Saúde

Câncer colorretal deve triplicar mortes e aprofundar desigualdades regionais no Brasil até 2030
Estudo publicado na The Lancet Regional Health – Americas estima que o país acumulará 635 mil mortes pela doença entre 2001 e 2030, com um custo indireto de US$ 22,6 bilhões (em dólares internacionais) em perdas de produtividade
Por Laercio Damasceno - 09/02/2026


Imagem Ilustrativa


O câncer colorretal caminha para se consolidar como um dos maiores desafios sanitários e econômicos do Brasil nas próximas décadas. Estudo publicado neste domingo (8) na revista The Lancet Regional Health – Américas estima que o país acumulará 635 mil mortes pela doença entre 2001 e 2030, com um custo indireto de US$ 22,6 bilhões (em dólares internacionais) em perdas de produtividade — impacto concentrado de forma desproporcional nas regiões Norte e Nordeste.

A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), da Fiocruz e de universidades brasileiras e estrangeiras, aponta que o número anual de mortes quase triplicará no intervalo de três décadas. Entre homens, o crescimento projetado é de 181%; entre mulheres, 165%. Em termos absolutos, o país deve passar de cerca de 58 mil óbitos no início dos anos 2000 para mais de 157 mil mortes no quinquênio 2026–2030.

Doença da transição epidemiológica

Historicamente associada a países de alta renda, a incidência do câncer colorretal cresce no Brasil à medida que o país envelhece e adota hábitos típicos da chamada “ocidentalização” — dieta rica em ultraprocessados, sedentarismo e obesidade. A ausência de programas nacionais organizados de rastreamento agrava o cenário.

“O aumento da mortalidade reflete a combinação entre transição demográfica, mudanças no estilo de vida e acesso desigual aos serviços de saúde”, afirma Marianna de Camargo Cancela, pesquisadora do Inca e coautora do estudo.

Figura 1. Razão de crescimento de anos potenciais de vida perdidos (YPLL) entre homens por quinquênio em comparação com o primeiro quinquênio (círculo interno – 2001–2005), Brasil e regiões.

Norte e Nordeste: o peso invisível

Embora o Sudeste e o Sul concentrem a maior parte das mortes em números absolutos, é no Norte e no Nordeste que o impacto cresce mais rapidamente. Segundo as projeções, as perdas de produtividade associadas às mortes por câncer colorretal devem aumentar 9,7 vezes entre homens no Norte e 10,3 vezes entre mulheres no Nordeste até 2030.

Essas regiões reúnem piores indicadores de renda, escolaridade, saneamento e acesso a serviços especializados. “Estamos falando de mortes em idade produtiva, que retiram pessoas do mercado de trabalho e aprofundam ciclos de pobreza e desigualdade”, diz Jonas Eduardo Monteiro dos Santos, pesquisador do Inca.

O estudo utilizou a abordagem de “capital humano” para calcular os anos potenciais de vida perdidos e o valor econômico associado à saída precoce da força de trabalho. O resultado é um retrato do câncer como problema não apenas clínico, mas estrutural. Em muitos casos, as perdas indiretas superam os custos diretos com diagnóstico e tratamento.

“O câncer colorretal se torna um problema de desenvolvimento. Ele afeta famílias, empresas e a capacidade produtiva do país”

Isabelle Soerjomataram, da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), coautora do trabalho.

Os autores defendem que a reversão da tendência depende de políticas articuladas: promoção de alimentação saudável, combate ao sedentarismo, implementação de programas de rastreamento populacional, diagnóstico precoce e acesso oportuno ao tratamento, especialmente fora do eixo Sul-Sudeste.

“Reduzir as desigualdades regionais é condição central para conter o impacto econômico e social do câncer colorretal”, conclui Cancela. Sem essa inflexão, alertam os pesquisadores, o Brasil corre o risco de transformar uma doença evitável em mais um fator de perpetuação das desigualdades históricas do país


Referência
Desigualdades regionais na mortalidade por câncer colorretal e seu impacto econômico indireto no Brasil de 2001 a 2030: um estudo com foco no capital humano. The Lancet Saúde Regional – Américas Vol. 55 101383 Publicado: 8 de fevereiro de 2026. Jonas Eduardo Monteiro dos SantosAlison PearceArn MigowskiDyego Leandro Bezerra de SouzaIsabelle SoerjomataramLeonardo Borges Lopes de Souzae outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101383

 

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