Um programa estruturado de aconselhamento para estimular a prática de atividade física e reduzir o tempo sedentário foi associado a uma redução de até 60% no risco de morte entre pessoas com diabetes tipo 2. A conclusão é de um estudo italiano que acompanhou pacientes por mais de uma década e foi publicado nesta quinta-feira (22), na revista científica Nature Communications.
A pesquisa analisou dados de 300 adultos com diabetes tipo 2, inicialmente sedentários, atendidos em ambulatórios especializados em Roma. Os participantes foram acompanhados por um período médio de 10,3 anos, um dos mais longos já registrados em ensaios clínicos desse tipo.
Segundo os resultados, 18 pessoas morreram no grupo que recebeu o aconselhamento comportamental, contra 35 mortes no grupo que recebeu apenas o tratamento padrão, diferença considerada estatisticamente significativa (p = 0,010).
“Uma intervenção comportamental focada em todos os domínios da atividade física e na redução do tempo sentado está associada a uma diminuição significativa da mortalidade de longo prazo”, afirma o endocrinologista Giuseppe Pugliese, professor da Universidade de Roma La Sapienza.
Menos sedentarismo, mais vida
O estudo faz parte do Italian Diabetes and Exercise Study 2 (IDES_2), um ensaio clínico randomizado que avaliou os efeitos de um programa de aconselhamento teórico e prático, oferecido uma vez por ano durante três anos. A proposta não era apenas incentivar exercícios intensos, mas reduzir o tempo sentado e aumentar atividades leves do dia a dia, como caminhar mais, subir escadas ou interromper longos períodos sentado.
Embora o aumento médio de atividade física moderada tenha sido modesto — cerca de 6 minutos por dia, reduzidos para 3,6 minutos ao final do estudo — houve uma redução sustentada de aproximadamente 48 minutos diários de comportamento sedentário, compensada por atividades leves.
Esse padrão foi decisivo. Após ajustes por idade, sexo, uso de medicamentos e perfil de risco cardiovascular, o risco de morte no grupo intervenção foi 50% menor (HR 0,498). Quando considerados fatores adicionais, como nível de aptidão física, a redução chegou a 59% (HR 0,414).
Impacto maior sobre mortes por câncer
Um dos achados mais inesperados foi a diferença nas causas de morte. O grupo que participou do programa apresentou uma queda expressiva nas mortes por câncer — cerca de quatro vezes menos do que o grupo controle. Já as mortes por doenças cardiovasculares não apresentaram diferença significativa entre os grupos, possivelmente devido ao número reduzido de eventos.
Para os autores, o resultado pode estar ligado ao foco do programa em reduzir o tempo sentado, fator cada vez mais associado ao risco de câncer de forma independente da prática de exercícios intensos.
“Evidências recentes mostram que longos períodos sentados estão associados ao aumento da incidência de câncer, mesmo entre pessoas que cumprem recomendações de atividade física”, explicam os pesquisadores.
Um contraste com grandes estudos internacionais
Os resultados diferem de grandes estudos anteriores, como o Look AHEAD, realizado nos Estados Unidos, que não encontrou redução significativa da mortalidade com intervenções baseadas em dieta e exercício. Para os autores do IDES_2, a explicação está no modelo da intervenção.
Enquanto outros programas priorizaram a perda de peso e exercícios moderados a intensos, o estudo italiano apostou em mudanças sustentáveis de comportamento, com foco em atividades leves e na diminuição do sedentarismo ao longo do dia.
“Não se trata apenas de fazer mais exercício, mas de sentar menos e se mover mais em todos os contextos da vida cotidiana”, afirma Stefano Balducci, coordenador do estudo e professor de medicina da Universidade de Roma.
Limitações e próximos passos
Os próprios autores ressaltam que a análise é pós-hoc, ou seja, não foi planejada originalmente para avaliar mortalidade, e que o número de mortes ainda é relativamente pequeno. Além disso, não houve monitoramento direto da atividade física após o término da intervenção.
Mesmo assim, especialistas destacam que os achados reforçam a importância de políticas públicas e estratégias clínicas voltadas à mudança de comportamento, especialmente em uma população com risco elevado de morte precoce, como pessoas com diabetes tipo 2.
“Esses dados têm implicações clínicas relevantes e apontam caminhos mais realistas para promover longevidade”, conclui Pugliese
Mais informações
Balducci, S., Haxhi, J., Vitale, M. et al. Efeito do aconselhamento comportamental para a adoção e manutenção de um estilo de vida fisicamente ativo na mortalidade a longo prazo em pessoas com diabetes tipo 2: análise post hoc do Estudo Italiano de Diabetes e Exercício_2. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68618-7