Saúde

Novos marcadores no sangue prometem antecipar diagnóstico do câncer colorretal
Estudo internacional identifica duas moléculas de RNA com desempenho superior aos exames tradicionais e aponta caminho para rastreamento menos invasivo da doença
Por Laercio Damasceno - 31/01/2026




Um exame de sangue baseado em novas moléculas de RNA pode mudar a forma como o câncer colorretal é diagnosticado e acompanhado. Um estudo publicado neste sábado (31), na revista Scientific Reports identificou dois marcadores — o RNA circular circPHLPP2 e o RNA longo não codificante ILF3-AS1 — que se mostraram mais eficazes do que os testes atualmente usados na prática clínica para detectar a doença e indicar sua progressão.

A pesquisa analisou amostras de 220 pessoas, entre pacientes com câncer colorretal em diferentes estágios e indivíduos saudáveis. Os resultados indicam que os níveis dessas duas moléculas no soro sanguíneo aumentam de forma consistente à medida que o tumor avança, atingindo os valores mais elevados nos casos metastáticos. Em testes estatísticos, ambos os marcadores superaram os tradicionais CEA e CA19-9, hoje amplamente utilizados, em sensibilidade e especificidade.

“O grande diferencial é a possibilidade de identificar a doença de maneira não invasiva e com maior precisão, especialmente nos estágios iniciais”, afirma Emad Gamil Khidr, bioquímico da Universidade Al-Azhar, no Egito, um dos autores do trabalho. Segundo ele, o ILF3-AS1 se destacou como preditor independente de metástase, um dado considerado crucial para decisões terapêuticas.

Uma doença silenciosa

O câncer colorretal está entre os mais letais do mundo e costuma evoluir de forma silenciosa. Estimativas globais apontam que cerca de 10% das mortes por câncer estão associadas a esse tipo de tumor. Em muitos casos, o diagnóstico ocorre apenas em fases avançadas, quando as chances de sobrevida caem drasticamente. Por isso, a busca por métodos de rastreamento mais eficazes é considerada uma prioridade histórica da oncologia.

Desde o final do século 20, marcadores sanguíneos como o CEA ajudaram a monitorar a doença, mas sempre com limitações. “Eles são úteis, mas não capturam toda a complexidade biológica do tumor”, explica Taslim Alhilal, pesquisador da Universidade do Texas em El Paso e coautor do estudo. “Os RNAs não codificantes refletem melhor os mecanismos de progressão e de escape imunológico do câncer”.

Especialistas avaliam que a adoção futura desses biomarcadores pode reduzir a dependência de exames invasivos, como a colonoscopia, ao menos em fases de triagem e acompanhamento. Isso teria impacto direto em sistemas públicos de saúde, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce e diminuindo custos associados ao tratamento tardio.

Os próprios autores, no entanto, fazem ressalvas. O estudo foi realizado com uma população específica e precisa ser validado em outros países e grupos étnicos antes de chegar à prática clínica. “É um passo promissor, não um ponto final”, diz Ahmed Alobaida, da Universidade de Ha’il, na Arábia Saudita. “Mas abre uma nova janela para testes mais simples, precisos e personalizados”.

Se confirmados em estudos maiores, circPHLPP2 e ILF3-AS1 podem se somar a uma nova geração de exames de “biópsia líquida”, capazes de transformar o enfrentamento de um câncer que ainda mata, em grande parte, por chegar tarde demais ao diagnóstico.


Detalhes da publicação    
Alobaida, A., Alhilal, T., Alshammari, AD et al. Perfil de expressão do circPHLPP2 sérico e do lncRNA ILF3 em pacientes com câncer colorretal. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-35356-1

 

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