Saúde

HIV acelera envelhecimento biológico, mas remédios podem frear o processo, aponta estudo internacional
A pesquisa analisou dados de quase 2.200 pessoas, a maioria em tratamento eficaz e com carga viral suprimida, usando ferramentas de ponta da biologia do envelhecimento. Em vez de medir apenas a idade cronológica, os cientistas recorreram...
Por Laercio Damasceno - 10/02/2026


Domínio público


Um dos grandes paradoxos da era pós-coquetel antirretroviral é que pessoas vivendo com HIV passaram a viver quase tanto quanto a população geral — mas continuam adoecendo mais cedo. Um estudo publicado nesta terça-feira (10), na revista Nature Communications, lança nova luz sobre esse fenômeno ao demonstrar que a infecção crônica pelo HIV acelera o envelhecimento biológico do organismo e de órgãos específicos, enquanto alguns medicamentos antirretrovirais exercem efeito oposto, funcionando como um freio parcial desse processo.

A pesquisa analisou dados de quase 2.200 pessoas, a maioria em tratamento eficaz e com carga viral suprimida, usando ferramentas de ponta da biologia do envelhecimento. Em vez de medir apenas a idade cronológica, os cientistas recorreram a “relógios biológicos” baseados em proteínas circulantes no sangue e em marcas epigenéticas do DNA — indicadores capazes de estimar a idade real dos tecidos e do organismo.

O resultado é contundente: mesmo sob tratamento, pessoas com HIV apresentam envelhecimento biológico acelerado em comparação com indivíduos sem o vírus. O efeito é mais pronunciado no nível sistêmico — o “organismo como um todo” — e em órgãos como o cérebro e as artérias, enquanto fígado e intestino mostram padrões distintos, por vezes até de envelhecimento desacelerado.

“O HIV deixa cicatrizes moleculares duradouras”, afirma Mihai G. Netea, imunologista do Radboud University Medical Center, na Holanda, e um dos coordenadores do estudo. “Mesmo quando a replicação viral está controlada, a inflamação crônica e a ativação persistente do sistema imune continuam empurrando o corpo para um estado biologicamente mais velho.”

Do vírus ao relógio celular

A associação entre HIV e envelhecimento precoce não é nova. Desde os anos 2000, médicos observam maior incidência de doenças cardiovasculares, cânceres e distúrbios neurológicos em pacientes soropositivos relativamente jovens. O diferencial do novo trabalho está na escala e na sofisticação das análises.

Os pesquisadores aplicaram nove relógios de envelhecimento baseados em proteômica — seis deles específicos para órgãos — desenvolvidos a partir de dados de pessoas saudáveis. Esses relógios foram então testados em duas grandes coortes de indivíduos com HIV acompanhados por anos.

Os marcadores de envelhecimento acelerado se correlacionaram não apenas com parâmetros clínicos, como pior saúde física e maior número de comorbidades, mas também com desfechos graves. O avanço da idade biológica sistêmica esteve associado a maior risco de morte em um acompanhamento de dois anos.

“Não se trata apenas de um marcador abstrato”, diz Andre van der Ven, infectologista e coautor do estudo. “O envelhecimento biológico medido aqui se traduz em risco real de doença e mortalidade.”

O papel oculto do reservatório viral

Um achado central do estudo é a relação entre envelhecimento acelerado e o tamanho do reservatório total de HIV — o conjunto de células onde o vírus permanece latente, mesmo sob tratamento. Quanto maior esse reservatório, maior o avanço da idade biológica.

Curiosamente, o mesmo não foi observado para o chamado reservatório intacto, responsável pela replicação viral ativa. Isso sugere que fragmentos defeituosos do vírus, incapazes de se multiplicar, ainda assim produzem sinais inflamatórios suficientes para desgastar o organismo ao longo do tempo.

O dado ajuda a explicar por que indivíduos conhecidos como “controladores de elite”, que mantêm o vírus suprimido sem medicamentos e têm reservatórios muito pequenos, apresentaram tendência a envelhecer mais lentamente do ponto de vista biológico.

Quando o remédio rejuvenesce

Se o HIV acelera o relógio, alguns antirretrovirais parecem atrasá-lo. O estudo identificou efeitos protetores associados ao uso prolongado de certos medicamentos, sobretudo da classe dos inibidores da transcriptase reversa, como a lamivudina, e de alguns não nucleosídeos, como a rilpivirina.

Em contraste, outros fármacos mostraram efeitos neutros ou até associados a envelhecimento acelerado em órgãos específicos, como o fígado e o cérebro, reforçando a ideia de que o impacto do tratamento vai além do controle viral.

“Esses resultados abrem uma nova fronteira”, avalia Netea. “Talvez no futuro possamos escolher esquemas terapêuticos não apenas pela eficácia antiviral, mas também pelo impacto sobre o envelhecimento e a saúde a longo prazo.”


No Brasil, onde mais de 1 milhão de pessoas vivem com HIV, o envelhecimento dessa população já pressiona o Sistema Único de Saúde, com aumento de casos de doenças cardiovasculares, renais e neurodegenerativas. Os autores defendem que marcadores de idade biológica possam, no futuro, ajudar a identificar pacientes de maior risco e orientar políticas de cuidado mais personalizadas.

Apesar do avanço, o estudo tem limitações: é majoritariamente transversal, concentra-se em populações europeias e não inclui alguns órgãos-chave, como coração e rins, por falta de dados proteômicos específicos.

Ainda assim, a mensagem central é clara. O HIV deixou de ser sentença de morte, mas continua sendo um acelerador silencioso do envelhecimento. Entender — e talvez modular — esse processo pode ser o próximo grande desafio da medicina do HIV no século 21.


Referência
Zhang, Y., Matzaraki, V., Vadaq, N. et al. Efeitos opostos da infecção crônica pelo HIV e da medicação antirretroviral no envelhecimento biológico do organismo e de órgãos específicos. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69412-1

 

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