Saúde

Conversão emergencial para anestesia geral em trombectomia não piora incapacidade, mas eleva risco de pneumonia
Estudo multicêntrico com 669 pacientes mostra que mudança de estratégia durante procedimento não altera desfecho funcional em 90 dias, mas está associada a mais infecções respiratórias e maior mortalidade em comparação com anestesia geral planejada
Por Laercio Damasceno - 12/02/2026


Imagem de divulgação


A decisão sobre qual tipo de anestesia utilizar durante a trombectomia mecânica — procedimento que remove o coágulo responsável pelo AVC isquêmico — segue dividindo especialistas. Um estudo internacional publicado na quinta-feira (12), revista Scientific Reports, lança nova luz sobre um ponto pouco explorado: o que acontece quando é preciso mudar a estratégia no meio do procedimento.

A pesquisa analisou os desfechos de pacientes que iniciaram a trombectomia sob anestesia local ou sedação consciente, mas precisaram ser convertidos de forma emergencial para anestesia geral com intubação. O resultado principal: essa conversão não esteve associada a pior funcionalidade após 90 dias. Ainda assim, o grupo apresentou maior risco de pneumonia hospitalar e maior mortalidade em três meses quando comparado aos pacientes submetidos à anestesia geral desde o início.

“Nosso estudo sugere que a conversão emergencial não compromete o desfecho funcional, mas não é um evento neutro do ponto de vista clínico”, afirma Giovanni Merlino, neurologista do Hospital Universitário de Udine, na Itália, e primeiro autor do trabalho.

Debate antigo, evidências novas

A trombectomia mecânica é o padrão-ouro para tratar o AVC isquêmico causado por oclusão de grandes vasos — situação responsável pelas formas mais graves da doença. O procedimento pode ser realizado sob anestesia geral (com intubação) ou sob anestesia local e sedação consciente, mantendo o paciente respirando espontaneamente.

Meta-análises recentes de ensaios clínicos randomizados não haviam demonstrado diferenças significativas nos desfechos neurológicos entre as estratégias. No entanto, o ensaio clínico SEGA, publicado em 2025 na JAMA Neurology, apontou vantagem da anestesia geral planejada quanto à recuperação funcional e às taxas de reperfusão bem-sucedida.

Na prática clínica, porém, a escolha é individualizada. Pacientes mais graves, agitados ou instáveis tendem a ser intubados desde o início. Outros iniciam o procedimento acordados — mas até 15% podem necessitar de intubação emergencial durante a intervenção.

“Apesar de não ser rara, a conversão emergencial costuma ser tratada como um desvio de protocolo ou ‘crossover’ em estudos clínicos, e seus efeitos específicos permaneciam pouco claros”, escrevem os autores.

O estudo

A análise reuniu 669 pacientes com AVC isquêmico por oclusão da circulação anterior, tratados entre janeiro de 2022 e dezembro de 2023 em três centros de referência: Udine e Bérgamo (Itália) e o Charing Cross Hospital, em Londres.

Do total:

399 (59,6%) foram submetidos à anestesia geral desde o início;

188 (28,1%) foram tratados com anestesia local ou sedação consciente;

82 (12,3%) passaram por conversão emergencial para anestesia geral após o início do procedimento.

O desfecho primário foi a distribuição da escala de Rankin modificada (mRS) aos 90 dias, que mede o grau de incapacidade após o AVC.

Após ajustes estatísticos para equilibrar as diferenças clínicas entre os grupos, os pesquisadores não encontraram diferença significativa na recuperação funcional entre os pacientes que passaram por conversão emergencial e aqueles tratados com anestesia geral primária ou não geral.

“Em termos de incapacidade aos três meses, a conversão não se associou a piores resultados”, afirma Merlino.

Pneumonia e mortalidade

Os resultados mudam quando se analisam complicações clínicas.

Pacientes que precisaram de conversão apresentaram risco significativamente maior de pneumonia hospitalar em comparação com aqueles mantidos sob anestesia não geral. Segundo a análise ajustada, o grupo não geral teve 83% menos chance de desenvolver pneumonia do que o grupo convertido.

A intubação é um fator conhecido de risco para pneumonia aspirativa, especialmente em pacientes neurológicos graves.

Além disso, a mortalidade em três meses foi significativamente menor no grupo que recebeu anestesia geral desde o início, quando comparado ao grupo que precisou de conversão emergencial. A anestesia geral primária esteve associada a uma redução de 52% na chance de morte em três meses em relação à conversão.

Já entre conversão e anestesia não geral, a diferença de mortalidade não atingiu significância estatística.

Para os autores, a maior mortalidade no grupo convertido pode refletir não apenas o efeito da intubação tardia, mas também uma maior vulnerabilidade clínica desses pacientes. “A conversão pode identificar um subgrupo com instabilidade intraprocedimento que não é totalmente capturada pelas variáveis basais”, escrevem.

Em 81,7% dos casos, a conversão ocorreu por agitação durante a trombectomia — situação que dificulta a precisão do procedimento. Outras causas, como complicações respiratórias, vômitos ou aspiração, foram raras.

Em análise exploratória, não houve diferença significativa de desfecho entre pacientes convertidos por agitação e aqueles convertidos por outras razões.

Implicações práticas

Para os autores, os achados oferecem respaldo à prática de iniciar a trombectomia sob sedação em pacientes selecionados, desde que haja monitoramento rigoroso e equipe preparada para conversão rápida, se necessário.

“Iniciar sob anestesia não geral pode ser uma estratégia razoável quando não há contraindicações claras”, afirma Mariarosaria Valente, coautora sênior do estudo. “Mas nossos dados também reforçam a necessidade de vigilância cuidadosa das vias aéreas e da estabilidade clínica.”

Especialistas ouvidos pela revista destacam que, embora o estudo seja observacional, ele representa a maior coorte já publicada especificamente sobre conversão emergencial.

Ainda assim, os autores reconhecem limitações: ausência de dados detalhados sobre drogas anestésicas utilizadas, tempo entre punção e recanalização, profundidade da sedação e manejo pós-procedimento. Também não houve adjudicação centralizada dos casos de pneumonia.

Panorama

O AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 12 milhões de pessoas sofrem um AVC a cada ano, e a oclusão de grandes vasos responde por parcela significativa dos casos mais graves.

À medida que a trombectomia se consolida como padrão terapêutico, questões aparentemente técnicas — como a escolha da anestesia — passam a ter impacto direto em desfechos clínicos e custos hospitalares.

O estudo reforça que a conversão emergencial não deve ser vista automaticamente como falha técnica ou fator determinante de incapacidade futura. Mas também deixa claro que não é um evento trivial.

“Precisamos de estudos prospectivos maiores para confirmar esses achados e entender melhor quais pacientes se beneficiam mais de cada estratégia”, conclui Merlino.


Referência
Merlino, G., Kuris, F., Cesco, G. et al. Resultados da conversão de emergência para anestesia geral durante trombectomia para acidente vascular cerebral na circulação anterior. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-39248-2

 

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