Saúde

Frio que mata: estudo revela que queda mínima de temperatura triplica risco de morte em vítimas de trauma
Publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, o estudo acompanhou 334 pacientes adultos vítimas de politraumatismo, atendidos entre agosto de 2022 e fevereiro de 2024, em Barcelona.
Por Laercio Damasceno - 24/01/2026


Domínio público


Uma queda aparentemente pequena na temperatura corporal pode ser decisiva entre a vida e a morte de vítimas de múltiplos traumas. É o que mostra um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona e do Hospital Universitário Vall d’Hebron, um dos maiores centros de trauma da Europa. A pesquisa indica que pacientes que chegam ao hospital com temperatura corporal abaixo de 36 °C têm até três vezes mais risco de morrer, mesmo quando a hipotermia ainda é considerada “leve”.

Publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, o estudo acompanhou 334 pacientes adultos vítimas de politraumatismo, atendidos entre agosto de 2022 e fevereiro de 2024, em Barcelona. A taxa geral de mortalidade foi de 10,2%, mas entre os pacientes com temperatura inferior a 36 °C, o risco de morte aumentou de forma expressiva.

“Para cada redução de 1 grau na temperatura corporal, as chances de morte aumentam em 72%”, afirma o médico anestesiologista Robert Blasco Mariño, autor principal do estudo e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Autônoma de Barcelona.

Hipotermia além do inverno

Tradicionalmente associada ao frio intenso, a hipotermia em vítimas de trauma mostrou-se um fenômeno mais amplo e menos dependente do clima do que se imaginava. O estudo revela que mais da metade dos pacientes hipotérmicos chegou ao hospital fora do inverno, em uma região de clima mediterrâneo, considerada amena durante boa parte do ano.

Segundo os pesquisadores, o resfriamento do corpo ocorre não apenas pela exposição ambiental, mas também por fatores como hemorragias, anestesia, sedação, ventilação mecânica e falhas na termorregulação após o trauma.

“A hipotermia não é apenas um marcador da gravidade do trauma. Ela é um fator independente de risco, modificável e prevenível"

Blasco Mariño

Entre os pacientes analisados, 43,4% chegaram ao hospital com temperatura inferior a 36 °C. Já os casos de hipotermia mais grave, abaixo de 35 °C, apresentaram uma taxa de mortalidade de 23%, mais que o dobro da média geral.

Mesmo após ajustes estatísticos que consideraram idade, gravidade das lesões (ISS), estado neurológico e condições clínicas prévias, a temperatura corporal manteve-se como um dos mais fortes preditores de morte, com alta capacidade de discriminação (AUC de 0,92).

Debate histórico na medicina do trauma

O papel da hipotermia em vítimas de trauma é discutido há décadas. Desde os anos 2000, grandes bancos de dados internacionais já apontavam a associação entre frio corporal e mortalidade. O novo estudo, no entanto, avança ao mostrar que temperaturas consideradas “normais-baixas” também representam perigo, desafiando protocolos tradicionais.

As conclusões entram em choque com diretrizes recentes do Advanced Trauma Life Support (ATLS), que definem hipotermia apenas abaixo de 35 °C. Já manuais europeus recomendam manter vítimas de trauma acima de 36 °C — posição agora reforçada pelos dados espanhóis.

Impacto para serviços de emergência

Os autores defendem mudanças urgentes na prática clínica, como a medição sistemática da temperatura desde o atendimento pré-hospitalar, uso precoce de cobertores térmicos, aquecimento de fluidos intravenosos e maior atenção ao controle térmico durante cirurgias e exames.

“A temperatura corporal deve ser tratada como um sinal vital crítico, assim como pressão arterial ou nível de consciência”, afirma o pesquisador Alfonso Biarnés-Suñé, coautor do estudo e especialista em anestesiologia no Hospital Vall d’Hebron.

Em um cenário global em que o trauma é responsável por 4,4 milhões de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, os pesquisadores destacam que combater a hipotermia é uma das intervenções mais simples, baratas e eficazes disponíveis nos serviços de emergência.

“Evitar que o paciente esfrie pode ser tão importante quanto controlar o sangramento”, resume Blasco Mariño.


Mais sobre o artigo
Blasco Mariño, R., González Posada, MÁ, Soteras Martínez, I. et al. Temperatura corporal como preditor de mortalidade em pacientes politraumatizados: estudo prospectivo de coorte unicêntrico. Representante Científico (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-35372-1

 

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