Brasil vive dupla crise nutricional na infância: obesidade avança enquanto atraso no crescimento persiste entre os mais pobres
A pesquisa analisou dados de 6,49 milhões de crianças brasileiras, acompanhadas do nascimento até os 9 anos de idade, todas usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e inscritas no Cadastro Único para programas sociais.

Domínio público
O Brasil entra em 2026 diante de um paradoxo alarmante na saúde infantil. Ao mesmo tempo em que a obesidade cresce de forma acelerada entre crianças de famílias de baixa renda, o atraso no crescimento — marca histórica da pobreza extrema — segue sem solução em grupos vulneráveis, especialmente entre crianças indígenas do Norte do país. O retrato está no maior estudo já realizado sobre o tema no Brasil, publicado em janeiro na revista científica JAMA Network Open.
A pesquisa analisou dados de 6,49 milhões de crianças brasileiras, acompanhadas do nascimento até os 9 anos de idade, todas usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e inscritas no Cadastro Único para programas sociais. Os números revelam que 12,6% das crianças apresentavam sobrepeso e 7,5% já eram obesas, enquanto 6,7% sofriam de baixa estatura para a idade, um indicador clássico de desnutrição crônica.
“Estamos diante da coexistência de dois problemas graves: o excesso de peso e a falha no crescimento linear”, afirma o epidemiologista Gustavo Velasquez-Melendez, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um dos coordenadores do estudo. “Isso mostra que a transição nutricional no Brasil ocorreu de forma desigual e incompleta.”
Obesidade cresce com a idade e atinge mais os meninos
Os dados mostram que a obesidade infantil aumenta conforme a criança cresce. Aos 5 anos, 8,5% das crianças já eram obesas; aos 9, esse número sobe para 10,1%, com maior incidência entre meninos (14,1%) do que entre meninas (10,1%). O sobrepeso atinge quase três em cada dez crianças aos 9 anos, um patamar considerado elevado por padrões internacionais.
As maiores prevalências de obesidade concentram-se nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde mais de 10% das crianças apresentam obesidade em praticamente todos os estados. O padrão reflete mudanças no consumo alimentar, com maior presença de produtos ultraprocessados e estilos de vida cada vez mais sedentários.

Domínio público
“O crescimento econômico e as políticas de transferência de renda ampliaram o acesso aos alimentos, mas isso veio acompanhado de dietas de baixa qualidade nutricional”, explica Maurício Lima Barreto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e autor sênior do estudo.
Norte e população indígena seguem para trás
Se o excesso de peso avança, o atraso no crescimento segue como um problema estrutural. O estudo mostra que crianças da Região Norte apresentam os piores indicadores de estatura em relação à idade. Entre crianças indígenas, o cenário é ainda mais grave: não há recuperação do crescimento nem aos 9 anos, algo incomum em outras populações.
Segundo os autores, crianças indígenas mantêm, em média, um déficit de estatura próximo a 1 desvio-padrão abaixo do padrão da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante toda a infância. “Isso indica privações persistentes, ligadas a acesso precário a saneamento, água potável, serviços de saúde e alimentação adequada”, afirma Barreto.
Estudos anteriores já haviam apontado que crianças indígenas no Brasil são, em média, 3 centímetros mais baixas do que crianças brancas na mesma idade. A nova pesquisa confirma que essa desigualdade não diminui com o tempo.
Um retrato histórico da desigualdade
O trabalho faz parte da chamada Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros, que integra dados do Cadastro Único, do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Trata-se do maior esforço já realizado no país para acompanhar, de forma longitudinal, o crescimento infantil em populações de baixa renda.
Desde os anos 2000, o Brasil reduziu de forma expressiva a desnutrição infantil, impulsionado por políticas como o Bolsa Família, a ampliação da atenção básica e programas de suplementação alimentar. No entanto, o estudo mostra que esses avanços não foram suficientes para eliminar desigualdades regionais e raciais — e tampouco para conter o avanço da obesidade.
“A baixa estatura na infância está associada a pior desempenho escolar, menor renda na vida adulta e maior risco de doenças crônicas”, lembra Velasquez-Melendez. “Já a obesidade precoce aumenta a probabilidade de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares no futuro.”
Impacto público e desafio político
Os autores defendem políticas públicas mais específicas e integradas. Entre as recomendações estão restrições à publicidade de alimentos ultraprocessados voltada a crianças, fortalecimento da alimentação escolar, incentivo à atividade física e ações focadas em territórios vulneráveis, especialmente comunidades indígenas.
“O Brasil precisa enfrentar simultaneamente a fome oculta e o excesso de calorias vazias”, diz Barreto. “Sem isso, estaremos produzindo uma geração mais doente e aprofundando desigualdades que já são históricas.”
O estudo reforça um alerta: melhorar o acesso à comida não basta. A qualidade da alimentação, as condições de vida e a equidade no acesso à saúde seguem como fatores decisivos para o futuro das crianças brasileiras.
Mais sobre o artigo
Mauricio Lima Barreto, PhD, Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde, Instituto Gonçalo Moniz, Fundação Oswaldo Cruz, Rua Waldemar Falcão, 121, Candeal, 40296-710, Salvador, Bahia, Brasil ( mauricio.barreto@fiocruz.br ). Publicado JAMA Netw Open - janeiro de 2026 - 2026;9;(1):e2553530. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.53530