Exame de sangue pode antecipar gravidade do AVC e mudar atendimento de emergência
Estudo internacional identifica microRNAs como marcadores precoces da severidade do AVC isquêmico e aponta caminho para diagnósticos mais rápidos, antes mesmo da imagem cerebral.

Domínio público
Um simples exame de sangue pode ajudar médicos a prever, logo na chegada ao hospital, quais pacientes com AVC isquêmico terão quadros mais graves e piores desfechos. É o que indica um estudo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, que identificou microRNAs circulantes — pequenas moléculas reguladoras do genoma — como biomarcadores promissores da gravidade do acidente vascular cerebral, responsável por cerca de 85% dos casos de AVC no mundo.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Médica de Varsóvia e da Universidade de Varsóvia, na Polônia, em colaboração com centros da Turquia. Foram analisadas amostras de sangue de 60 pacientes com AVC isquêmico agudo e 30 indivíduos controles, acompanhados desde a admissão hospitalar até o sétimo dia após o evento. Os resultados sugerem que níveis elevados de um microRNA específico, o miR-16-5p, estão fortemente associados a déficits neurológicos mais graves e a pior recuperação funcional.
“Identificamos que pacientes com níveis mais altos de miR-16-5p na admissão tinham até seis vezes mais chance de evoluir para desfechos desfavoráveis”, afirma a farmacologista Ceren Eyileten, autora correspondente do estudo e pesquisadora do Departamento de Farmacologia Experimental e Clínica da Universidade Médica de Varsóvia. Segundo ela, o marcador se mostrou independente de fatores clássicos como idade, sexo ou histórico cardiovascular.
Um gargalo histórico no tratamento
O achado ganha relevância diante de um velho problema da neurologia: o tempo. O tratamento mais eficaz para o AVC isquêmico — a trombólise — precisa ser iniciado em até 4,5 horas após o início dos sintomas. Na prática, porém, menos de 15% dos pacientes conseguem receber a terapia dentro dessa janela. A demora no reconhecimento do AVC e o acesso limitado a exames de imagem avançados, como tomografia e ressonância magnética, ainda são barreiras centrais, sobretudo em hospitais menores e regiões periféricas.
“Biomarcadores sanguíneos podem ser coletados rapidamente, inclusive em unidades sem neurologista ou tomógrafo disponível”, explica Marek Postula, coautor do estudo e professor da Universidade Médica de Varsóvia. “Eles não substituem a imagem, mas podem ajudar a estratificar risco e priorizar pacientes críticos.”
O que mostram os números
O estudo avaliou seis microRNAs previamente associados a doenças cardiovasculares. Dois deles, miR-125a-3p e miR-125a-5p, apresentaram valor diagnóstico moderado para diferenciar pacientes com AVC de indivíduos sem a doença, com áreas sob a curva (AUC) de até 0,71 — um desempenho comparável ao de alguns exames laboratoriais já usados na prática clínica.
Já o miR-16-5p se destacou como marcador prognóstico. Entre os pacientes com níveis elevados dessa molécula, 65,6% evoluíram com AVC moderado ou grave, contra 28,6% no grupo com níveis mais baixos. Mesmo após ajuste estatístico, o microRNA e a proteína inflamatória CRP permaneceram como preditores independentes de mau prognóstico.

(Foto: FondoScience)
Análises bioinformáticas e de aprendizado de máquina indicaram que o miR-16-5p regula genes ligados à inflamação, coagulação, hipóxia e ativação plaquetária — processos centrais na fisiopatologia do AVC. Entre os principais alvos estão IL-6, ICAM-1 e TLR4, todos já associados à extensão da lesão cerebral e à recuperação neurológica.
O AVC é hoje uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. Segundo estimativas globais citadas no estudo, milhões de pessoas vivem com sequelas permanentes, gerando alto custo social e econômico. A possibilidade de prever gravidade e desfecho logo nas primeiras horas pode influenciar decisões críticas, como transferência para centros especializados, indicação de terapias invasivas e alocação de leitos de UTI.
Os autores ressaltam, porém, que os resultados ainda precisam ser confirmados em estudos maiores e multicêntricos. “O miR-16-5p não é específico do AVC e provavelmente funcionará melhor como parte de um painel de biomarcadores”, pondera Eyileten. Ainda assim, o trabalho reforça uma mudança de paradigma: o sangue, e não apenas a imagem, pode se tornar aliado estratégico no combate a uma das doenças mais devastadoras do século.
Se confirmada, a descoberta pode encurtar o tempo entre o sintoma e a decisão médica — uma diferença que, no AVC, separa a recuperação da incapacidade permanente.
Mais sobre o artigo
Eyileten, C., Wicik, Z., Shahzadi, A. et al. Uma análise clínica e bioinformática integrativa identifica microRNAs como biomarcadores da gravidade do acidente vascular cerebral isquêmico. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-36494-2