Saúde

Tratamentos contra o câncer na infância deixam marcas no DNA e elevam risco de doenças metabólicas na vida adulta
A pesquisa analisou dados de 2.938 sobreviventes de câncer diagnosticados ainda na infância, acompanhados por meio da coorte St. Jude Lifetime Cohort (SJLIFE).
Por Laercio Damasceno - 23/01/2026


Getty Images


Sobreviventes de câncer infantil apresentam maior risco de obesidade, diabetes e hipertensão décadas após o tratamento, e a explicação pode estar registrada no próprio DNA. É o que revela um estudo internacional liderado por pesquisadores do St. Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos, publicado na revista científica Nature Communications.

A pesquisa analisou dados de 2.938 sobreviventes de câncer diagnosticados ainda na infância, acompanhados por meio da coorte St. Jude Lifetime Cohort (SJLIFE). Segundo os autores, 58% desses adultos jovens apresentavam ao menos um fator de risco cardiometabólico, como obesidade, alteração da glicose, colesterol alto ou pressão elevada.

“Os tratamentos contra o câncer podem deixar uma ‘assinatura biológica’ duradoura, que ajuda a explicar por que esses pacientes desenvolvem doenças metabólicas anos depois”, afirma Zhaoming Wang, pesquisador do St. Jude e autor sênior do estudo.

Alterações no DNA ajudam a explicar o problema

O trabalho identificou 1.893 regiões do DNA com alterações químicas, conhecidas como metilação do DNA, associadas a fatores de risco cardiometabólico. Essas modificações não mudam os genes em si, mas afetam seu funcionamento ao longo do tempo.

A obesidade foi o problema mais frequente entre os participantes, atingindo 41% dos sobreviventes, seguida por hipertensão (29%), triglicerídeos elevados (20%), colesterol alto (16%) e glicose alterada (10%).

“Essas alterações epigenéticas funcionam como uma memória molecular da exposição aos tratamentos”, explica Tiffany Eulalio, primeira autora do estudo e pesquisadora em epidemiologia no St. Jude.

Radioterapia tem impacto mais forte

Entre os tratamentos analisados, a radioterapia aplicada no tronco do corpo — que inclui tórax, abdômen e pelve — apresentou o efeito mais intenso sobre o DNA. De acordo com os dados, até 24% do risco de alterações metabólicas, como glicose elevada, pode ser explicado por mudanças epigenéticas induzidas por esse tipo de radiação.

Um dos principais achados envolve um ponto específico do DNA próximo ao gene ANTXR2, responsável por processos inflamatórios e pela saúde dos vasos sanguíneos. Essa alteração sozinha explicou 20% da associação entre radioterapia e alterações na glicose, um fator diretamente ligado ao diabetes tipo 2.

Os cientistas também identificaram cinco regiões do DNA associadas simultaneamente a todos os fatores de risco analisados, incluindo obesidade, colesterol alto e hipertensão. Algumas dessas regiões estão ligadas aos genes CPT1A, relacionado ao metabolismo de gorduras, e LMNA, associado a doenças cardiovasculares.

Segundo os autores, isso indica que diferentes doenças metabólicas podem compartilhar mecanismos biológicos comuns, desencadeados ainda durante o tratamento do câncer.

Impacto para a medicina e o acompanhamento clínico

Para especialistas, os resultados reforçam a necessidade de monitoramento precoce e personalizado dos sobreviventes de câncer infantil.

“Esses marcadores epigenéticos podem ajudar a identificar quem tem maior risco e orientar intervenções antes que as doenças se instalem”, afirma Gregory T. Armstrong, epidemiologista do St. Jude e coautor do estudo.

Os pesquisadores destacam que, apesar dos avanços, o estudo foi feito com dados de sangue periférico e em uma única coorte, o que exige novas pesquisas em outras populações para confirmar os achados.

Ainda assim, o trabalho abre caminho para que o DNA funcione como um registro biológico dos efeitos tardios do tratamento contra o câncer, auxiliando médicos e pacientes a planejar cuidados de longo prazo.


Mais sobre o artigo
Eulalio, T., Kim, Y., Meng, X. et al. Análise epigenômica abrangente identifica mediadores de metilação do DNA associados ao risco cardiometabólico relacionado ao tratamento em sobreviventes de câncer infantil. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68689-6

 

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