Saúde

Excesso de peso deixa marca química no corpo e ajuda a explicar avanço do câncer de fígado
Estudo internacional identifica metabólitos ligados à obesidade que aumentam o risco da doença e aponta novos caminhos para a prevenção
Por Laercio Damasceno - 02/02/2026


Domínio público


O crescimento da obesidade no mundo não apenas altera a silhueta da população, mas também deixa uma assinatura química profunda no organismo — capaz de aumentar o risco de câncer de fígado. É o que revela um estudo publicado nesta segunda-feira (2) na revista científica PLOS Medicine, que combina dados de acompanhamento populacional por mais de duas décadas com análises genéticas para explicar, em nível molecular, como o excesso de gordura corporal contribui para o desenvolvimento da doença.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Câncer de Xangai e das universidades Jiao Tong e Fudan, na China, e analisou dados de 61 mil homens acompanhados desde o início dos anos 2000 no chamado Shanghai Men’s Health Study. Dentro desse grupo, 322 participantes que desenvolveram câncer de fígado foram comparados a indivíduos saudáveis com características semelhantes.

Os resultados mostram que marcadores clássicos de obesidade — como índice de massa corporal (IMC) e circunferência da cintura — estão associados a alterações específicas no metabolismo sanguíneo. Essas alterações envolvem principalmente aminoácidos, lipídios e compostos ligados à produção de energia, formando um elo biológico entre o ganho de peso e o câncer hepático.

“Sabíamos que a obesidade aumenta o risco de câncer de fígado, mas os mecanismos eram pouco claros. Agora conseguimos identificar metabólitos específicos que ajudam a explicar essa relação”, afirma o epidemiologista Yong-Bing Xiang, autor sênior do estudo e pesquisador da Universidade Jiao Tong de Xangai.

Do vírus à balança

Historicamente, o câncer de fígado esteve associado sobretudo às hepatites virais B e C, altamente prevalentes em países asiáticos e africanos. Com a ampliação da vacinação contra hepatite B e o avanço dos antivirais, especialistas observam uma transição no perfil da doença.

Figura. Desenho e fluxo de trabalho do estudo.
Esta figura descreve o desenho geral do estudo. Utilizando dados de perfil metabolômico de um estudo caso-controle aninhado dentro do SMHS, uma estratégia de "encontro no meio" foi empregada para identificar potenciais metabólitos intermediários que ligam sete medidas antropométricas ao risco de câncer de fígado. Em seguida, uma abordagem de randomização mendeliana (RM) de duas amostras foi utilizada para fornecer evidências causais para as associações observadas. A figura foi criada em https://BioRender.com . IMC, índice de massa corporal; CC, circunferência da cintura; RCQ, relação cintura-quadril; RCQt, relação cintura-estatura; ABSI, índice de forma corporal; CQ, circunferência do quadril; CPH, câncer primário de fígado; RM, randomização mendeliana; GIANT, Investigação Genética de Características Antropométricas; UKB, Biobanco do Reino Unido; CLSA, Estudo Longitudinal Canadense sobre Envelhecimento; FHS, Estudo do Coração de Framingham; DL, desequilíbrio de ligação; SNP, polimorfismo de nucleotídeo único; IV, variável instrumental; EI, efeito indireto.

“À medida que o impacto das infecções diminui, fatores metabólicos como obesidade e diabetes passam a ter um peso cada vez maior”, explica Xiang. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o câncer de fígado já é a terceira principal causa de morte por câncer no mundo.

No estudo, mesmo após o controle rigoroso para infecções virais e outras doenças hepáticas, o excesso de gordura corporal manteve uma associação robusta com o risco de câncer.

A pista química

Os pesquisadores identificaram 27 metabólitos que funcionam como intermediários entre obesidade e câncer de fígado. Entre eles, destaca-se o ácido piroglutâmico, associado a todos os indicadores de adiposidade avaliados e a um aumento de 56% no risco da doença a cada duplicação de sua concentração no sangue.

Outros compostos relevantes participam de vias metabólicas ligadas aos aminoácidos aromáticos — como fenilalanina, tirosina e triptofano — já implicados em processos inflamatórios e no estresse celular.

Para fortalecer as conclusões, a equipe utilizou uma técnica chamada randomização mendeliana, que explora variações genéticas naturais como se fossem um “experimento” biológico. Essa abordagem reduz o risco de confusão e reforça a evidência de causalidade.

“Os dados genéticos indicam que parte dessas alterações metabólicas não é apenas consequência da doença, mas participa ativamente do processo que leva ao câncer”

diz Zhuo-Ying Li, coautora do artigo.

Especialistas avaliam que o estudo tem implicações diretas para a saúde pública, inclusive fora da China. No Brasil, mais da metade da população adulta está acima do peso, segundo o Ministério da Saúde, e a incidência de doenças hepáticas associadas à obesidade cresce de forma silenciosa.

“A mensagem é clara: combater a obesidade não é apenas uma questão estética ou cardiovascular, mas também oncológica”, afirma o hepatologista Paulo Abrão, da USP, que não participou da pesquisa. “Entender os mecanismos ajuda a justificar políticas mais agressivas de prevenção.”

Os autores ressaltam que os metabólitos identificados podem, no futuro, servir como biomarcadores precoces de risco ou mesmo como alvos para intervenções farmacológicas.

Próximos passos

Apesar da robustez dos dados, os pesquisadores reconhecem limitações. O estudo observacional foi realizado apenas com homens chineses, enquanto parte da análise genética utilizou populações europeias, o que pode limitar a generalização dos resultados.

Ainda assim, o trabalho representa um avanço relevante na compreensão de como o estilo de vida moderno — marcado por sedentarismo e excesso calórico — se traduz em risco biológico concreto.

“Estamos apenas começando a decifrar essa linguagem química do corpo”, diz Xiang. “Mas já está claro que o fígado paga um preço alto pelo acúmulo de gordura.”


Detalhes da publicação
Li ZY, Li HL, Wang J, Shen QM, Zou YX, Yang DN, et al. (2026) Metabolomic insights into associations between adiposity markers and liver cancer risk: Results from a prospective cohort study and Mendelian randomization analysis. PLoS Med 23(2): e1004910. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004910

 

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