Saúde

Imunidade desigual molda o futuro do vírus da gripe, mostra estudo internacional
Nova técnica revela que variantes do influenza avançam ao escapar da proteção de parcelas específicas da população — e pode mudar a forma como vacinas são escolhidas
Por Laercio Damasceno - 08/02/2026


Domínio público


Um amplo estudo internacional publicado na revista científica eLife lança nova luz sobre uma velha corrida: a disputa entre o vírus da gripe e o sistema imunológico humano. Ao analisar, em escala inédita, como anticorpos de crianças e adultos neutralizam diferentes variantes do influenza A (H3N2), os pesquisadores mostram que o sucesso evolutivo do vírus depende menos da “média” da imunidade coletiva e mais das brechas deixadas por grupos específicos da população.

A pesquisa, liderada por cientistas do Fred Hutch Cancer Center e da Universidade de Washington, mediu cerca de 10 mil testes de neutralização contra 78 variantes recentes do vírus. O resultado central é claro: as cepas que mais cresceram em 2023 foram justamente aquelas capazes de escapar da imunidade de uma fração maior das pessoas — mesmo que a maioria ainda apresentasse alguma proteção.

“O vírus não precisa driblar todo mundo. Basta encontrar um número suficiente de indivíduos com baixa imunidade para se espalhar”, afirma Jesse D. Bloom, biólogo evolutivo do Fred Hutch e um dos autores seniores do estudo. “Essa heterogeneidade individual é um fator-chave da evolução do influenza.”

Um retrato detalhado da imunidade

Desde a segunda metade do século 20, sabe-se que o vírus da gripe sofre mutações constantes em sua principal proteína de superfície, a hemaglutinina, em um processo conhecido como “deriva antigênica”. É essa dinâmica que obriga a atualização anual das vacinas. Tradicionalmente, porém, a avaliação das variantes se baseia em testes de baixa escala ou em modelos animais, como furões, que não capturam a complexidade da imunidade humana.

Visão geral do ensaio de neutralização baseado em sequenciamento.
(a) Geramos uma biblioteca de vírus da influenza com código de barras contendo diferentes HAs, cada um identificado por um código de barras único de 16 nucleotídeos em seu genoma. Veja a Figura Suplementar 1 para detalhes. (b) A biblioteca de vírus é incubada com soros e, em seguida, adicionada a células MDCK-SIAT1 em uma placa de 96 poços. De 12 a 14 horas após a infecção, as células são lisadas e uma concentração conhecida de RNA com código de barras é adicionada a cada poço...

O novo estudo rompe essa limitação ao empregar um ensaio de neutralização baseado em sequenciamento genético. Com a técnica, os cientistas conseguem testar simultaneamente dezenas de variantes virais contra centenas de amostras de soro humano, preservando as diferenças individuais de resposta imunológica.

Os dados revelam uma grande variabilidade entre pessoas — especialmente entre crianças. Algumas apresentaram níveis elevados de anticorpos contra quase todas as cepas analisadas; outras, proteção muito mais limitada. Entre adultos, a resposta foi mais homogênea, mas ainda assim longe de uniforme.

Por que a média engana

Um dos achados mais relevantes é que soros “em pool” — misturas de amostras usadas com frequência em análises laboratoriais — falham em representar essa diversidade. Nos testes, os pools refletiram sobretudo os indivíduos com resposta imunológica mais forte, mascarando vulnerabilidades presentes no conjunto da população.

“Quando usamos apenas a média, perdemos informação crítica”, diz Caroline Kikawa, primeira autora do estudo. “As variantes que acabam dominando são aquelas que exploram essas diferenças individuais.”

Ao cruzar os dados imunológicos com modelos matemáticos de crescimento viral, os pesquisadores observaram uma forte correlação entre o avanço das cepas em 2023 e a proporção de pessoas com baixos títulos de anticorpos contra elas. Essa relação não apareceu quando se usaram apenas dados de soros agrupados.

Impacto nas vacinas e na saúde pública

O trabalho tem implicações diretas para a escolha das cepas que compõem a vacina anual contra a gripe, decisão tomada duas vezes por ano em reuniões coordenadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo os autores, a nova abordagem poderia ser incorporada a esse processo, oferecendo uma leitura mais fiel da imunidade populacional.

“Hoje, a seleção de vacinas ainda sofre com erros de previsão. Ensaios de alta escala como este podem ajudar a antecipar quais variantes têm maior chance de se espalhar.”

Jesse D Bloom

Em um contexto de envelhecimento populacional e de circulação simultânea de múltiplos vírus respiratórios, como SARS-CoV-2 e influenza, entender essas dinâmicas ganha peso social. Vacinas mais bem ajustadas significam menos hospitalizações, menos mortes e menor pressão sobre os sistemas de saúde.

Os próprios autores reconhecem limitações. As amostras analisadas vêm majoritariamente dos Estados Unidos e da Austrália, regiões com alta cobertura vacinal, o que pode não refletir integralmente a realidade global. Além disso, o estudo foca apenas em anticorpos neutralizantes, deixando de fora outros componentes da resposta imune.


Ainda assim, especialistas veem o trabalho como um avanço conceitual. Ao mostrar que o vírus “enxerga” a população não como um bloco homogêneo, mas como um mosaico de vulnerabilidades, o estudo reforça a ideia de que políticas de saúde pública precisam lidar com a diversidade biológica e social.

Como resume Kikawa: “A evolução do vírus da gripe não é guiada pela média. Ela acontece nas margens.”


Referência
Caroline Kikawa, Andrea N Loes, John Huddleston, Marlin D Figgins, Philippa Steinberg, Tachianna Griffiths, Elizabeth M Drapeau, Heidi PeckIan G Barr, Janet A Englund, Scott E Hensley, Trevor Bedford, Jesse D Bloom,. Medições de neutralização de alto rendimento de 2025 correlacionam-se fortemente com o sucesso evolutivo de cepas de influenza humana eLife 14 : RP106811
https://doi.org/ 10.7554/eLife.106811.3

 

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