Saúde

Novo tratamento contra malária é esperança para deter a resistência aos medicamentos atuais
O medicamento GanLum apresentou mais de 97% de eficácia em ensaio clínico, mas só deve estar disponível em 2027
Por Gabriel Albuquerque - 28/01/2026


A malária ocorre em regiões tropicais e a principal forma de transmissão é a vetorial, através de um mosquito chamado Anopheles – Foto: James Gathany, USCDCP / Pixnio


Um estudo publicado pela revista Nature revelou os resultados do novo medicamento GanLum, que curou 97,4% dos participantes de um ensaio clínico, porcentagem maior que a de outros tratamentos. Silvia Di Santi, pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP, explica o que é a malária e suas características.

“Trata-se de uma doença infecciosa causada por parasitos do gênero Plasmodium. Existem cinco espécies que podem infectar o homem: Plasmodium falciparum, Plasmodium vivax, Plasmodium malariae, Plasmodium ovale e Plasmodium knowlesi. A malária ocorre em regiões tropicais e a principal forma de transmissão é a vetorial, através de um mosquito chamado Anopheles. O período de incubação da doença, a partir da picada do mosquito vetor até o aparecimento dos primeiros sintomas, varia de sete a 30 dias, dependendo da espécie de Plasmodium.” Os principais sintomas da doença incluem febre, calafrios, sudorese, dor de cabeça, dores no corpo e vômitos, podendo apresentar comprometimento cerebral, anemia grave, edema pulmonar, insuficiência renal e óbito em casos mais graves.

Atualmente o tratamento é feito através de múltiplos medicamentos, mas que nem sempre se mostram eficazes por conta da resistência da doença aos métodos tradicionais. “Para o tratamento de Plasmodium vivax e ovale, é utilizada cloroquina, primaquina ou tafenoquina. O Plasmodium malariae é tratado exclusivamente com a cloroquina, enquanto para o Plasmodium knowlesi utiliza-se a cloroquina e derivados de artemisinina, devido à sua rápida agravação”, explica.

Como o GanLum funciona e sua importância

“O GanLum é um novo antimalárico desenvolvido pela empresa farmacêutica Novartis, em parceria com uma organização sem fins lucrativos, chamada Medicines for Malaria Venture, que é sediada na Suíça. Ele ainda não está disponível no mercado, está em processo final de avaliação e aprovação pelas agências reguladoras de saúde e deve estar disponível em 2027.”

Silvia explica como o novo tratamento pode contribuir para o tratamento da doença. “O nome científico é ganaplacide, que é combinado com a lumefantrina para formar o GanLum. A lumefantrina já é um antimalárico utilizado em associação com derivados de artemisinina, que já é utilizado atualmente, principalmente para o tratamento de Plasmodium falciparum. Houve relatos de resistência, principalmente no Sudeste Asiático e na África, abaixo do Saara, de parasitos de Plasmodium falciparum resistentes aos derivados de artemisininas, então o ganaplacide vem para tratar esses parasitos resistentes. A formulação com a lumefantrina é para que haja dois mecanismos diferentes de ação e, portanto, o parasito tenha mais dificuldade em se tornar resistente.”

A malária no Brasil

A pesquisadora reforça que a doença segue presente no País, mesmo com a maioria dos casos não sendo grave. “No Brasil, temos 84% dos casos, dentre os aproximados 140 mil casos que nós temos por ano, causados por Plasmodium vivax, que não é um parasito que costuma causar malária grave, mas quase sempre os sintomas são muito exuberantes. A malária incapacita para o trabalho, quem está na região de transmissão passa por vários episódios de infecção, então os pacientes passam por esse sofrimento continuamente, portanto, quem tem malária sofre.”

“Desses quase 140 mil casos que tivemos em 2024, por exemplo, 60 mil foram transmitidos dentro de áreas indígenas. Em sequência, temos os moradores de áreas rurais, com 46 mil casos, depois vêm os garimpos, que são um grande desafio para o controle da malária, e depois então as áreas urbanas e os assentamentos. É necessário que os profissionais de saúde suspeitem de malária se um paciente vem de países africanos ou asiáticos, de outros países da América Latina, da região amazônica, a primeira hipótese tem que ser malária, principalmente por conta desses casos importados de outros países,” finaliza Silvia.

 

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