Saúde

Uma área do cérebro decide quando parar de pensar — e isso muda só o que vemos, não o que desejamos
Estudo internacional demonstra, pela primeira vez, que uma região específica do córtex frontal humano controla o 'limite' das decisões perceptivas, sem interferir nas escolhas baseadas em valor
Por Laercio Damasceno - 01/02/2026


(Imagem criada por IA)


Por décadas, a neurociência tentou responder a uma pergunta aparentemente simples: o cérebro usa o mesmo mecanismo para decidir o que vemos e o que queremos? Um estudo publicado na revista eLife traz uma resposta clara — e surpreendente.

Pesquisadores das universidades de Zurique, ETH Zurich e Washington University em St. Louis demonstraram, com evidência causal inédita, que uma área específica do cérebro humano — o sulco frontal superior esquerdo — regula decisões baseadas na percepção, como identificar qual objeto é maior, mas não interfere em escolhas baseadas em preferência ou valor, como decidir qual alimento é mais desejável.

“Mostramos que essa região do cérebro não participa de todas as decisões. Ela é especializada”, afirma Miguel Barretto-Garcia, neurocientista da University of Zurich e autor principal do estudo. “Quando interferimos nessa área, as pessoas passam a decidir mais rápido, mas com mais erros — exclusivamente em tarefas perceptivas.”

Mexer no cérebro para testar a decisão

O estudo envolveu 20 voluntários saudáveis, submetidos a um protocolo rigoroso que combinou ressonância magnética funcional (fMRI), modelagem computacional e estimulação magnética transcraniana (TMS) — técnica não invasiva que permite reduzir temporariamente a atividade de uma região cerebral específica.

Os participantes alternavam entre dois tipos de tarefa:

Decisão perceptiva: escolher, entre dois alimentos, qual era fisicamente maior.

Decisão baseada em valor: escolher qual alimento gostariam de consumir ao final do experimento.

Os estímulos visuais e os movimentos eram os mesmos. O que mudava era apenas o tipo de informação relevante.

Paradigma comportamental de escolha alimentar, protocolo de estimulação theta-burst e regressões comportamentais.
( A ) Exemplo de etapa de decisão. Os participantes foram previamente informados sobre o tipo de decisão necessária. As decisões perceptivas exigiam que os participantes escolhessem o alimento de maior tamanho enquanto…

Estudo internacional demonstra, pela primeira vez, que uma região específica
do córtex frontal humano controla o “limite” das decisões perceptivas, sem interferir nas escolhas baseadas em valor.

Após uma sessão inicial, os pesquisadores aplicaram estimulação magnética contínua sobre o sulco frontal superior esquerdo — área previamente associada à tomada de decisão, mas nunca testada de forma causal em humanos para diferenciar tipos de escolha.

O resultado foi preciso: a interferência reduziu a precisão das decisões perceptivas, mas não afetou em nada as decisões baseadas em preferência.

Decidir mais rápido — e errar mais

A análise computacional revelou o mecanismo por trás do fenômeno. Segundo os autores, a região afetada não altera a velocidade com que as informações são acumuladas, mas define o “critério” da decisão — o quanto de evidência o cérebro exige antes de escolher.

“É como abaixar o padrão de certeza”, explica Marcus Grueschow, coautor do estudo e pesquisador do Zurich Center for Neuroeconomics. “O cérebro passa a decidir com menos informação. Isso acelera a resposta, mas aumenta a chance de erro.”

Esse efeito apareceu de forma consistente no comportamento, nos modelos matemáticos e nos sinais cerebrais, um nível de convergência raro em estudos com humanos.

Um debate antigo na neurociência

Desde os anos 1990, duas teorias disputam espaço na ciência cognitiva:
a de que o córtex pré-frontal é um sistema geral, capaz de lidar com qualquer tipo de decisão, e a de que ele abriga subáreas especializadas.

Estudos anteriores, baseados apenas em correlação, sugeriam papéis distintos, mas não conseguiam provar causalidade. “Este trabalho fecha uma lacuna histórica”, afirma Christian Ruff, professor da University of Zurich e coautor do artigo. “Mostramos que nem todas as decisões são criadas iguais no cérebro.”

Os achados ajudam a explicar por que lesões cerebrais, transtornos neurológicos ou estimulações clínicas podem afetar certos tipos de decisão sem alterar outros.

Segundo os autores, os resultados podem ter implicações futuras para reabilitação neurológica; tratamentos com estimulação cerebral; compreensão de transtornos como TDAH, esquizofrenia e desenvolvimento de modelos mais precisos de tomada de decisão.

“Entender onde e como o cérebro define seus limites de decisão é crucial”, diz Barretto-Garcia. “Não apenas para a ciência, mas para a medicina.”


Ver não é querer

Ao separar, com precisão inédita, os circuitos cerebrais do “ver” e do “querer”, o estudo desmonta a ideia de um cérebro decisório genérico.

O que escolhemos comer continua sendo decidido em outro lugar.
Mas o momento exato em que paramos de olhar e decidimos — isso, agora sabemos — tem endereço certo no cérebro.


Detalhes da publicação
Miguel Barretto-GarcíaMarco GrueschowMarius MoisaRafael PolâniaChristian C Ruff (2026) Evidências causais para um papel específico do sulco frontal superior esquerdo na tomada de decisões perceptivas humanas. eLife 13 :RP94576.
https://doi.org/10.7554/eLife.94576.4

 

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