Pandemia reduziu sofrimento psicológico entre adolescentes japoneses, aponta estudo
A pesquisa acompanhou estudantes do ensino médio em Tóquio ao longo de mais de dois anos e sugere que a redução da rotina escolar e da pressão social pode ter funcionado, para parte dos jovens, como um fator de alívio emocional.

Domínio público
Contrariando a expectativa de agravamento generalizado da saúde mental, um estudo publicado nesta semana na revista PLOS Medicine indica que adolescentes japoneses apresentaram menores níveis de sofrimento psicológico durante a pandemia de Covid-19 em comparação ao período anterior. A pesquisa acompanhou estudantes do ensino médio em Tóquio ao longo de mais de dois anos e sugere que a redução da rotina escolar e da pressão social pode ter funcionado, para parte dos jovens, como um fator de alívio emocional.
O trabalho analisou 1.278 respostas mensais de 84 estudantes, com idades entre 16 e 18 anos, coletadas entre julho de 2019 e setembro de 2021, período que abrange tanto a fase pré-pandemia quanto diferentes momentos de estados de emergência decretados no Japão. Para medir o sofrimento psicológico, os pesquisadores utilizaram a escala Kessler-6 (K6), um instrumento amplamente empregado em estudos epidemiológicos de saúde mental.
Segundo os autores, antes da pandemia, os adolescentes se encontravam em um estado psicológico considerado “saudável” 11 vezes mais frequentemente do que em um estado “depressivo”. Durante a pandemia, essa proporção aumentou de forma significativa: o estado saudável passou a ocorrer até 18,5 vezes mais do que o depressivo em alguns períodos analisados.
“Nossos resultados mostram uma associação entre a pandemia e níveis mais baixos de sofrimento psicológico entre os adolescentes estudados”, escrevem os pesquisadores, liderados por Daiki Tatematsu, da Universidade de Nagoya. Eles ressaltam, no entanto, que o efeito não foi homogêneo para todos os participantes.
Menos escola, menos sofrimento
Um dos achados centrais do estudo é a relação entre redução dos dias presenciais de aula e melhora nos indicadores de saúde mental. Durante o primeiro estado de emergência no Japão, entre abril e maio de 2020, o número médio de dias de escola caiu drasticamente. Nesse mesmo período, os escores da escala K6 apresentaram queda estatisticamente significativa (teste de tendência de Jonckheere–Terpstra, p = 0,038).
Os autores levantam a hipótese de que o afastamento temporário de ambientes escolares altamente competitivos pode ter reduzido fontes crônicas de estresse. “A diminuição das interações sociais e das exigências escolares pode ter funcionado como um amortecedor psicológico para alguns estudantes”, afirmam.
Esse resultado dialoga com pesquisas anteriores que já haviam identificado efeitos ambíguos da pandemia sobre adolescentes: enquanto parte dos estudos aponta aumento de ansiedade e depressão, outros sugerem melhora do bem-estar em grupos específicos, especialmente entre jovens submetidos a altas pressões acadêmicas antes da crise sanitária.
Dois grupos, duas trajetórias
A análise identificou dois perfis distintos de estudantes. O primeiro, formado por 61 adolescentes, apresentou escores baixos e estáveis de sofrimento psicológico ao longo do tempo. O segundo grupo, com 23 participantes, exibiu níveis mais elevados e instáveis de sofrimento emocional.
Entre os jovens do segundo grupo, os pesquisadores observaram também alterações mais acentuadas no desenvolvimento cerebral, medidas por exames de ressonância magnética. Houve mudanças significativas na espessura cortical do giro frontal médio e do polo temporal, regiões associadas à regulação emocional e ao controle cognitivo (p < 0,05 após correção estatística).
Segundo os autores, esses achados não indicam causalidade direta, mas sugerem que trajetórias psicológicas distintas podem estar associadas a padrões diferentes de maturação cerebral na adolescência.
Um novo olhar metodológico
Além dos resultados, o estudo se destaca pelo uso de uma abordagem pouco comum em pesquisas em saúde mental: a chamada análise de paisagem de energia, inspirada na física estatística. Em vez de resumir o sofrimento psicológico em uma única pontuação, o método modela os estados mentais como sistemas dinâmicos, permitindo observar transições entre estados “saudáveis” e “depressivos” ao longo do tempo.
Para os autores, essa estratégia pode melhorar o monitoramento da saúde mental em situações de crise. “Abordagens baseadas em sistemas dinâmicos podem oferecer ferramentas mais sensíveis para vigilância em saúde mental durante futuras pandemias”, concluem.
Limites e próximos passos
Os pesquisadores reconhecem limitações importantes. Todos os participantes viviam em Tóquio, o que restringe a generalização dos resultados para outras regiões e países. Além disso, o estudo é observacional e não permite afirmar que a pandemia, por si só, tenha causado a redução do sofrimento psicológico.
Ainda assim, o trabalho desafia narrativas simplificadoras sobre os impactos da Covid-19 na juventude. Ao mostrar que parte dos adolescentes pode ter experimentado alívio emocional em meio à crise, o estudo reforça a necessidade de políticas educacionais e de saúde mental mais sensíveis à diversidade de experiências juvenis.
Mais informações
Daiki Tatematsu, Naotoshi Nakamura, Masato S. Abe, Tetsuo Ishikawa, Takahiro Ezaki, Lin Cai, Eiryo Kawakami, Kazuyuki Aihara, Atsushi Nishida, Naohiro Okada, Naoki Masuda, Kiyoto Kasai, Shinsuke Koike, Shingo Iwami
Artigo de pesquisa | publicado em 22 de janeiro de 2026 na PLOS Medicine. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004884