Saúde

Estudo aponta alternativa menos tóxica para idosos frágeis com câncer de cabeça e pescoço
O estudo ELAN-RT, conduzido em 30 centros da França e de Mônaco, indica que um esquema hipofracionado com pausa intermediária — mais curto e potencialmente menos agressivo — pode alcançar resultados semelhantes de controle tumoral em seis meses...
Por Laercio Damasceno - 16/02/2026


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Um regime mais curto de radioterapia, frequentemente adotado na prática clínica para poupar pacientes muito idosos do desgaste do tratamento prolongado, mostrou eficácia semelhante ao padrão tradicional no controle inicial do tumor — mas não trouxe vantagem em sobrevida global.

Os dados são do estudo ELAN-RT, ensaio clínico randomizado publicado nesta segunda-feira (16), na revista The Lancet Healthy Longevity, que comparou dois esquemas de radioterapia em pacientes frágeis com 70 anos ou mais e câncer de cabeça e pescoço localmente avançado.

Conduzido em 30 centros da França e de Mônaco, sob coordenação do grupo cooperativo Groupe d’Oncologie Radiothérapie Tête et Cou (GORTEC), o estudo incluiu 202 pacientes, com idade mediana de 82 anos — 64% deles com 80 anos ou mais.

Regime reduzido não foi inferior na resposta em seis meses

O padrão atual para doença não operável é a radioterapia fracionada convencional (70 Gy em 35 sessões ao longo de sete semanas). No entanto, o alto índice de toxicidade e a necessidade de deslocamentos diários por quase dois meses levam muitos médicos a optar por esquemas abreviados.

No estudo, metade dos pacientes recebeu o esquema tradicional; a outra metade foi tratada com radioterapia hipofracionada em curso dividido (55 Gy em 20 sessões, distribuídas em dois blocos de duas semanas, separados por intervalo de duas semanas).

O desfecho principal foi a proporção de pacientes vivos e com resposta locorregional completa seis meses após o término do tratamento.

Figura.  Cronograma de radioterapia de acordo com o grupo de tratamento. HNSCC = carcinoma de células escamosas da cabeça e pescoço. HSC-RT = radioterapia hipofracionada em curso dividido. PTV = volume alvo de planejamento. RT = radioterapia. SF-RT = radioterapia fracionada padrão.

O resultado mostrou 35% de resposta completa no grupo hipofracionado contra 33% no grupo convencional — diferença de +2 pontos percentuais (IC 95%: –11 a 15), dentro da margem de não inferioridade previamente estabelecida.

“Demonstramos que é possível conduzir um ensaio randomizado nessa população historicamente excluída dos grandes estudos de fase 3”

Oncologista Cécile Ortholan, do Centre Hospitalier Princesse Grace, em Mônaco, autora principal do trabalho.

Sobrevida global foi numericamente menor no regime abreviado

Apesar da equivalência na resposta inicial, a sobrevida global mediana foi inferior no grupo hipofracionado: 13 meses no regime abreviado; 18,9 meses no tratamento convencional

O risco relativo de morte foi 32% maior no grupo abreviado (HR 1,32; IC 95% 0,97–1,81), embora a diferença não tenha alcançado significância estatística.

Em quatro anos, 18,9% dos pacientes do regime abreviado estavam vivos, contra 26,2% no grupo padrão.

“Diante dos resultados de sobrevida, o esquema hipofracionado deve ser reservado a pacientes considerados inaptos para o regime convencional após avaliação geriátrica estruturada”, destacam os autores.

Toxicidade foi menor, especialmente na pele

A toxicidade aguda grave (grau 3–5) ocorreu em 36% dos pacientes no grupo abreviado e 47% no grupo convencional.

A diferença mais expressiva apareceu na radiodermatite (inflamação cutânea): 12% no regime abreviado; 31% no regime convencional (p=0,0017)

Também houve tendência a menor necessidade de sonda alimentar no grupo hipofracionado (47% vs. 60%).

Para uma população com média de 2,3 critérios de fragilidade geriátrica e alta carga de comorbidades, a redução de deslocamentos e de efeitos adversos tem impacto direto na autonomia e na qualidade de vida.

População envelhece e incidência deve crescer 64%

Segundo dados do GLOBOCAN citados no estudo, 38% dos novos casos de câncer de cavidade oral, orofaringe, hipofaringe ou laringe na União Europeia já ocorrem em pessoas com 70 anos ou mais.

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Na França, projeta-se aumento de 64% na incidência desses tumores nessa faixa etária nas próximas duas décadas.

Apesar disso, idosos continuam sub-representados em ensaios clínicos oncológicos, especialmente os considerados frágeis. Até agora, não havia estudos de fase 3 que comparassem diretamente esquemas de radioterapia com intenção curativa nesse perfil de pacientes.

O estudo também escancarou a gravidade da doença nesse grupo etário. Ao final do seguimento mediano de 56 meses 83% dos pacientes apresentaram progressão ou morte; A maioria das mortes foi relacionada ao câncer; Mesmo assim, os pesquisadores identificaram um subgrupo sem fatores prognósticos adversos que apresentou sobrevida prolongada — sugerindo que parte dos idosos frágeis pode se beneficiar de tratamento padrão completo.

Implicações para o SUS e para políticas públicas

O trabalho reforça a necessidade de avaliação geriátrica sistemática antes da definição terapêutica. A decisão não deve se basear apenas na idade cronológica, mas em funcionalidade, comorbidades e suporte social.

Em sistemas de saúde com sobrecarga assistencial e dificuldade de transporte para pacientes idosos — realidade comum no Brasil — regimes abreviados podem representar alternativa pragmática para pacientes que não tolerariam sete semanas consecutivas de tratamento.

Ainda assim, os autores alertam: “O regime hipofracionado não deve substituir o padrão em pacientes aptos.”

Para os pesquisadores, o próximo passo é identificar marcadores que permitam distinguir quais idosos frágeis têm bom prognóstico e poderiam receber terapias equivalentes às de pacientes mais jovens — e quais necessitam estratégias ainda mais adaptadas, como radioterapia estereotáxica.

O envelhecimento populacional torna essa discussão urgente. A oncogeriatria, antes periférica, passa a ocupar o centro da agenda oncológica global.


Referência
Radioterapia hipofracionada em regime fracionado versus radioterapia padrão em pacientes idosos frágeis com carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço (ensaio ELAN-RT): um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, aberto e de não inferioridade. The Lancet Longevidade Saudável. Publicado em: 16 de fevereiro de 2026. O Grupo ELAN, que inclui a Gustave Roussy, a Unicancer GERICO e os grupos H&N, e a GORTEC. DOI: 10.1016/j.lanhl.2025.100812

 

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