Saúde

Exame de sangue, saliva e secreção vaginal pode encurtar em anos o diagnóstico da endometriose
Estudo internacional identifica microRNAs como marcadores promissores para um teste não invasivo; hoje, doença leva até 12 anos para ser confirmada.
Por Laercio Damasceno - 25/01/2026


Domínio público


Um exame simples, feito a partir de sangue, saliva ou secreção vaginal, pode mudar a história do diagnóstico da endometriose — uma doença crônica, dolorosa e ainda subdiagnosticada que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo. É o que aponta um estudo publicado neste mês na revista Scientific Reports, do grupo Nature, liderado por pesquisadores do Peking Union Medical College Hospital, na China, em parceria com instituições dos Estados Unidos.

A pesquisa identificou microRNAs (miRNAs) — pequenas moléculas que regulam a expressão dos genes — como potenciais biomarcadores não invasivos da endometriose. Hoje, o diagnóstico definitivo ainda depende, na maior parte dos casos, de laparoscopia, um procedimento cirúrgico. Como consequência, o atraso médio entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença varia de 5 a 12 anos, segundo dados da JAMA e da Sociedade Europeia de Reprodução Humana (ESHRE).

“A ausência de métodos diagnósticos confiáveis e não invasivos contribui diretamente para o atraso no diagnóstico e para a progressão da doença”, afirmam os autores no artigo.

Três fluidos, uma pista molecular

O estudo analisou amostras de soro sanguíneo, saliva e muco vaginal de 20 mulheres — 10 com endometriose moderada ou grave e 10 sem a doença. Utilizando sequenciamento genético de nova geração, os pesquisadores mapearam o perfil de microRNAs em cada fluido corporal.

O resultado mostrou que o sangue concentra a maior quantidade de miRNAs, mas também revelou algo inédito: o muco vaginal, coletado rotineiramente em exames ginecológicos, apresentou um número expressivo dessas moléculas e pode se tornar uma nova fronteira para diagnósticos menos invasivos.

“Este é o primeiro estudo a comparar, de forma sistemática, o perfil de microRNAs em três fluidos corporais diferentes, incluindo o muco vaginal”, explica a ginecologista Jinghua Shi, uma das autoras principais, vinculada à Academia Chinesa de Ciências Médicas.

Dois microRNAs se destacam

Entre dezenas de moléculas analisadas, duas chamaram atenção no sangue: miR-200a-3p e miR-200b-3p. Em testes de validação, elas demonstraram capacidade moderada de diferenciar pacientes com e sem endometriose, com áreas sob a curva (AUC) de 0,60 e 0,64, respectivamente.

Embora os autores reconheçam que os números ainda são preliminares, o achado reforça evidências anteriores de que a família miR-200 está associada a processos centrais da doença, como inflamação, proliferação celular e remodelação tecidual.

Domínio público

“Os resultados são consistentes entre diferentes métodos e indicam relevância biológica, mas precisam ser confirmados em estudos maiores”, pondera Jinhua Leng, professora do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da universidade chinesa.

Do laboratório ao impacto social

Descrita pela primeira vez no século 19, a endometriose permanece cercada de estigmas e desconhecimento. Estima-se que mais de 190 milhões de mulheres convivam com a doença globalmente, muitas delas enfrentando dor crônica, infertilidade e prejuízos à vida profissional e social.

Para especialistas, um teste não invasivo poderia ter impacto direto na qualidade de vida, reduzir custos hospitalares e evitar anos de sofrimento silencioso.

“Se conseguirmos transformar esses biomarcadores em exames clínicos acessíveis, estaremos diante de uma mudança de paradigma”, avaliam os autores, que defendem novos estudos com amostras maiores e inclusão de pacientes em estágios iniciais da doença.

O próprio artigo reconhece limitações: o número reduzido de participantes, a ausência de validação externa e o foco em casos mais graves. Ainda assim, ao integrar dados genéticos e proteômicos, o trabalho abre caminho para uma abordagem mais precisa e menos invasiva.

Num cenário em que a endometriose ainda é diagnosticada tarde — e muitas vezes desacreditada —, a ciência começa a oferecer uma resposta concreta a uma demanda histórica das pacientes: ser ouvida, acreditada e diagnosticada a tempo.


Mais sobre o artigo
Lyu, S., Li, Q., Gu, Z. et al. Identificação de potenciais biomarcadores de microRNA para endometriose em diferentes fluidos corporais. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-37277-5

 

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