Cortes na ajuda internacional podem custar 22 milhões de vidas até 2030, aponta estudo
A conclusão central do estudo é direta: a ajuda internacional salvou milhões de vidas nas últimas duas décadas — e sua retração ameaça reverter esse avanço histórico.

Domínio público
Um amplo estudo publicado nesta semana na revista The Lancet Global Health acende um alerta de grandes proporções sobre o futuro da saúde global. Segundo a pesquisa, a redução abrupta da ajuda oficial ao desenvolvimento (ODA, na sigla em inglês) — principal fonte de financiamento externo para países pobres e de renda média — pode resultar em até 22,6 milhões de mortes adicionais até 2030, caso se confirme um cenário severo de cortes. Mesmo numa hipótese mais moderada, os autores estimam 9,4 milhões de mortes evitáveis no período.
O trabalho, assinado por um consórcio internacional de pesquisadores liderado pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), analisou dados de 93 países de baixa e média renda, que concentram cerca de 6,3 bilhões de pessoas. A conclusão central é direta: a ajuda internacional salvou milhões de vidas nas últimas duas décadas — e sua retração ameaça reverter esse avanço histórico.
Duas décadas de ganhos
Entre 2002 e 2021, o aumento dos investimentos internacionais esteve associado a uma redução de 23% na mortalidade geral e de 39% nas mortes de crianças menores de cinco anos, segundo os modelos estatísticos do estudo. Os efeitos foram particularmente expressivos em doenças evitáveis e fortemente ligadas à pobreza: a mortalidade por HIV/Aids caiu 70%, por malária 56% e por deficiências nutricionais também 56%.
“O financiamento internacional foi decisivo para reduzir mortes evitáveis e fortalecer sistemas de saúde em países vulneráveis”, afirma o epidemiologista Davide Rasella, professor do ISGlobal e autor sênior do estudo. “Interromper esse fluxo de forma abrupta equivale a desligar um suporte vital.”

Figura: Mapas do financiamento da AOD per capita, taxas de mortalidade padronizadas por idade e de menores de 5 anos no primeiro (2002) e último ano (2021) do período do estudo em 93 países de baixa e média renda.
Os pesquisadores destacam que a ODA não se limita ao financiamento direto da saúde. Ela sustenta programas de saneamento, nutrição, educação, proteção social e resposta humanitária — fatores que, combinados, moldam os determinantes sociais da saúde.
O risco da retração
O alerta ganha peso diante do contexto político e econômico recente. Em 2024 e 2025, os principais países doadores — como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França — anunciaram cortes expressivos em seus orçamentos de ajuda externa. O estudo lembra que, se confirmadas, essas reduções marcarão a primeira retração simultânea e prolongada da ajuda internacional em quase três décadas.
Os modelos de projeção usados pelos autores simulam três cenários até 2030. No mais grave, em que os recursos caem para níveis mínimos a partir de 2026, o impacto seria comparável — ou até superior — ao da pandemia de covid-19 em termos de mortes globais. As crianças seriam as mais afetadas: 5,4 milhões de óbitos adicionais entre menores de cinco anos.
Mesmo no cenário considerado “brando”, que apenas prolonga a tendência atual de queda nos investimentos, o número de mortes adicionais permanece elevado, sobretudo na África Subsaariana e em países com sistemas de saúde frágeis.

Para os autores, o problema extrapola a saúde pública. A retração da ajuda internacional tende a aprofundar desigualdades, fragilizar instituições e comprometer metas globais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Não se trata apenas de números”, diz Rasella. “Estamos falando de décadas de progresso social e sanitário que podem ser perdidas em poucos anos.”
O estudo também chama atenção para o risco de desorganização estrutural: programas desmontados dificilmente são reconstruídos no curto prazo, mesmo que o financiamento volte a crescer no futuro. A perda de capacidade institucional e de recursos humanos tende a ter efeitos duradouros.
Um debate urgente
Ao reunir dados históricos e projeções inéditas, o trabalho reforça um consenso incômodo para os países ricos: cortar ajuda externa tem consequências humanas mensuráveis e previsíveis. Em um cenário global marcado por conflitos, crises climáticas e instabilidade econômica, os autores defendem que a cooperação internacional deixe de ser tratada como gasto discricionário.
“Os resultados mostram que a ajuda funciona”, resume Rasella. “A pergunta agora é se o mundo está disposto a arcar com o custo humano de abandoná-la.”
Detalhes da publicação
Impacto de duas décadas de assistência humanitária e para o desenvolvimento e as consequências projetadas para a mortalidade decorrentes do atual desfinanciamento até 2030: avaliação retrospectiva e análise de previsão.
A revista The Lancet sobre saúde global - Publicado em: 2 de fevereiro de 2026 - Andrea Ferreira da Silva; Rodrigo Volmir Rezende Anderle; Gonzalo Barreix Sibils; Lucas de Oliveira Ferreira de Sales; Daiana Pena; Caterina Montie outro. DOI: 10.1016/S2214-109X(26)00008 - Também disponível em ScienceDirect