Parto instrumental não eleva risco geral de autismo, mas estudo aponta diferenças em TDAH e deficiência intelectual
A pesquisa, baseada em mais de meio milhão de nascimentos acompanhados por até duas décadas no Canadá, indica que, de modo geral, partos instrumentais e cesarianas realizadas no segundo estágio do trabalho de parto apresentam...

Domínio público
Um dos dilemas mais delicados da obstetrícia moderna — a escolha da via de parto quando o trabalho de parto já entrou na fase final — ganhou novos contornos com um amplo estudo publicado na JAMA Network Open. A pesquisa, baseada em mais de meio milhão de nascimentos acompanhados por até duas décadas no Canadá, indica que, de modo geral, partos instrumentais e cesarianas realizadas no segundo estágio do trabalho de parto apresentam resultados neurodesenvolvimentais semelhantes nas crianças. Há, contudo, exceções relevantes que reacendem o debate clínico.
O trabalho analisou dados de 504 mil crianças nascidas entre 2000 e 2019 na província da Colúmbia Britânica, acompanhadas até os 22 anos de idade. Os pesquisadores compararam cinco modalidades de parto no segundo estágio do trabalho de parto: vaginal espontâneo, uso de vácuo, fórceps, uso sequencial de instrumentos (quando o vácuo falha e se recorre ao fórceps) e cesariana tardia. O foco foram três desfechos: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista (TEA) e deficiência intelectual.
Os resultados mostram que não houve associação significativa entre o tipo de parto e o risco de autismo, um achado que confronta parte da literatura anterior e reforça a hipótese de que fatores genéticos e ambientais compartilhados explicam melhor o diagnóstico do que a via de nascimento. “Nossos dados sugerem que o modo de parto, por si só, não tem valor prognóstico para o TEA”, afirma a pesquisadora Maya Rajasingham, da Universidade McMaster, autora principal do estudo.

Tabela. Características demográficas e clínicas de crianças nascidas a termo, sem anomalias, durante o segundo estágio do trabalho de parto, Colúmbia Britânica, Canadá, 2000 a 2019
Em relação ao TDAH, a maioria dos métodos apresentou taxas semelhantes. A exceção foi o uso sequencial de instrumentos, associado a um aumento de 13% no risco em comparação com a cesariana no segundo estágio. Ainda assim, os próprios autores ressaltam que essa modalidade representa menos de 1% dos partos analisados, o que limita seu impacto populacional. “Trata-se de um aumento estatisticamente detectável, mas pequeno em termos absolutos”, pondera Giulia Muraca, professora de obstetrícia e ginecologia.
Já no caso da deficiência intelectual, o estudo identificou um risco 53% maior entre crianças nascidas com auxílio de vácuo em comparação à cesariana tardia. O número chama atenção, mas deve ser lido com cautela: a incidência absoluta do desfecho é baixa — cerca de 0,3 caso por mil pessoas-ano. “Mesmo quando observamos diferenças relativas, o risco individual permanece muito pequeno”, explica Sarka Lisonkova, epidemiologista da Universidade da Colúmbia Britânica.
Historicamente, a discussão sobre parto e neurodesenvolvimento foi marcada por comparações amplas — cesariana versus parto vaginal — que, segundo os autores, misturam situações clínicas muito distintas e geram vieses. Ao restringir a análise ao segundo estágio do trabalho de parto, quando a decisão médica é mais concreta e comparável, o novo estudo oferece evidências mais próximas da realidade enfrentada em salas de parto.
“É um alívio para famílias e profissionais de saúde”, resume Rajasingham. “A escolha entre instrumentos ou cesariana, quando clinicamente indicada, parece segura do ponto de vista do desenvolvimento neurológico.”
O impacto social é direto. Em um contexto de aumento global das cesarianas e de debates acirrados sobre intervenções obstétricas, os dados reforçam a mensagem de que a maioria das decisões tomadas em situações críticas não implica prejuízo cognitivo relevante para a criança. “É um alívio para famílias e profissionais de saúde”, resume Rajasingham. “A escolha entre instrumentos ou cesariana, quando clinicamente indicada, parece segura do ponto de vista do desenvolvimento neurológico.”
Os autores destacam, porém, que a pesquisa não encerra a questão. Fatores socioeconômicos, práticas institucionais e preferências médicas — nem sempre capturados em bases administrativas — ainda podem influenciar os resultados. Para a ciência, o recado é claro: menos generalizações e mais comparações clínicas precisas. Para pais e médicos, a evidência aponta para um caminho de maior segurança e menor culpa em decisões tomadas sob pressão.
Detalhes de publicação
Resultados neurodesenvolvimentais a longo prazo após parto com fórceps, vácuo e cesariana de segundo estágio. Maya Rajasingham, MPH; Sarka Lisonkova, PhD; Neda Razaz, PhD; e outros. Rede JAMA aberta. 2026;9(1):e2556637. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.56637