Descoberta sobre microcirculação do sangue pode ajudar a prevenir complicações da apneia
Alterações no funcionamento de vasos sanguíneos da faringe sugerem adaptação e indicam evolução da gravidade da doença, podendo levar a distúrbios cardiovasculares e cerebrais

Apneia do sono é um distúrbio respiratório caracterizado pelo estreitamento frequente das vias aéreas superiores (cavidade nasal, faringe e laringe), que causa redução da ventilação pulmonar, queda nos níveis de oxigênio no sangue e despertares recorrentes durante o sono – Foto: MyUpchar/Wikimedia Commons
Pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP identificaram alterações na microcirculação sanguínea no tecido muscular da faringe de pacientes adultos, jovens, não obesos e com apneia obstrutiva do sono. Essas alterações estavam relacionadas à evolução da gravidade da doença. De acordo com o estudo, o espessamento das paredes dos vasos sanguíneos, caracterizado como hipertrofia externa, sugere uma possível adaptação à progressão da apneia, além de um provável fluxo “caótico” do sangue durante o sono. Apesar das constatações, não há indicadores relevantes do aumento de atividade celular na camada de revestimento dos vasos e de tecidos próximos.
A descoberta poderá ter implicações no aprimoramento do manejo da apneia obstrutiva do sono, com o objetivo de prevenir a progressão das alterações na microcirculação e, consequentemente, o aparecimento de complicações cardiovasculares e cerebrais relacionadas, em especial por meio de ações de saúde pública. A pesquisa é descrita em artigo publicado no periódico Scientific Reports, do grupo Nature.
“A apneia do sono é um distúrbio respiratório, particularmente prevalente em adultos de meia-idade e mais velhos, caracterizado por eventos repetitivos de estreitamento das vias aéreas superiores (cavidade nasal, faringe e laringe)”, explica ao Jornal da USP a médica pesquisadora Kristine Fahl, primeira autora do artigo, que realizou doutorado no Programa de Pós-Graduação de Otorrinolaringologia da FMUSP. “Esses estreitamentos causam redução da ventilação pulmonar, queda nos níveis de oxigênio no sangue (dessaturações de oxi-hemoglobina) e despertares recorrentes durante o sono.”
“Mecanicamente, observam-se movimentos de obstrução parcial ou total da faringe (garganta), chamadas apneias ou hipopneias obstrutivas, seguidos por repentinas reaberturas da via aérea superior, que ocorrem inúmeras vezes durante uma noite de sono”, descreve a pesquisadora. “A apneia do sono está fortemente ligada a complicações cardiovasculares, como hipertensão, arritmias, doenças coronarianas e AVC e à aterosclerose. Além disso, pode provocar déficits neurocognitivos e comportamentais significativos, afetando memória, humor, causando insônia e sonolência diurna excessiva, e até favorecer o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.”
De acordo com Kristine Fahl, esses problemas são causados principalmente pelas oscilações e recuperações repetidas de oxigênio (hipóxia intermitente), fragmentação do sono, variações de pressão e ativação simpática (resposta do corpo a situações de estresse), que resultam em disfunção endotelial (nas células que revestem os vasos sanguíneos), rigidez arterial, inflamação e aterogênese precoce (lesões nas artérias).
“O objetivo da pesquisa foi determinar se a gravidade da apneia do sono promove alteração na microcirculação das vias aéreas superiores em pacientes não obesos, conforme indicado pelo processo de adaptação à doença”, enfatiza. “Também foi verificado se há aumento nos marcadores de ativação endotelial nas paredes da microcirculação e no tecido muscular circundante.”
Por que a microcirculação importa?
“A microcirculação é uma complexa rede de vasos sanguíneos de pequeno diâmetro, essencial para o transporte de oxigênio e nutrientes, e a remoção de resíduos metabólicos”, relata a pesquisadora. “Esses pequenos vasos, incluindo as arteríolas, contribuem significativamente para a resistência ao fluxo sanguíneo no corpo. Isto tem importância no controle da pressão arterial, entre outras funções em nosso organismo.”
Para isolar os efeitos específicos da apneia do sono na microcirculação e nos marcadores de ativação endotelial, os pesquisadores optaram por focar o estudo em pacientes não obesos. “Essa escolha foi crucial para evitar que a obesidade, uma condição já conhecida por causar inflamação e disfunção endotelial, confundisse os desfechos, permitindo que os resultados observados fossem atribuídos exclusiva e precisamente à doença”, enfatiza Kristine Fahl.
No total, os pesquisadores analisaram 39 pacientes. Estes participantes, com idades entre 19 e 55 anos (média de 37,9 anos), apresentavam apneia do sono em diferentes graus (leve, moderado e grave). O Índice de Massa Corpórea (IMC) médio do grupo foi de 26,0 kg/m², um valor que está abaixo do patamar de 30 kg/m² considerado para obesidade. Foram obtidas amostras biológicas provenientes de cirurgias para tratamento do ronco e apneia do sono em pacientes atendidos no Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP, contendo fragmentos de músculos da faringe, fixadas e preservadas em parafina.
“As amostras foram analisadas utilizando técnicas avançadas de imuno-histoquímica, sob a supervisão da professora Thais Mauad, do Departamento de Patologia da FMUSP, sendo possível avaliar a microcirculação, quantificar a expressão de marcadores de ativação endotelial e realizar a morfometria das arteríolas”, relata a pesquisadora. “A morfometria consiste na análise da espessura das paredes e do diâmetro do interior desses vasos sanguíneos, assim como de sua área e perímetro, através da digitalização e processamento das imagens com softwares especializados.”
De acordo com Kristine, a análise morfométrica de 319 arteríolas (oito por pessoa) revelou que pacientes com apneia grave apresentavam paredes mais espessas em comparação com os de apneia leve, com uma correlação positiva entre o índice de apneia-hipopneia e a espessura da parede da arteríola. “No entanto, em um total de 1.872 arteríolas analisadas, a pesquisa não detectou aumento nos marcadores de ativação endotelial com a gravidade da doença, tanto nas paredes das arteríolas quanto no tecido muscular.”
Prevenção e tratamento
A pesquisadora ressalta que o achado sobre a evolução da apneia é de grande relevância, pois aponta para um remodelamento para fora, ou excêntrico, na microcirculação das vias aéreas superiores, que ocorre mesmo antes da detecção de marcadores de disfunção endotelial, e um possível turbilhonamento do fluxo do sangue no sono. “Esse processo é particularmente interessante por preservar a luz [espaço interno] dos vasos sanguíneos, uma característica também observada em condições adaptativas como a gravidez e o treinamento físico em atletas”, acrescenta.
Segundo Kristine Fahl, o resultado da pesquisa tem implicações significativas para o tratamento da apneia. “As mudanças na pressão das vias aéreas superiores e a oscilação do fluxo sanguíneo nas paredes das artérias, durante o sono, estão intrinsecamente ligadas a alterações microcirculatórias”, observa. “Isso reforça a urgência, para profissionais de saúde e para a população, de tratar a apneia a fim de mitigar a progressão dessas disfunções e o consequente avanço da doença, prevenindo o surgimento de condições cardiovasculares, como a hipertensão arterial, antes mesmo de se manifestarem”, diz.
Para suprir a atual lacuna científica recomenda-se a elaboração de novos estudos que visem a gerar evidências robustas, sugere Kristine Fahl. “Em um futuro próximo, essas evidências poderão fomentar o desenvolvimento e aprimoramento das políticas públicas de saúde vigentes, além de uma linha de cuidado abrangente para o tratamento dos distúrbios de sono no Sistema Único de Saúde (SUS)”, finaliza.
Participaram do trabalho Kristine Fahl, o professor Luis Ubirajara Sennes, orientador do doutorado, a professora Thais Mauad, coorientadora, ambos da FMUSP. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Participaram da pesquisa o professor Michel Burihan Cahali, da disciplina de Otorrinolaringologia da FMUSP, um dos grupos pioneiros em pesquisas sobre o impacto da parede lateral da faringe na Apneia Obstrutiva do Sono, coordenadas pelos professores Sennes e Cahali, Jôse Mára de Brito e Natália Costa, do Departamento de Patologia, e o professor Heraldo Possolo de Souza, da disciplina de Emergências Clínicas. Também colaboraram os médicos Roney Sampaio, do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da FMUSP e Danielle Dantas, do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Mais informações: kfahl@usp.br, com Kristine Fahl