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Um dos dilemas históricos do tratamento do câncer de nasofaringe — tumor raro no Ocidente, mas endêmico no sul da China e no Sudeste Asiático — sempre foi o equilíbrio entre eficácia e toxicidade. Desde os anos 1990, a cisplatina se consolidou como pilar da quimioterapia associada à radioterapia, ao custo de efeitos colaterais significativos, como perda auditiva e lesão renal. Agora, um estudo publicado nesta terça-feira (10), na Nature Communications, sugere que esse paradigma pode ser revisto.
Após uma década de seguimento, pesquisadores chineses demonstraram que a substituição da cisplatina por lobaplatina, um quimioterápico de terceira geração à base de platina, mantém taxas de sobrevida equivalentes e reduz efeitos adversos tardios em pacientes com câncer de nasofaringe localmente avançado.
O ensaio clínico de fase 3, multicêntrico e randomizado, acompanhou 502 pacientes tratados entre 2013 e 2015 em cinco hospitais da China. Metade recebeu quimioterapia de indução com lobaplatina e fluorouracil, seguida de quimiorradioterapia concomitante; a outra metade foi tratada com o regime padrão à base de cisplatina. O acompanhamento médio foi de 10,6 anos.
Os resultados finais mostram que a sobrevida livre de progressão em dez anos foi de 70,7% no grupo da lobaplatina e de 71,9% no grupo da cisplatina — diferença estatisticamente irrelevante e dentro da margem de não inferioridade previamente estabelecida. “Demonstramos de forma definitiva que a lobaplatina não compromete a eficácia do tratamento”, afirma Xing Lv, oncologista do Sun Yat-sen University Cancer Center e um dos coordenadores do estudo.
Menos sequelas, mesma eficácia
Onde a nova droga se destaca é no perfil de segurança. Pacientes tratados com cisplatina apresentaram maior incidência de neuropatia periférica, perda auditiva, otite crônica e nefrotoxicidade — inclusive em graus mais severos. A toxicidade renal de grau 3, por exemplo, foi dez vezes mais frequente no grupo da cisplatina. “Esses efeitos não são apenas números: eles afetam a qualidade de vida por décadas”, diz Lv.
A preocupação com sequelas tardias não é trivial. Como o câncer de nasofaringe atinge frequentemente adultos jovens e de meia-idade, muitos sobreviventes convivem por anos com danos auditivos ou renais. Segundo os autores, a redução desses efeitos pode ter impacto direto na reinserção social e produtiva dos pacientes.
Embora represente menos de 1% dos cânceres diagnosticados no mundo, o câncer de nasofaringe responde por mais de 70% dos casos no sul da China, Sudeste Asiático e norte da África. Em 2018, cerca de 129 mil novos casos foram registrados globalmente. A doença está fortemente associada ao vírus Epstein-Barr, além de fatores genéticos e ambientais.
Para especialistas, os achados reforçam uma tendência já observada em estudos menores e meta-análises: a busca por regimes quimioterápicos menos tóxicos, sem perda de eficácia. “Este é um dos acompanhamentos mais longos já publicados na área e fornece uma base sólida para mudanças em diretrizes clínicas”, avaliam os autores.
Limites e próximos passos
Os pesquisadores reconhecem limitações. Todos os participantes eram de regiões endêmicas da China, o que pode restringir a generalização dos resultados para populações não asiáticas. Além disso, não foram coletados dados padronizados de qualidade de vida, o que permitiria mensurar de forma mais precisa o impacto funcional das toxicidades.
Ainda assim, o estudo consolida a lobaplatina como candidata real a substituir a cisplatina em protocolos internacionais. “Reduzir toxicidade sem sacrificar a chance de cura é um objetivo central da oncologia moderna”, diz Lv. “Após dez anos, acreditamos que esta estratégia cumpre esse propósito.”
Se incorporada às diretrizes clínicas, a mudança pode representar um avanço silencioso, porém profundo, no tratamento de um câncer que, embora raro, impõe um pesado fardo social e individual aos sobreviventes.
Referência
Cao, X., Zhou, JY., Huang, HY. et al. Análise final de sobrevida da quimioterapia de indução com lobaplatina e fluorouracilo versus cisplatina e fluorouracilo seguida de quimiorradioterapia concomitante no carcinoma nasofaríngeo: um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, de fase 3. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69315-1