Cirurgia bariátrica que altera absorção do intestino triplica risco de pedras nos rins
Estudo com pacientes operados em Hong Kong mostra que técnicas malabsortivas elevam significativamente marcadores urinários ligados à formação de cálculos renais; especialistas defendem acompanhamento prolongado

Domínio público
Um estudo científico recém-aceito pela revista Scientific Reports acende um alerta sobre um efeito colateral pouco discutido da cirurgia bariátrica: o aumento expressivo do risco de formação de pedras nos rins, especialmente entre pacientes submetidos a procedimentos que alteram a absorção intestinal. A pesquisa indica que cirurgias chamadas malabsortivas, como o bypass gástrico em Y-de-Roux, estão associadas a alterações urinárias que multiplicam em até quatro vezes a probabilidade de desenvolver cálculos renais em comparação com técnicas restritivas, como a gastrectomia vertical.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Departamento de Cirurgia da Chinese University of Hong Kong, em parceria com centros acadêmicos da China continental e da Áustria, e acompanhou 90 pacientes adultos submetidos a cirurgia bariátrica entre 2017 e 2019. Os participantes foram avaliados até um ano após a operação por meio de exames de urina de 24 horas, padrão internacional para estimar risco de litíase renal.
Oxalato em excesso, proteção em falta
Os resultados mostram que 51,4% dos pacientes submetidos a cirurgias malabsortivas apresentaram hiperoxalúria — excesso de oxalato na urina, principal componente das pedras nos rins — contra 25,5% no grupo das cirurgias restritivas. Outro achado preocupante foi a hipocitratúria, condição em que falta citrato, substância que impede a cristalização de sais urinários: ela atingiu 71,4% dos pacientes do grupo malabsortivo, quase o dobro do observado no grupo restritivo.

Após ajustes estatísticos para idade, índice de massa corporal, diabetes e dislipidemia, os pesquisadores estimaram que pacientes submetidos a cirurgias com componente malabsortivo tiveram 2,95 vezes mais chance de hiperoxalúria e 4,13 vezes mais chance de hipocitratúria. Também foi registrada uma elevação significativa do risco de urina excessivamente ácida — outro fator clássico para a formação de cálculos renais.
“Esses perfis urinários são claramente mais litogênicos”, afirmam os autores no artigo, coordenado pelo urologista Chi Fai Ng e pela cirurgiã Shirley Yuk-Wah Liu, ambos da Chinese University of Hong Kong. Segundo eles, as alterações decorrem de mudanças profundas na digestão de gorduras, minerais e ácidos biliares após o desvio intestinal.
Obesidade, cirurgia e efeitos colaterais
A cirurgia bariátrica é considerada hoje o tratamento mais eficaz para obesidade grave, condição que afeta mais de 890 milhões de adultos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Desde os anos 2000, seu uso cresceu de forma exponencial, impulsionado pelos benefícios no controle do diabetes tipo 2, da hipertensão e da mortalidade cardiovascular.
Mas a associação entre bariátrica e pedras nos rins não é nova. Estudos desde meados da década passada já sugeriam maior incidência de cálculos após o bypass gástrico. O novo trabalho avança ao comparar, de forma direta, dois grandes grupos de técnicas cirúrgicas, com metodologia prospectiva e controle estatístico rigoroso.
“O que mostramos é que não se trata apenas de um risco teórico ou de casos isolados”, escreve a equipe. “Há um padrão metabólico consistente que favorece a formação de cálculos, especialmente após cirurgias malabsortivas”.
Embora nenhum paciente tenha apresentado crises renais sintomáticas durante o período de acompanhamento, os autores ressaltam que pedras podem se formar de maneira silenciosa e só se manifestar anos depois. Por isso, defendem mudanças na prática clínica: monitoramento urinário regular, orientação nutricional específica e integração entre cirurgiões bariátricos, nefrologistas e urologistas.
O estudo também reacende o debate sobre a escolha da técnica cirúrgica, especialmente em pacientes com histórico de cálculos renais, diabetes ou dislipidemia — condições mais frequentes no grupo que passou por cirurgias malabsortivas.
“A cirurgia salva vidas, mas não é isenta de custos metabólicos”, resume o artigo. “Reconhecer esses riscos é essencial para que o ganho em saúde não venha acompanhado de novas doenças crônicas.”
Mais sobre o artigo
Liu, AQ, Choy, E.KH., Siu, BWH et al. A análise química da urina de 24 horas demonstra maior risco de formação de cálculos após cirurgia bariátrica do tipo disabsortivo do que do tipo restritivo. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-37440-y