Pandemia ampliou desigualdades e atrasou tratamento de câncer colorretal no Brasil, aponta estudo
A pesquisa, liderada por Luís Ricardo Santos de Melo, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), analisou 118.720 registros de tratamento entre 2018 e 2022, extraídos do Painel de Oncologia do SUS (DATASUS).

Domínio público
Um estudo nacional publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas concluiu que a pandemia de Covid-19 provocou uma queda expressiva no acesso oportuno ao tratamento do câncer colorretal no Brasil, agravando desigualdades regionais históricas e afetando principalmente cirurgias e quimioterapia.
A pesquisa, liderada por Luís Ricardo Santos de Melo, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), analisou 118.720 registros de tratamento entre 2018 e 2022, extraídos do Painel de Oncologia do SUS (DATASUS). O trabalho combinou análise espacial e séries temporais interrompidas para medir o impacto da pandemia sobre o início do tratamento após o diagnóstico.
Queda de até 18% no início rápido do tratamento
O principal indicador utilizado foi a taxa padronizada por idade de acesso ao tratamento (ASTAR), que mede a proporção de pacientes que iniciaram terapia em intervalos de até 30 dias, entre 31 e 60 dias e acima de 60 dias após o diagnóstico.
Em 2020, primeiro ano da pandemia, houve redução de 18% no início do tratamento em até 30 dias para cirurgia, quimioterapia e quimiorradioterapia, em comparação com o esperado pelas tendências anteriores (ITAR = 0,82; IC 95%: 0,68–0,96). Considerando todas as modalidades em conjunto, a queda foi de 12%.
“Observamos uma ruptura imediata no padrão de acesso já em abril de 2020, com redução significativa no início precoce do tratamento”, afirmam os autores no artigo. Segundo a análise de séries temporais, houve diminuição absoluta de 3,5% no acesso combinado aos tratamentos iniciados em até 30 dias.
Por outro lado, a radioterapia apresentou aumento de 43% nos casos iniciados dentro de 30 dias (ITAR = 1,43; IC 95%: 1,27–1,58). Para os pesquisadores, o dado não indica melhora estrutural, mas sim uma adaptação emergencial diante da restrição de leitos cirúrgicos e de UTI.
“A radioterapia é menos dependente de internação hospitalar e foi usada como alternativa em um contexto de capacidade cirúrgica reduzida”, descreve o estudo.

Distribuição espacial da variação percentual da taxa de acesso ao tratamento de câncer colorretal padronizada por idade nas Regiões de Saúde do Brasil em 2020.
Norte e Centro-Oeste foram os mais afetados
A análise espacial revelou que as maiores quedas no acesso ocorreram nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em algumas regiões de saúde do Norte, as reduções superaram 40%, especialmente para quimioterapia iniciada em até 30 dias.
Já Sul e Sudeste apresentaram maior resiliência e, em determinados territórios, até crescimento no acesso cirúrgico precoce. Segundo os autores, essa diferença reflete desigualdades históricas na distribuição de infraestrutura oncológica.
“O princípio da regionalização do SUS mostrou fragilidades sob estresse sistêmico. Regiões com menor capacidade instalada tiveram maior dificuldade de absorver o choque da pandemia”, afirmam.
Entre os 118.720 pacientes analisados, 43,3% iniciaram tratamento em até 30 dias, enquanto 38,2% esperaram mais de 60 dias — percentual que chegou a 48,4% no Norte.
Sistema já era desigual antes da crise
O câncer colorretal é o terceiro mais incidente no mundo e o segundo em mortalidade. No Brasil, a incidência estimada é de 21,1 casos por 100 mil habitantes, com cerca de 20.245 mortes anuais.
Desde 2012, a Lei nº 12.732 determina que pacientes com câncer devem iniciar tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. O estudo indica que a pandemia comprometeu ainda mais o cumprimento dessa meta, sobretudo nas regiões mais vulneráveis.
Além disso, os autores destacam que o Brasil não possui um programa nacional organizado de rastreamento para câncer colorretal no SUS, o que pode ter ampliado atrasos diagnósticos e contribuído para o início tardio do tratamento.

Análise de séries temporais interrompidas da taxa de acesso ao tratamento padronizada por idade para câncer colorretal no Brasil.
Impactos persistiram até 2022
Apesar de alguma recuperação após o pico da crise sanitária, as taxas de acesso permaneceram abaixo das tendências pré-pandemia até 2022. Segundo os pesquisadores, isso sugere efeitos prolongados sobre a organização do cuidado oncológico.
“O estudo evidencia a vulnerabilidade das redes de atenção oncológica diante de emergências sanitárias e reforça a necessidade de estratégias coordenadas e territorializadas para proteger o acesso oportuno ao tratamento”, concluem.
Sem financiamento externo, a pesquisa utilizou exclusivamente bases públicas do SUS e dados demográficos do IBGE. Para os autores, o modelo analítico pode servir de referência para outros países de renda média que enfrentam desafios semelhantes.
O diagnóstico é claro: a pandemia não apenas interrompeu fluxos assistenciais, mas aprofundou desigualdades estruturais que já marcavam o tratamento do câncer no país.
Referência
O impacto inicial da pandemia de COVID-19 no acesso ao tratamento do câncer colorretal no Brasil: uma análise espacial e de séries temporais interrompidas. The Lancet Saúde Regional – Américas. Publicado em: 18 de fevereiro de 2026. Luís Ricardo Santos de Melo, Júlio dos Santos Pereira, Matheus Santos Melo, Carlos Dornels Freire de Souza, Caíque Jordan Nunes Ribeiro, Carlos Anselmo Limae outros.