Saúde

Axolote revela chave molecular da regeneração de membros e reacende debate sobre limites da medicina regenerativa
Estudo publicado na revista científica eLife identifica como a interação entre tecidos dorsais e ventrais ativa um gene central para a reconstrução de membros em vertebrados
Por Laercio Damasceno - 08/02/2026




Por décadas, o axolote — um anfíbio mexicano de aparência quase mítica — ocupa um lugar especial na biologia. Capaz de regenerar patas inteiras, cauda e até partes do coração e do sistema nervoso, o animal se tornou símbolo de um enigma científico: por que alguns vertebrados conseguem refazer estruturas complexas enquanto humanos cicatrizam, no máximo, a pele. Agora, um estudo publicado nesta semana na revista eLife dá um passo decisivo para responder a essa pergunta.

Pesquisadores da Universidade de Okayama, no Japão, demonstraram que a regeneração completa de um membro no axolote depende do contato direto entre tecidos dorsais e ventrais — as faces “de cima” e “de baixo” da pata. Essa interação é o gatilho para a ativação do gene Sonic hedgehog (Shh), peça central na organização do eixo corporal durante o desenvolvimento embrionário e, como se confirmou agora, também durante a regeneração.

“O que mostramos é que a regeneração não é apenas uma repetição do desenvolvimento embrionário, mas um processo que exige comunicação ativa entre identidades celulares distintas”, afirma Akira Satoh, líder do estudo e professor da Universidade de Okayama. “Sem o diálogo entre células dorsais e ventrais, o gene Shh simplesmente não é ativado — e o membro não se forma.”

Um problema clássico, uma resposta molecular

Desde os anos 1970, experimentos clássicos indicavam que a mistura de tecidos com diferentes “endereços” — anterior, posterior, dorsal e ventral — era essencial para a regeneração correta em salamandras. Faltava, porém, identificar o mecanismo molecular por trás desse fenômeno. O novo trabalho resolve essa lacuna ao mostrar que o contato dorsoventral cria o ambiente necessário para induzir a expressão de Shh, responsável por organizar o eixo anteroposterior do membro (do “ombro” aos “dedos”).

Utilizando um modelo experimental conhecido como “membro acessório”, os pesquisadores induziram a formação de brotos regenerativos contendo apenas tecidos de uma orientação específica. O resultado foi consistente: quando faltava tecido dorsal ou ventral, o broto se formava, mas a pata não se desenvolvia. A ativação de Shh simplesmente não ocorria.

A equipe foi além e identificou os sinais químicos envolvidos nesse diálogo. O estudo aponta que a proteína WNT10B, predominante em células dorsais, e o fator de crescimento FGF2, associado a células ventrais, atuam de forma complementar para ativar o Shh. “Esses sinais funcionam como uma conversa molecular”, explica Satoh. “É a combinação deles que diz às células: agora é possível construir um membro completo.”

Implicações que vão além do axolote

O impacto do achado ultrapassa a biologia de anfíbios. Em mamíferos, incluindo humanos, genes como Shh, WNT e FGF também desempenham papéis fundamentais no desenvolvimento embrionário. A diferença é que, após o nascimento, esses circuitos são silenciados ou passam a operar de forma limitada.

“O estudo ajuda a explicar por que a regeneração falha em animais como nós”, avalia Prayag Murawala, editor científico da eLife, em nota editorial. “Não se trata apenas de ativar um gene isolado, mas de recriar um contexto de comunicação entre tecidos que já não existe no adulto humano.”


Especialistas em medicina regenerativa veem no trabalho uma base conceitual sólida para futuras terapias. “É improvável que seres humanos regenerem braços como axolotes tão cedo”, diz Satoh, com cautela. “Mas entender os princípios que permitem essa regeneração nos dá ferramentas para pensar em estratégias de reparo mais eficazes, seja em tecidos musculares, cartilagens ou órgãos.”

Um novo capítulo em uma longa história

O axolote já atravessou séculos de curiosidade científica — de experimentos anatômicos no século 19 às modernas análises genômicas. O estudo japonês se insere nessa tradição ao conectar observações históricas a dados moleculares robustos. Para os autores, a descoberta reforça a ideia de que a regeneração é um processo coletivo, dependente da cooperação entre células com memórias espaciais distintas.

“Regenerar não é apenas crescer de novo”, resume Satoh. “É reconstruir a ordem.”


Ao revelar como essa ordem é restabelecida no axolote, a pesquisa reacende uma pergunta antiga, agora com novos contornos: até onde a biologia humana pode ir se aprender a ouvir — e reproduzir — esse diálogo celular perdido?


Referência da publicação
Sakiya YamamotoSaya FurukawaAyaka OhashiMayuko HamadaAkira Satoh (2026) A indução de Shh mediada pelo nervo dorsoventral é necessária para a regeneração dos membros do axolote. eLife 14 :RP106917.
https://doi.org/10.7554/eLife.106917.3

 

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