Pesquisadores analisaram resposta imunológica ao xenotransplante de porco geneticamente modificado em um paciente vivo, ajudando a pensar estratégias para conter rejeição e inflamação persistente

Escassez de órgãos para transplante obriga a maioria dos pacientes a depender da diálise – Foto: Freepik
Um estudo internacional publicado na revista Nature Medicine descreveu, de forma inédita e detalhada, como o sistema imunológico humano reage ao transplante de um rim de porco geneticamente modificado em um paciente vivo. A pesquisa marca um avanço importante na área de xenotransplantes — procedimento que utiliza órgãos de animais para suprir a escassez de doações humanas — e contou com a participação de pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.
O trabalho analisou o caso de um homem de 62 anos com doença renal em estágio terminal, que recebeu o transplante em março de 2024 no Massachusetts General Hospital, ligado à Harvard Medical School, nos Estados Unidos.
“A possibilidade de xenotransplante já é estudada há alguns anos, mas este foi o primeiro estudo em um paciente vivo que permitiu entender, em detalhe, os mecanismos imunológicos por trás do transplante”, explica Helder Nakaya, coordenador do grupo de pesquisa de Biologia Integrativa no IPSP, pesquisador do Hospital Israelita Albert Einstein e professor da FCF.
Embora o enxerto tenha funcionado inicialmente e a rejeição precoce tenha sido controlada com medicamentos, o estudo mostrou que a inflamação do organismo persistiu, mesmo com o uso intenso de imunossupressores. O achado indica que não basta controlar apenas a chamada imunidade adaptativa — ligada às células T e B, tradicionalmente alvo dos tratamentos pós-transplante. É necessário também olhar com atenção para a imunidade inata, a primeira linha de defesa do organismo, que envolve células como monócitos e macrófagos.
De acordo com o artigo, a grave escassez de órgãos para transplante obriga a maioria dos pacientes a depender da diálise. Porém, “mais da metade dos pacientes na lista de espera para transplante sucumbirá à doença em uma média de cinco anos — um prognóstico pior do que muitos tipos de câncer — ou ficará muito debilitada para se submeter ao transplante quando um rim se tornar disponível”, apontam os autores.

Cronograma de coleta de amostras do paciente três dias antes até 51 dias após o transplante – Foto: Retirada do artigo
Biologia integrativa
A participação brasileira contribuiu para a análise integrada dos dados biológicos complexos gerados ao longo do acompanhamento do paciente. Um dos autores do artigo é André F. Cunha, pesquisador do IPSP orientado por Nakaya.
“O estudo demonstrou que uma análise multiômica — integrando dados de transcriptômica, proteômica e metabolômica — permite enxergar coisas que os métodos tradicionais não conseguem”, afirma o professor. “No sangue, parecia que a rejeição estava controlada, mas, analisando o enxerto, foi vista uma infiltração de células T e, principalmente, uma resposta imune inata muito ativa.”
Segundo Nakaya, os tratamentos atuais de transplante focam quase exclusivamente na imunidade adaptativa. “O artigo mostrou que a gente não pode negligenciar a resposta imune inata”, destaca.
Outro ponto relevante do estudo foi o uso de fragmentos de DNA do porco circulando no sangue do paciente como ferramenta de monitoramento do enxerto. Quando o sistema imunológico ataca o órgão transplantado, células do rim liberam DNA suíno, que pode ser detectado em exames de sangue.
“É um jeito menos invasivo de monitorar se o enxerto está sendo atacado ou não”, explica Nakaya. “Isso pode reduzir a necessidade de biópsias e permitir um acompanhamento mais preciso do transplante.”
Cooperação internacional
A pesquisa é resultado de uma colaboração internacional liderada por pesquisadores brasileiros que atuam nos Estados Unidos, como Leonardo V. Riella e Thiago J. Borges, em parceria com instituições brasileiras. O estudo reforça o papel da biologia de sistemas e da integração de grandes volumes de dados para compreender fenômenos complexos da imunologia humana.
“A nossa expertise aqui no Brasil foi justamente ajudar a integrar esses dados e a entender o que estava acontecendo na resposta imunológica desse paciente”, resume Nakaya.
Os resultados indicam que, para que o xenotransplante se torne uma opção clínica segura e duradoura, será necessário desenvolver novas estratégias terapêuticas que controlem não apenas a rejeição clássica, mas também a inflamação persistente mediada pela imunidade inata.