Poluição do ar eleva risco de Alzheimer, e efeito é direto, aponta estudo com 27 milhões de idosos nos EUA
Análise com base em dados do Medicare indica que material particulado fino aumenta em 8,5% o risco da doença; hipertensão, depressão e AVC explicam parcela mínima da associação

Domínio público
A exposição prolongada à poluição do ar está associada a um aumento significativo no risco de desenvolver doença de Alzheimer — e esse efeito ocorre majoritariamente por vias diretas, não mediadas por doenças como hipertensão, depressão ou AVC. A conclusão é de um estudo publicado nesta terça-feira (17) na revista PLOS Medicine, que acompanhou 27,8 milhões de idosos norte-americanos ao longo de quase duas décadas.
Conduzida por pesquisadores da Emory University, a investigação analisou dados de beneficiários do sistema público de saúde dos EUA (Medicare) entre 2000 e 2018. No período, cerca de 3 milhões de novos casos de Alzheimer foram identificados — o equivalente a 10,8% da coorte estudada.
Segundo os autores, cada aumento equivalente ao intervalo interquartil (3,8 microgramas por metro cúbico) na média móvel de cinco anos de exposição ao material particulado fino (PM2.5) esteve associado a um aumento de 8,5% no risco de Alzheimer (razão de risco de 1,085; IC 95%: 1,078–1,091).
“O que observamos é que a associação entre PM2.5 e Alzheimer persiste mesmo após o controle rigoroso de fatores clínicos e socioeconômicos”, afirmou a epidemiologista Yanling Deng, da Escola de Saúde Pública Rollins, da Emory, autora principal do trabalho. “Isso sugere que a poluição atua principalmente por mecanismos diretos no cérebro.”
Comorbidades explicam pouco da associação
Hipertensão, AVC e depressão são reconhecidos fatores de risco tanto para demência quanto para doenças cardiovasculares — também associadas à poluição atmosférica. Por isso, a equipe investigou se essas condições funcionariam como mediadoras (quando a poluição leva à comorbidade, que por sua vez leva ao Alzheimer) ou como modificadoras de efeito (quando a poluição é mais danosa em quem já tem a doença).
Os resultados mostram que o papel mediador foi pequeno. Apenas 1,6% da associação entre PM2.5 e Alzheimer foi explicada por hipertensão; 2,1% por depressão; e 4,2% por AVC.
“Embora essas condições estejam associadas tanto à poluição quanto ao Alzheimer, elas não explicam a maior parte do efeito observado”, disse Kyle Steenland, coautor do estudo e professor de saúde ambiental na Emory. “A maior fração parece decorrer de vias biológicas diretas, como inflamação neural e estresse oxidativo.”
Maior vulnerabilidade após AVC
Na análise estratificada, o efeito da poluição foi discretamente mais intenso entre indivíduos que já haviam sofrido AVC. Nesse grupo, o risco associado ao aumento do PM2.5 chegou a 10,5% (HR 1,105; IC 95%: 1,096–1,114), diferença estatisticamente significativa.
Para os pesquisadores, o achado reforça a hipótese de que danos vasculares prévios podem tornar o cérebro mais suscetível aos efeitos tóxicos das partículas inaladas. “O comprometimento da barreira hematoencefálica após um AVC pode facilitar a entrada de mediadores inflamatórios no sistema nervoso central”, observam os autores.
Contexto global
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência. Em 2019, mais de 5 milhões de pessoas viviam com o diagnóstico nos Estados Unidos, e cerca de 57 milhões em todo o mundo. A expectativa é de que esse número dobre no país e triplique globalmente até 2050, impulsionado pelo envelhecimento populacional.
Sem terapias capazes de modificar substancialmente o curso da doença, cresce a ênfase na identificação de fatores de risco modificáveis. A poluição do ar — especialmente o PM2.5, partículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros — tem sido apontada como um deles.

Comparação de tamanhos de partículas PM (poluição por partículas)
No estudo, a concentração média de PM2.5 foi de 10,1 µg/m³ no período analisado. A exposição foi estimada por modelos espaciais de alta resolução (1 km²), com coeficiente de determinação médio de 0,89, a partir de dados de satélite, estações de monitoramento e variáveis meteorológicas.
Impacto e políticas públicas
Para os autores, os resultados têm implicações diretas para políticas ambientais e estratégias de prevenção de demência. “Melhorar a qualidade do ar pode ser uma intervenção relevante na redução do risco populacional de Alzheimer, especialmente entre idosos com vulnerabilidades clínicas”, afirmam.
Especialistas independentes destacam que, embora o aumento de risco individual seja modesto, o impacto coletivo pode ser expressivo. “Pequenos incrementos de risco, quando aplicados a milhões de pessoas expostas cronicamente, resultam em um número substancial de casos adicionais”, avaliam.
O estudo reconhece limitações, como o uso de registros administrativos para diagnóstico e a estimativa de exposição com base no CEP de residência. Ainda assim, o tamanho da amostra e o período de acompanhamento conferem robustez estatística aos achados.
Em um cenário de envelhecimento acelerado e urbanização crescente, os dados reforçam que a qualidade do ar não é apenas uma questão ambiental — mas também neurológica e de saúde pública.
Referência
Deng Y, Liu Y, Hao H, Xu K, Zhu Q, Li H, et al. (2026) O papel das comorbidades nas associações entre poluição do ar e doença de Alzheimer: um estudo de coorte nacional na população americana do Medicare. PLoS Med 23(2): e1004912. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004912