Saúde

Novo sistema de estágios com biomarcadores promete refinar o prognóstico do Alzheimer
Modelo integra exames de sangue, imagens cerebrais e avaliação clínica para prever a velocidade da progressão da doença ao longo de todo o seu curso
Por Laercio Damasceno - 02/01/2026


Domínio público


Um estudo internacional publicado nesta segunda-feira, 02, na revista Nature Communications propõe uma nova forma de estimar, com maior precisão, como e quão rápido a doença de Alzheimer tende a evoluir em cada paciente. Ao combinar dados clínicos tradicionais com biomarcadores sanguíneos e exames de neuroimagem, os pesquisadores criaram um sistema de estadiamento prognóstico que acompanha a doença desde fases assintomáticas até quadros avançados de demência.

A pesquisa analisou dados de 1.263 participantes do consórcio sul-coreano K-ROAD (Korea-Registries to Overcome Dementia and Accelerate Dementia Research) e validou os resultados em uma coorte independente do estudo norte-americano ADNI (Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative). O trabalho é liderado por cientistas do Samsung Medical Center, em Seul, em colaboração com centros da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia.

“Prever a progressão do Alzheimer sempre foi um dos maiores desafios clínicos da área”, afirma o neurologista Sang Won Seo, um dos autores principais do estudo. “Pacientes com o mesmo diagnóstico inicial podem seguir trajetórias muito diferentes. Nosso objetivo foi criar uma estrutura que captasse essa heterogeneidade.”

Do sangue ao cérebro

Diferentemente dos sistemas clássicos de classificação, baseados sobretudo em sintomas cognitivos, o novo modelo integra marcadores biológicos hoje cada vez mais acessíveis. Entre eles estão proteínas detectadas no sangue, como a GFAP — associada à inflamação cerebral — e a pTau217, ligada aos processos patológicos centrais do Alzheimer. Também entram na equação dados de ressonância magnética, como o volume do hipocampo, região crucial para a memória.

Os resultados mostram que diferentes fatores ganham peso conforme o estágio da doença. Em pessoas cognitivamente preservadas, a GFAP foi o principal indicador de risco futuro; nos casos de comprometimento cognitivo leve, a atrofia do hipocampo se destacou; já na demência estabelecida, a idade — sobretudo o início precoce — foi o fator mais associado a uma progressão acelerada. A proteína pTau217, por sua vez, apareceu como um marcador relevante em todas as fases.

Com base nesses dados, os pesquisadores definiram seis estágios prognósticos, do 0 ao IVB, com pontos claros de inflexão em que o risco de declínio funcional aumenta de forma significativa. “Esses limiares podem ajudar médicos e pesquisadores a falar a mesma língua quando discutem prognóstico”, diz Kyunga Kim, estatística biomédica e coautora do estudo.

A proposta surge em um contexto de rápido envelhecimento populacional. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 55 milhões de pessoas vivem hoje com demência no mundo, número que deve quase triplicar até 2050. No Brasil, estima-se que cerca de 1,2 milhão de pessoas tenham Alzheimer ou doenças relacionadas.

Domínio público

Embora o novo sistema não substitua critérios diagnósticos nem determine quem deve receber terapias específicas — como os anticorpos monoclonais recentes, que exigem confirmação da presença de amiloide —, ele pode ter impacto relevante em pesquisa clínica e planejamento de cuidados. “Trata-se de um modelo prognóstico, não terapêutico”, ressalta Seo. “Mas ele pode orientar o desenho de estudos, a estratificação de participantes e a comunicação com pacientes e familiares.”

Especialistas veem o avanço como parte de uma mudança histórica no campo. Se por décadas o diagnóstico de Alzheimer só era possível em fases avançadas, hoje a combinação de biomarcadores e métodos estatísticos sofisticados permite antecipar riscos e compreender melhor a trajetória individual da doença.

“O que este estudo mostra é que o Alzheimer não é uma linha reta”, afirma o neurocientista sueco Henrik Zetterberg, também autor do artigo. “Ao integrar diferentes sinais biológicos, conseguimos mapear melhor quando e como a doença acelera.”

Os autores reconhecem limitações, como a necessidade de validação em populações mais diversas e em contextos de atenção primária. Ainda assim, defendem que o trabalho estabelece uma base sólida para futuras estratégias de prognóstico personalizado.

Em um campo marcado por incertezas e frustrações terapêuticas, a possibilidade de prever com mais clareza o curso da doença representa, para pesquisadores e famílias, um passo importante rumo a decisões mais informadas — e menos às cegas.


Detalhes da publicação
Shin, D., Lee, S., Kim, JP et al. Estadiamento prognóstico integrado por biomarcadores para a doença de Alzheimer. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68732-6

 

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