Saúde

Estudo indica proteção limitada da PCV13 contra sorotipo 3 do pneumococo e reforça debate sobre vacinação de adultos
Um ensaio clínico conduzido no Reino Unido lança nova luz sobre um dos principais desafios da vacinação contra o pneumococo: a persistência do sorotipo 3 (Spn3), ainda hoje responsável por parcela expressiva de pneumonias e doenças invasivas...
Por Laercio Damasceno - 13/02/2026


Funcionários trabalhando nas instalações de coleta de PCV (vesículas revestidas de colágeno) do Serum Institute of India. Foto cedida pelo Serum Institute of India, Pvt. Ltd.


Publicado nesta sexta-feira (13), na revista The Lancet Microbe, o estudo PREVENTING PNEUMO 2 avaliou o impacto da vacina pneumocócica conjugada 13-valente (PCV13) e da vacina polissacarídica 23-valente (PPV23) sobre a colonização nasal pelo Streptococcus pneumoniae — etapa crucial para a transmissão e para o desenvolvimento de doença.

A pesquisa foi conduzida pelo Liverpool Vaccine Group, da Liverpool School of Tropical Medicine, com colaboração da University of Oxford e financiamento da Pfizer.

Modelo experimental controlado

O ensaio, randomizado e duplo-cego, recrutou 473 voluntários saudáveis de 18 a 50 anos em Liverpool. Ao todo, 407 participantes foram desafiados experimentalmente com o sorotipo 3 um mês após a vacinação, e 243 passaram por novo desafio com o sorotipo 6B (Spn6B) seis meses depois.

O desfecho primário foi a aquisição de colonização nasal detectada por cultura microbiológica até 23 dias após a inoculação.

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Streptococcus pneumoniae under microscope: microscopy of Gram ...

Os resultados mostram que, considerando os dois subgrupos genéticos do sorotipo 3 combinados, a PCV13 reduziu o risco de colonização em 16% em comparação ao placebo (risco relativo de 0,84; IC 95% 0,70–1,01; p=0,068). A diferença, porém, não atingiu significância estatística.

Ao analisar separadamente os subtipos (clados), o cenário se mostrou mais complexo:

Para o clado II, a PCV13 reduziu o risco de colonização em 29% (RR 0,71; IC 95% 0,54–0,91; p=0,009).

Para o clado Ic, não houve proteção detectável (RR 1,01; p=0,95).

A PPV23 não demonstrou proteção significativa contra o clado Ic (RR 0,84; p=0,22).

“Observamos proteção parcial e dependente do clado contra o sorotipo 3, o que ajuda a explicar por que ele continua circulando mesmo após anos de vacinação infantil”, afirmou a professora Daniela Ferreira, da Universidade de Oxford, uma das autoras principais do estudo.

Contraste com o sorotipo 6B

O cenário foi diferente para o sorotipo 6B, historicamente controlado pelos programas de imunização. Seis meses após a vacinação, a PCV13 reduziu em 60% o risco de colonização (RR 0,40; IC 95% 0,22–0,69; p=0,002). Já a PPV23 novamente não apresentou efeito significativo.

Segundo os pesquisadores, o resultado ajuda a explicar por que o sorotipo 6B praticamente desapareceu em diversos países após a introdução da PCV13, enquanto o sorotipo 3 persiste.

“A proteção sustentada contra o 6B mostra que a vacina é capaz de induzir tanto proteção direta quanto indireta”, disse Konstantinos Liatsikos, primeiro autor do trabalho. “No caso do sorotipo 3, a proteção contra colonização é limitada, o que reduz o efeito de imunidade coletiva.”

Desde a introdução das vacinas conjugadas, no início dos anos 2000, houve queda expressiva das doenças pneumocócicas invasivas. Estudos epidemiológicos já haviam demonstrado proteção direta da PCV13 contra doença causada pelo sorotipo 3, inclusive em adultos. No entanto, a persistência da circulação bacteriana levantava dúvidas sobre o impacto na transmissão.

Figura.  Desenho do ensaio e amostras coletadas.
O estudo PREVENTING PNEUMO 2 teve duas partes. Na Parte A, os participantes foram vacinados e, em seguida, submetidos a um desafio com Spn3 um mês após a administração da vacina. Na Parte B, os participantes foram convocados seis meses após a vacinação para um desafio com Spn6B. (A) Cronograma e amostras coletadas em momentos específicos. (B) Desenho do estudo e randomização. Figura adaptada de Liatsikos et al. 19Utilizando o BioRender. S. pneumoniae = Streptococcus pneumoniae. Spn3 = sorotipo 3 de S. pneumoniae . Spn6B = sorotipo 6B de S. pneumoniae.

O novo ensaio é o primeiro randomizado com poder estatístico adequado para avaliar especificamente a colonização pelo sorotipo 3 em modelo experimental humano.

Para os autores, os dados reforçam a hipótese de que o controle desse sorotipo pode depender mais da vacinação direta de grupos de risco do que apenas da imunidade coletiva gerada pela vacinação infantil.

“Se a vacina não impede de forma robusta a colonização, o efeito indireto será necessariamente limitado”, afirmou Ferreira. “Isso tem implicações importantes para políticas públicas.”

Repercussões para políticas de saúde

A manutenção do sorotipo 3 como causa frequente de pneumonia e doença invasiva — inclusive no Reino Unido — tem impacto direto sobre idosos e pessoas com comorbidades.

Os autores defendem o desenvolvimento de vacinas de nova geração e análises imunológicas adicionais para otimizar a proteção contra esse sorotipo específico. Também sugerem que estratégias de imunização de adultos em grupos vulneráveis podem ser essenciais.

Do ponto de vista de segurança, o ensaio não registrou eventos adversos graves ou potencialmente fatais. Sintomas leves a moderados, como dor de garganta após o desafio experimental, foram comuns, mas autolimitados.

Em um cenário global em que o pneumococo ainda responde por centenas de milhares de mortes anuais, sobretudo por pneumonia, os resultados acrescentam uma peça relevante ao quebra-cabeça da proteção vacinal — indicando que nem todos os sorotipos respondem da mesma forma à mesma estratégia.

A mensagem central, segundo os pesquisadores, é clara: enquanto a PCV13 mostrou eficácia duradoura contra o sorotipo 6B, o enfrentamento do sorotipo 3 exigirá abordagens mais direcionadas e possivelmente novas formulações vacinais.


Referência
Efeito da vacina pneumocócica conjugada e da vacina pneumocócica polissacarídica na colonização nasofaríngea após infecção humana desafiada com os sorotipos 3 e 6B (PREVENTING PNEUMO 2): um ensaio clínico de fase 4, duplo-cego, randomizado e controlado. Liatsikos, Konstantinos et al. The Lancet Microbe. DOI: 10.1016/j.lanmic.2025.101267Link externo

 

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