Saúde

Estudo brasileiro compara dois esquemas curtos para prevenir tuberculose e aponta alta adesão, com diferenças discretas de segurança
A pesquisa envolveu 500 adolescentes e adultos sem HIV, com teste positivo para infecção latente por tuberculose após exposição domiciliar ou ocupacional. Realizado no Rio de Janeiro e em Manaus, o ensaio é considerado o primeiro a comparar...
Por Laercio Damasceno - 13/02/2026


Domínio público


Um ensaio clínico conduzido no Brasil e publicado na terça-feira (10), na revista PLOS Medicine, traz novos dados para uma das frentes estratégicas no combate à tuberculose: a prevenção da doença em pessoas recentemente expostas ao bacilo. O estudo Ultra-Curto comparou dois esquemas terapêuticos abreviados — um de um mês (1HP) e outro de três meses (3HP) — e concluiu que ambos apresentam altas taxas de conclusão do tratamento, com perfis de segurança semelhantes.

A pesquisa envolveu 500 adolescentes e adultos sem HIV, com teste positivo para infecção latente por tuberculose após exposição domiciliar ou ocupacional. Realizado no Rio de Janeiro e em Manaus, o ensaio é considerado o primeiro a comparar diretamente os dois regimes em pessoas sem infecção pelo vírus.

“O tratamento preventivo é uma das ferramentas mais poderosas para reduzir a incidência de tuberculose”, afirma Betina Durovni, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio, primeira autora do estudo. “Demonstrar que um esquema de apenas um mês é seguro e tem alta adesão amplia as opções para pacientes e programas de saúde.”

Dois esquemas, mesma meta

Os pesquisadores compararam:

1HP: rifapentina + isoniazida diariamente por 4 semanas

3HP: rifapentina + isoniazida semanalmente por 12 semanas

A rifapentina e a isoniazida são antibióticos já utilizados na prevenção da tuberculose, mas tradicionalmente o tratamento preventivo exigia de seis a nove meses de isoniazida isolada — um dos principais fatores de abandono.

Figura. Estratégia analítica para o sucesso do tratamento.
O monitoramento farmacológico foi realizado em duas consultas. Um resultado positivo em qualquer um dos testes, em qualquer uma das consultas, foi considerado evidência de adesão. Abreviações: HP, isoniazida e rifapentina; INH, isoniazida; RPT, rifapentina. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de um quarto da população mundial carrega a bactéria da tuberculose em estado latente. Em 2023, mais de 10 milhões de pessoas adoeceram, e 1,3 milhão morreram em decorrência da doença. A ampliação do tratamento preventivo é peça central da estratégia global “End TB”.

Alta adesão nos dois grupos

Dos 500 participantes, 249 receberam 1HP e 251 receberam 3HP. A taxa de conclusão — definida como ingestão de pelo menos 90% das doses previstas, confirmada por autorrelato, contagem de comprimidos e testes farmacológicos — foi de 89,6% no grupo 1HP;  84,1% no grupo 3HP.

A diferença ajustada foi de 5,2 pontos percentuais, sem significância estatística (p=0,10).

“Como já demonstrado em décadas de pesquisa, quanto menor a duração do tratamento, maior tende a ser a adesão”, afirma o infectologista Richard E. Chaisson, da Johns Hopkins University School of Medicine, coautor do estudo. “Mesmo com mais eventos adversos leves, o esquema de um mês manteve excelente taxa de conclusão.”

Um dado relevante foi o uso de monitoramento farmacológico — análise de sangue e urina para detectar a presença dos medicamentos —, recurso ainda pouco empregado em estudos de tuberculose. Quando critérios mais rigorosos foram aplicados, a diferença de adesão entre os grupos aumentou.

Segurança: diferença discreta e majoritariamente leve

Em relação à segurança, eventos adversos de grau 2 ou superior — como hepatotoxicidade, rash cutâneo, neuropatia ou náuseas — ocorreram em 16,1% dos participantes do 1HP; 10,4% dos participantes do 3HP.

A diferença ajustada caiu para 3,4 pontos percentuais e perdeu significância estatística. A maior parte das reações foi classificada como leve ou moderada.

Os eventos mais comuns foram alterações hepáticas (5,2% no 1HP e 4% no 3HP) e erupções cutâneas (4,8% no 1HP e nenhum caso no 3HP). Eventos graves foram raros, e nenhum caso de tuberculose ativa foi registrado durante os seis meses de acompanhamento.

“O 1HP mostrou-se seguro também em pessoas sem HIV, grupo no qual ainda havia incertezas”, destacam os autores no artigo.

Durante décadas, o regime padrão de prevenção foi a isoniazida por até nove meses — eficaz, mas com adesão historicamente baixa. Estudos anteriores já haviam mostrado que tanto o 3HP quanto o 1HP são não inferiores ao esquema tradicional em termos de eficácia.

O 1HP, porém, havia sido estudado sobretudo em pessoas vivendo com HIV. O receio de hepatotoxicidade em populações diferentes levou pesquisadores a defender um ensaio específico para indivíduos sem HIV — lacuna agora preenchida pelo Ultra-Curto.

Especialistas apontam que esquemas mais curtos podem facilitar a expansão do tratamento preventivo no Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo entre contatos domiciliares de casos confirmados — grupo responsável por parcela importante das transmissões.

Embora o custo do 1HP seja superior ao do 3HP, devido à maior dose total de rifapentina, análises de custo-efetividade estão em andamento.

Escolha informada

O estudo não foi desenhado para comparar a eficácia na prevenção de casos futuros — ambos os regimes já demonstraram eficácia em pesquisas anteriores —, mas fornece dados robustos sobre adesão e segurança.

“Agora temos evidências para permitir que médicos e gestores escolham entre duas boas opções”, afirma Chaisson. “Em saúde pública, oferecer alternativas pode ser decisivo para ampliar o acesso.”


Num país que ainda registra dezenas de milhares de casos anuais de tuberculose, reduzir a progressão da infecção latente para a forma ativa pode representar um divisor de águas. Se a meta global é eliminar a doença como problema de saúde pública até 2035, a batalha começa antes mesmo do primeiro sintoma.


Referência
Durovni B, Cordeiro-Santos M, Cavalcante SC, Spener-Gomes R, Garcia J, Cohn S, et al. (2026) Aceitabilidade e segurança de um versus três meses de rifapentina e isoniazida para prevenção da tuberculose em pessoas expostas em casa ou no local de trabalho no Brasil: O ensaio clínico randomizado Ultra-Curto. PLoS Med 23(2): e1004758. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004758

 

.
.

Leia mais a seguir