A doença hepática é responsável por cerca de 3 milhões de mortes anuais no mundo, segundo estimativas citadas pelos autores. No Brasil, o álcool figura entre os principais fatores de risco para cirrose e câncer hepático.

Domínio público
Em um avanço que reposiciona o músculo esquelético como aliado direto do fígado, pesquisadores da University of Virginia e da Third Military Medical University identificaram uma proteína muscular capaz de atenuar os danos provocados pelo consumo crônico de álcool. O estudo, publicado nesta sexta-feira (13), na revista Nature Communications, descreve como a molécula MG53 atua como “metalocarreadora” de zinco, ampliando a capacidade do fígado de metabolizar o álcool e reduzindo inflamação, fibrose e mortalidade em modelos experimentais.
A doença hepática alcoólica (ALD, na sigla em inglês) é responsável por cerca de 3 milhões de mortes anuais no mundo, segundo estimativas citadas pelos autores. No Brasil, o álcool figura entre os principais fatores de risco para cirrose e câncer hepático. Apesar do impacto sanitário, as opções terapêuticas permanecem limitadas, especialmente nos quadros avançados.
Músculo e fígado em diálogo
A equipe liderada por Chunyu Zeng e Jianjie Ma partiu de uma hipótese pouco explorada: a de que o músculo esquelético, tradicionalmente visto como órgão de locomoção e reserva energética, desempenha papel ativo na proteção do fígado por meio de proteínas secretadas — as chamadas miocinas.
Analisando dados de 1.858 participantes do levantamento americano NHANES, os cientistas observaram que a sarcopenia — perda de massa muscular — esteve associada a um risco aproximadamente duas vezes maior de doença hepática alcoólica. A relação foi mais pronunciada em homens.
“Os dados epidemiológicos sugeriram que a perda muscular não é apenas consequência da doença hepática, mas pode contribuir para sua progressão”, afirmam os autores no artigo.
A partir de bancos públicos de proteômica hepática, o grupo identificou 455 proteínas presentes em fígados de pacientes com ALD que não costumam aparecer em fígados saudáveis. Entre elas, destacou-se a MG53 (também conhecida como TRIM72), proteína produzida principalmente pelo músculo.
O papel do zinco
A deficiência de zinco é marca conhecida da doença hepática alcoólica. O mineral é essencial para o funcionamento de enzimas como a álcool desidrogenase (ADH) e a aldeído desidrogenase 2 (ALDH2), responsáveis por converter o etanol em compostos menos tóxicos. Sem zinco suficiente, o fígado perde eficiência na depuração do álcool e acumula acetaldeído, substância altamente reativa e danosa.
Segundo o estudo, a MG53 funciona como uma espécie de “chaperona” molecular: liga-se ao zinco e o direciona às enzimas ADH e ALDH2, aumentando sua atividade. Em camundongos geneticamente modificados para não produzir MG53, a deficiência hepática de zinco foi mais intensa, acompanhada de níveis mais altos de etanol e acetaldeído no sangue, maior inflamação e mortalidade superior após oito semanas de exposição ao álcool.
A administração sistêmica de MG53 recombinante reverteu parte desses efeitos, restaurando a atividade enzimática e reduzindo lesões hepáticas.