Saúde

Células do câncer de cólon 'dividem de forma desigual' e ampliam a diversidade do tumor, mostra estudo
Pesquisa publicada na revista eLife revela que tumores colorretais exploram um mecanismo clássico da biologia para ganhar plasticidade e resistência.
Por Laercio Damasceno - 25/01/2026


Foto: Istock


Um dos traços mais intrigantes — e perigosos — do câncer é a sua capacidade de mudar. Dentro de um mesmo tumor, células aparentemente idênticas podem se comportar de formas muito diferentes, reagindo de maneira desigual a tratamentos e favorecendo recaídas. Um estudo internacional publicado neste mês na revista científica eLife ajuda a explicar parte desse fenômeno ao mostrar que células de câncer de cólon “trapaceiam” no momento da divisão celular, repartindo seu conteúdo interno de maneira desigual e ampliando a diversidade do tumor.

A pesquisa foi liderada por Domenico Caudo e Mattia Miotto, do Istituto Italiano di Tecnologia e da Universidade Sapienza de Roma, em colaboração com cientistas da Universidade de Milão e do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália (CNR). O trabalho analisou linhagens humanas de câncer colorretal e células normais do cólon, combinando experimentos de citometria de fluxo — técnica amplamente usada em hospitais e laboratórios — com modelos matemáticos e microscopia de alta resolução.

O resultado central é que diferentes tipos de células tumorais não se dividem de forma “justa”. Em vez de repartir igualmente o citoplasma — a parte interna da célula onde ficam proteínas, organelas e outras estruturas —, algumas linhagens produzem células-filhas maiores e menores, cada uma herdando quantidades distintas de componentes essenciais. Essa assimetria, mostram os autores, gera flutuações que aumentam a heterogeneidade celular, um combustível conhecido da agressividade tumoral.

“Durante muito tempo, a divisão assimétrica foi vista como uma característica quase exclusiva de células-tronco e do desenvolvimento embrionário”, afirma Mattia Miotto, físico e biólogo computacional da Sapienza. “O que mostramos é que células cancerígenas podem se apropriar desse mecanismo para aumentar sua plasticidade e, possivelmente, sua adaptação a ambientes hostis, como a quimioterapia”.

Do embrião ao tumor

A ideia de divisão celular desigual não é nova. Em 1905, o biólogo americano Edwin Conklin descreveu como embriões distribuem assimetricamente moléculas para determinar o destino das células. Ao longo do século 20, esse conceito se consolidou como peça-chave da diferenciação celular. Mais recentemente, evidências começaram a surgir de que bactérias e células tumorais também exploram o mesmo princípio.

O avanço do novo estudo está na escala e na precisão da medição. Até agora, a maioria das análises dependia de microscopia, um método detalhado, porém lento e restrito a poucas dezenas de divisões celulares. A equipe italiana desenvolveu um protocolo baseado em citometria de fluxo, capaz de analisar milhares de células ao longo de várias gerações, medindo estatisticamente o “ruído” na partilha do citoplasma.

Nos experimentos, os pesquisadores marcaram o citoplasma das células com corantes fluorescentes e acompanharam como essa fluorescência se diluía ao longo das divisões. Em condições ideais, cada geração deveria apresentar metade do sinal da anterior. O que se observou, porém, foi um espalhamento muito maior em certas linhagens tumorais.

Tumores não são todos iguais

As diferenças foram marcantes. A linhagem Caco-2, derivada de um adenocarcinoma colorretal, apresentou o maior grau de assimetria na divisão. Já a linhagem HCT116, também tumoral, mostrou um padrão muito mais próximo da divisão simétrica. Células normais de fibroblastos do cólon ficaram em um nível intermediário.

Segundo os autores, isso sugere que a divisão desigual não é apenas um efeito colateral do câncer, mas pode estar ligada a características específicas de cada tumor. “Não existe um único ‘modo de dividir’ no câncer colorretal”, diz Domenico Caudo. “Algumas células parecem explorar mais intensamente a assimetria para gerar diversidade interna”.

A análise matemática mostrou ainda que essas flutuações não dependem apenas de erros aleatórios, mas estão associadas ao tamanho das células-filhas: quem nasce maior herda mais citoplasma. Em termos biológicos, isso significa que diferenças físicas simples podem se traduzir em destinos celulares distintos — maior capacidade de crescimento, resistência ao estresse ou adaptação metabólica.

Impacto clínico e social

O câncer colorretal é o terceiro mais comum no mundo e uma das principais causas de morte por câncer no Brasil. Segundo dados do Inca, são estimados mais de 45 mil novos casos por ano no país. A heterogeneidade tumoral é um dos maiores obstáculos ao tratamento: mesmo quando a maioria das células responde à terapia, subpopulações resistentes podem sobreviver e dar origem a novos tumores.

Embora o estudo seja fundamentalmente básico, ele abre caminhos para aplicações futuras. Como a citometria de fluxo já é rotina em hospitais, os autores sugerem que o método pode, no futuro, ser usado para caracterizar o grau de assimetria em tumores reais, ajudando a prever comportamento agressivo ou resposta a tratamentos.

Além disso, o trabalho reforça uma mudança de visão na oncologia: mais do que mutações genéticas, processos físicos e estatísticos da célula — como a forma de dividir seu conteúdo — podem ter papel decisivo na evolução do câncer.

“Entender como a variabilidade surge é essencial”, afirma Miotto. “Se conseguirmos mapear essas flutuações, talvez possamos pensar em estratégias para limitá-las e reduzir a capacidade de adaptação dos tumores”.


Ao revelar que o câncer pode reciclar um mecanismo antigo da biologia para aumentar suas chances de sobrevivência, o estudo ajuda a iluminar uma das zonas mais obscuras da doença — aquela em que física, matemática e biologia se encontram para moldar o destino das células.


Mais sobre o artigo
Artigo publicado pela eLife. DOI https://doi.org/10.7554/eLife.104528.

 

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