Saúde

Poluição do ar altera proteínas no sangue e explica quase um quarto do risco de doenças, mostra estudo
Pesquisa com meio milhão de pessoas identifica mecanismo biológico que liga partículas e gases tóxicos a males cardiovasculares, respiratórios, metabólicos e imunológicos — e propõe índice para medir vulnerabilidade individual.
Por Laercio Damasceno - 01/02/2026


Domínio público


A poluição do ar não apenas irrita os pulmões ou agrava crises respiratórias: ela altera de forma mensurável o conjunto de proteínas que circulam no sangue humano, ativando processos inflamatórios, metabólicos e imunológicos que ajudam a explicar o surgimento de dezenas de doenças. É o que aponta um amplo estudo publicado nesta semana na revista Nature Communications, com dados do UK Biobank, um dos maiores bancos populacionais de saúde do mundo.

A pesquisa analisou informações de mais de 500 mil britânicos, cruzando exposição crônica a poluentes — como material particulado fino (PM2,5 e PM10) e óxidos de nitrogênio (NO? e NOx) — com registros médicos e perfis proteômicos (o conjunto de proteínas presentes no plasma sanguíneo). O resultado: a poluição do ar esteve associada a 30 doenças, e quase 24% desse efeito foi mediado diretamente por alterações nas proteínas do sangue.

“Mostramos que o proteoma atua como uma ponte entre o ambiente e a doença”, afirma Sijia Wang, do Instituto de Nutrição e Saúde de Xangai, ligado à Academia Chinesa de Ciências, uma das instituições líderes do trabalho. Segundo ela, a descoberta ajuda a responder uma pergunta antiga da epidemiologia ambiental: como, exatamente, a poluição se transforma em risco biológico.

Do smog à corrente sanguínea

Desde meados do século 20, quando episódios extremos de smog em Londres e Los Angeles evidenciaram o impacto letal da poluição atmosférica, estudos epidemiológicos vêm associando o ar contaminado a mortes prematuras e doenças crônicas. Faltava, porém, uma explicação molecular abrangente.

No novo estudo, os pesquisadores identificaram mais de mil proteínas cuja concentração varia conforme o nível de poluição a que a pessoa está exposta. Destas, 296 atuam como mediadoras diretas do risco de adoecer. Elas se concentram em vias conhecidas da biologia do estresse ambiental: inflamação, resposta imune inata, metabolismo de açúcares e sinalização celular.

As vias afetadas variam conforme o tipo de doença. Problemas cardiovasculares se ligam sobretudo à ativação da cascata MAPK, associada ao estresse oxidativo; doenças imunológicas envolvem proteínas da resposta inflamatória; distúrbios metabólicos se conectam ao metabolismo de carboidratos; já enfermidades respiratórias aparecem associadas à proliferação celular anormal nos tecidos pulmonares.

“Não é um efeito genérico”, explica Haidong Kan, professor da Universidade Fudan e coautor do estudo. “Poluentes diferentes ativam conjuntos de proteínas distintos, e esses conjuntos dialogam com órgãos e sistemas específicos”.

Quem é mais vulnerável

Além de mapear mecanismos, o estudo propõe uma ferramenta inédita: o Air Pollution Protein Risk Score (APPRS), um índice calculado a partir de 65 proteínas-chave que mede a suscetibilidade individual aos efeitos da poluição. Pessoas com pontuações mais altas apresentaram maior incidência de doenças, mesmo quando expostas a níveis semelhantes de poluentes.

O índice foi validado em duas coortes independentes e melhorou significativamente a capacidade de prever doenças quando somado a fatores tradicionais, como idade, sexo, tabagismo e exames clínicos. Em modelos estatísticos, o APPRS superou inclusive indicadores ambientais agregados, sugerindo que o organismo “registra” a poluição de forma mais precisa do que os sensores externos.

Domínio público

Na prática, isso abre caminho para políticas de saúde pública mais personalizadas. “Duas pessoas vivendo na mesma cidade podem ter riscos muito diferentes”, diz Wang. “O proteoma nos permite enxergar essa desigualdade biológica.”

Impacto além da ciência

Os autores destacam que os efeitos mais fortes foram observados em doenças respiratórias e imunológicas, como pneumonia, doença pulmonar obstrutiva crônica e lúpus. Mas o alcance é mais amplo: há associações também com obesidade, diabetes tipo 2, doença renal crônica e problemas cardiovasculares.

Para especialistas, o trabalho reforça a urgência de políticas de controle da poluição. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 7 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo por causas relacionadas ao ar contaminado. O novo estudo sugere que os danos começam em nível molecular, muito antes do diagnóstico clínico.

“A mensagem é clara”, afirma Kan. “Reduzir a poluição não é apenas melhorar o ar das cidades; é intervir diretamente em processos biológicos que determinam quem adoece e quem permanece saudável”.


Ao iluminar esse caminho invisível entre o escapamento e o sangue, a ciência oferece agora não só mais evidências, mas também novas ferramentas para enfrentar um dos maiores problemas de saúde pública do século.


Detalhes da publicação
Li, W., Li, K., Zhou, P. et al. O proteoma plasmático medeia as associações entre a exposição à poluição do ar e o risco de doenças. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68972-6

 

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