite ulcerativa, além de artrite reumatoide.

Por outro lado, algumas dessas bactérias aparecem em níveis elevados em doenças como psoríase, sugerindo que o mesmo microrganismo pode exercer papéis opostos dependendo do contexto imunológico.

A correlação microbiana entre Crohn e retocolite ulcerativa foi de 0,51, valor considerado alto em estudos populacionais. Em análises de sensibilidade, essa correlação chegou a 0,74, reforçando a robustez do achado.

Implicações clínicas

Segundo os autores, os resultados têm impacto direto na prática médica. Pacientes com DII frequentemente desenvolvem outras doenças autoimunes ao longo da vida, o que exige abordagens terapêuticas integradas.

“Tratar cada doença isoladamente pode não ser suficiente. Nossos dados mostram que o sistema imunológico funciona como uma rede, não como compartimentos independentes”, afirma Vestergaard.

Os pesquisadores defendem que, no futuro, testes genéticos e análises da microbiota possam ajudar a prever quais pacientes têm maior risco de desenvolver múltiplas doenças imunomediadas, orientando decisões sobre medicamentos biológicos e terapias personalizadas.

Apesar da escala inédita, o estudo reconhece limitações. Os dados genéticos concentram-se em populações europeias, e as análises de microbiota são transversais, o que impede conclusões causais. Ainda assim, os autores consideram que o trabalho abre caminho para uma nova forma de classificar doenças autoimunes, baseada em mecanismos biológicos compartilhados.

“Precisamos repensar as fronteiras tradicionais entre doenças. A biologia não respeita os rótulos clínicos”, conclui Tine Jess 


Mais informações
Vestergaard, MV, Alfaro-Núñez, A., Sazonovs, A. et al. Análise multimodal desvenda as associações genéticas e microbianas entre doença inflamatória intestinal e outras doenças imunomediadas em uma estrutura populacional harmonizada. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68564-4

 

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