Ambiente, hábitos e remédios ameaçam função das trompas e elevam risco de infertilidade, aponta revisão internacional
Essenciais para o transporte de óvulos, espermatozoides e embriões, as trompas criam o microambiente necessário para a fecundação e os primeiros dias do desenvolvimento embrionário.

Domínio público
Um conjunto amplo de evidências científicas indica que fatores ambientais, escolhas de estilo de vida, infecções e o uso recorrente de determinados medicamentos estão comprometendo uma das estruturas mais delicadas do sistema reprodutor feminino: as trompas de Falópio. A conclusão é de uma revisão publicada nesta sexta-feira, 30, na revista científica Cells, assinada por pesquisadores de instituições da Índia e dos Estados Unidos, entre elas a Manipal Academy of Higher Education e a Mayo Clinic.
Essenciais para o transporte de óvulos, espermatozoides e embriões, as trompas criam o microambiente necessário para a fecundação e os primeiros dias do desenvolvimento embrionário. “Qualquer alteração hormonal ou agressão externa pode ter impacto direto na sua morfologia e função”, afirma o biólogo reprodutivo Guruprasad Kalthur, autor sênior do estudo.
Da lavoura ao organismo
A revisão analisou 187 artigos científicos publicados entre 1968 e 2024. Um dos achados mais consistentes diz respeito à exposição a pesticidas e disruptores endócrinos. Segundo os autores, cerca de 2,3 bilhões de pessoas no mundo consomem alimentos com resíduos de pesticidas acima do nível considerado seguro. Estudos observacionais mostram que trabalhadores do setor agrícola apresentam risco até 16 vezes maior de desenvolver doenças tubárias associadas à infertilidade.
Substâncias como DDT, bisfenol A (BPA) e metais pesados — ainda presentes no ambiente e em produtos de uso cotidiano — estão associadas à perda de cílios nas trompas, estruturas microscópicas responsáveis pelo transporte do óvulo. “Sem esse movimento coordenado, cresce o risco de gravidez ectópica, quando o embrião se implanta fora do útero”, explica Nagarajan Kannan, pesquisador da Mayo Clinic e coautor da revisão.

Hábitos comuns também entram na conta. O tabagismo, por exemplo, está ligado à redução do fluxo sanguíneo e à paralisação do batimento ciliar. Meta-análises citadas no artigo indicam maior incidência de gravidez ectópica entre fumantes, risco que só retorna ao normal cerca de dez anos após a cessação do cigarro. O consumo excessivo de álcool, por sua vez, reduz a contratilidade muscular das trompas, dificultando o deslocamento do embrião.
Até a cafeína aparece como fator de atenção. Estudos experimentais sugerem que ela diminui a atividade muscular tubária, o que pode reduzir as taxas de gravidez.
Infecções e medicamentos
No campo clínico, infecções sexualmente transmissíveis seguem como um dos principais fatores de dano às trompas. Bactérias como Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae reduzem a frequência do batimento ciliar e estão associadas a maior risco de infertilidade e gravidez ectópica. Em países em desenvolvimento, a tuberculose genital feminina ainda responde por mais de 90% dos casos de obstrução tubária.
A revisão chama atenção também para efeitos colaterais de medicamentos amplamente utilizados. Antidepressivos, anticoncepcionais hormonais e drogas para indução da ovulação podem alterar o equilíbrio hormonal e a dinâmica das trompas. O uso prolongado de fármacos como clomifeno e tamoxifeno, por exemplo, já foi associado a alterações celulares e aumento do risco de gestações ectópicas.

Domínio ´público
Para os autores, o acúmulo dessas evidências impõe um desafio de saúde pública. “Não se trata de um único fator isolado, mas de uma soma de exposições ao longo da vida reprodutiva”, diz Kalthur. A recomendação é clara: reduzir o contato com agentes tóxicos, promover hábitos de vida mais saudáveis e usar medicamentos hormonais com cautela e acompanhamento médico.
Em um contexto global de queda das taxas de fertilidade, a integridade das trompas de Falópio — por décadas relegadas a segundo plano no debate público — emerge como peça-chave para entender os limites biológicos e sociais da reprodução humana no século 21.
Detalhes da publicação
Alterações funcionais nas trompas de Falópio: fatores ambientais, estilo de vida, condições patológicas e agentes farmacológicos. Opalina Roy, Sandhya Kumari, Satish Kumar Adiga, Manjunath B. Joshi, Anujith Kumar, Ganesh Venkatraman,
Nagarajan Kannan e Guruprasad Kalthur - Células 2026 , 15 (3), 269; https://doi.org/10.3390/cells15030269 - 30 de janeiro de 2026