Saúde

Estudo identifica proteína-chave na entrada de vírus que afeta suínos e pode abrir caminho para novas estratégias sanitárias
Descoberta ajuda a explicar como o astrovírus suíno infecta células e reforça a importância da ciência básica para a segurança da produção animal
Por Laercio Damasceno - 03/02/2026


Domínio público


Pesquisadores chineses identificaram um fator celular crucial que facilita a entrada do astrovírus suíno nas células, um avanço que ajuda a esclarecer um dos principais pontos ainda obscuros na biologia desse patógeno amplamente disseminado em rebanhos de suínos ao redor do mundo.

O estudo, publicado nesta segunda-feira (2) na revista PLOS Pathogens, mostra que a proteína Anexina A1 (ANXA1) atua como um coadjuvante essencial no processo inicial de infecção pelo astrovírus suíno (PAstV), vírus associado a surtos de diarreia em leitões e a perdas econômicas significativas na suinocultura.

“Durante décadas, sabíamos que o astrovírus era comum e prejudicial, mas não compreendíamos com clareza como ele conseguia penetrar nas células do hospedeiro”, afirma Yifeng Qin, professor da Universidade de Guangxi e um dos autores seniores do trabalho. “Identificar a ANXA1 como facilitadora da entrada viral muda esse cenário”, diz.

Figura. A triagem CRISPR identifica ANXA1 como um fator de entrada para a infecção por PAstV.
(A) Esquema de triagem CRISPR em todo o genoma para fatores do hospedeiro necessários para a infecção por PAstV. Ilustração da fonte NIAID NIH BioArt (//bioart.niaid.nih.gov). Células PK15 foram transduzidas com uma biblioteca de nocaute CRISPR e submetidas a quatro rodadas de infecção por PAstV. As células sobreviventes das rodadas 2 e 4 foram coletadas e analisadas por sequenciamento (n = 2 réplicas biológicas). (B) Células PK15 e PK15-Cas9 foram infectadas com MOI 0,01 e as imagens foram obtidas após 96 h. (C, D) Gráficos de dispersão representando o enriquecimento de sgRNA nas rodadas 2 (C) e 4 (D) da triagem de PAstV. (E)

Um quebra-cabeça antigo da virologia animal

Descritos pela primeira vez na década de 1970, os astrovírus figuram hoje entre as principais causas de gastroenterite em humanos e animais jovens. No caso dos suínos, diferentes genótipos circulam simultaneamente em granjas, frequentemente sem diagnóstico preciso, o que dificulta o controle sanitário.

Apesar da alta prevalência, a infecção sempre representou um enigma molecular. Diferentemente de outros vírus entéricos, como o rotavírus, o astrovírus não tinha um receptor celular claramente definido. “Esse desconhecimento limitava tanto o desenvolvimento de terapias quanto a compreensão do potencial de transmissão entre espécies”, explica Weijian Huang, também da Universidade de Guangxi, coautor do estudo.

Para chegar à descoberta, os pesquisadores utilizaram uma triagem genômica em larga escala baseada na técnica CRISPR-Cas9, capaz de desligar, um a um, quase 42 mil genes de células suínas em laboratório. As células que sobreviveram à infecção revelaram quais genes eram essenciais para o vírus.

A ANXA1 destacou-se entre os principais candidatos. Experimentos posteriores mostraram que, sem essa proteína, as células ligavam menos partículas virais à sua superfície e apresentavam queda acentuada nos níveis iniciais de RNA viral. Quando a ANXA1 era reintroduzida, a suscetibilidade à infecção era restaurada.

Análises bioquímicas e de imagem indicaram ainda que a ANXA1 interage diretamente com uma região específica da cápside do vírus, funcionando como uma espécie de “ponte” que facilita a adesão e a entrada do patógeno.

Impacto econômico e social

A relevância da descoberta extrapola o laboratório. A suinocultura é um dos pilares da produção de proteína animal no mundo, e surtos entéricos em leitões comprometem o ganho de peso, aumentam a mortalidade e elevam os custos com medicamentos e biossegurança.

“Mesmo infecções consideradas leves têm impacto acumulado enorme quando ocorrem de forma endêmica”, afirma Qingting Dong, da Universidade Vocacional Agrícola de Guangxi. “Compreender os mecanismos celulares da infecção é um passo essencial para reduzir perdas e melhorar o bem-estar animal”, diz.

Perspectivas e limites

Os autores ressaltam que a ANXA1 não é o único fator envolvido na infecção — a ausência da proteína reduz, mas não elimina, a entrada do vírus. Isso sugere que o astrovírus utiliza múltiplas rotas para invadir a célula, um padrão comum entre vírus entéricos.

Ainda assim, o achado abre caminho para novas abordagens. O bloqueio farmacológico da ANXA1, por exemplo, reduziu a replicação viral em culturas celulares, embora os próprios pesquisadores alertem para riscos, já que a proteína também participa de processos inflamatórios e imunológicos essenciais.

“O estudo não aponta uma solução imediata, mas oferece um mapa muito mais detalhado do terreno”, afirma Qin. “A partir dele, será possível pensar em estratégias mais precisas e seguras de intervenção”.


Em um momento de crescente preocupação global com doenças animais e seus reflexos na segurança alimentar, o trabalho reforça o valor da pesquisa fundamental. Ao desvendar como um vírus se aproveita da maquinaria celular, o estudo amplia o entendimento não apenas do astrovírus suíno, mas da própria interação entre vírus e hospedeiros.

Como resume Huang, “entender os primeiros minutos da infecção é muitas vezes a chave para impedir todo o processo”. 


Detalhes da publicação
Luo Y, Dong Q, Yi S, Zhang W, Du Y, Fang Q, et al. (2026) Triagem CRISPR em todo o genoma identifica a anexina A1 como facilitadora da entrada do astrovírus suíno. PLoS Pathog 22(2): e1013943. https://doi.org/10.1371/journal.ppat.1013943

 

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