Saúde

Estudo revela que plaquetas atuam como 'sensores' do sistema imune e podem antecipar complicações após transplante
Pesquisa publicada na revista The Lancet aponta que células do sangue tradicionalmente ligadas à coagulação também monitoram o estado imunológico; modelo com aprendizado de máquina amplia potencial diagnóstico
Por Laercio Damasceno - 19/02/2026


Domínio público


Um estudo internacional publicado nesta quinta-feira (19), na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, sugere que as plaquetas — conhecidas sobretudo por seu papel na coagulação — atuam também como sensores precisos do sistema imunológico. A pesquisa mostra que o “perfil molecular” dessas células reflete, em tempo real, alterações na imunidade, inclusive após transplante de medula óssea e em doenças autoimunes.

Coordenado por pesquisadores do Instituto de Hematologia e Hospital de Doenças do Sangue da Academia Chinesa de Ciências Médicas, em Tianjin, o trabalho analisou o transcriptoma (conjunto de RNAs expressos) de plaquetas em diferentes contextos clínicos. Entre eles, pacientes submetidos a transplante de células-tronco hematopoéticas (HSCT), complicações como doença do enxerto contra o hospedeiro (aGVHD), infecção por citomegalovírus (CMV) e enfermidades autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico (SLE) e colite ulcerativa (UC).

“Demonstramos que o transcriptoma das plaquetas acompanha de forma dinâmica a reconstrução do sistema imune após o transplante”, afirma o hematologista Erlie Jiang, um dos coautores. “Essas células não apenas participam da resposta imune, mas também registram as mudanças que ocorrem no organismo.”

Figura.  Alterações dinâmicas nas características moleculares das plaquetas reconstituídas após TCTH . (A) Esquema do desenho do estudo para análise das características imunológicas das plaquetas (PLT) em diferentes estágios pós-TCTH. Plaquetas do sangue periférico foram coletadas de 14 doadores saudáveis ??(DS), 18 pacientes com reconstituição normal de curto prazo (RN) e 16 pacientes com reconstituição normal de longo prazo (NL). O sequenciamento de RNA foi realizado para analisar as alterações nas características moleculares relacionadas à imunidade plaquetária. (B) Gráfico de barras mostrando a proporção de neutrófilos (NEUT%), monócitos (MONO%) e linfócitos (LYMPH%) nos pacientes com RN e NL no momento da coleta...

Da imunidade inata à adaptativa

O transplante de células-tronco hematopoéticas foi usado como modelo biológico por envolver uma transição bem definida da imunidade inata — mediada por neutrófilos e monócitos — para a imunidade adaptativa, que depende de linfócitos T e B.

Nos primeiros 20 a 60 dias após o transplante, quando predominam células da imunidade inata, as plaquetas apresentaram maior expressão de genes associados a neutrófilos e monócitos, como DEFA3 e CAMP. Já após 180 dias, quando a imunidade adaptativa está restabelecida, o padrão mudou: genes ligados a linfócitos T e B, como IL7R e CD79A, tornaram-se mais expressos.

“A assinatura molecular das plaquetas espelha a trajetória de reconstituição imunológica do paciente”, explica Jiaxi Zhou, também autor correspondente. “Elas passam de um perfil dominado por características inatas para outro mais adaptativo, à medida que o sistema imune se recompõe.”

A análise incluiu 14 doadores saudáveis, 18 pacientes em fase inicial pós-transplante e 16 em fase tardia. Técnicas de sequenciamento de RNA e análise estatística mostraram separação clara entre os grupos, com retorno progressivo ao padrão semelhante ao de indivíduos saudáveis no longo prazo.

Troca direta de RNA

Para entender o mecanismo por trás desse “sensor imunológico”, os pesquisadores realizaram experimentos de co-incubação entre plaquetas e células imunes. O resultado indica que neutrófilos e monócitos transferem diretamente RNA para as plaquetas.

“Observamos que até 40% dos genes relacionados a neutrófilos nas plaquetas estavam positivamente correlacionados com a contagem dessas células no sangue”, diz Hongtao Wang, outro autor correspondente. “Isso sugere que a troca de material genético é um dos principais mecanismos de reprogramação das plaquetas.”

A transferência de RNA foi confirmada por citometria de fluxo, imunofluorescência e sequenciamento. Após a co-incubação, genes ligados à ativação e migração de neutrófilos estavam significativamente aumentados nas plaquetas.

Segundo os autores, o fenômeno é bidirecional: as plaquetas também podem transferir RNA para células imunes, reforçando a ideia de comunicação ativa entre os componentes do sangue.

Potencial diagnóstico

Além de mapear a reconstrução imunológica após transplante, o estudo avaliou se as plaquetas poderiam identificar complicações clínicas. Em casos de doença do enxerto contra o hospedeiro aguda e de reativação de citomegalovírus, as alterações no transcriptoma plaquetário foram capazes de distinguir pacientes afetados daqueles sem complicações.

O mesmo padrão foi observado em doenças autoimunes, como lúpus e colite ulcerativa, nas quais as plaquetas captaram alterações inflamatórias específicas.

Modelos de aprendizado de máquina baseados em assinaturas gênicas das plaquetas aumentaram a acurácia diagnóstica, com curvas ROC indicando elevado poder discriminatório entre pacientes e controles.

“Por serem facilmente acessíveis e obtidas por exame de sangue rotineiro, as plaquetas representam uma ferramenta minimamente invasiva para monitorar o estado imune”, afirma Jiang. “Isso abre perspectivas para diagnóstico precoce, acompanhamento terapêutico e avaliação prognóstica.”


Ampliação do papel biológico

Tradicionalmente descritas como fragmentos celulares anucleados especializados na hemostasia, as plaquetas já haviam sido associadas à regulação imune. O novo estudo amplia esse papel, propondo que elas atuem também como dispositivos de vigilância imunológica.

Os autores destacam que os financiadores — entre eles a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China e o Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da China — não participaram do desenho, análise ou redação do estudo.

Para especialistas, a descoberta reforça a tendência de utilizar dados moleculares circulantes como biomarcadores de precisão. Se confirmados em populações mais amplas e diversas, os achados podem contribuir para o desenvolvimento de exames capazes de detectar desregulações imunes antes mesmo da manifestação clínica evidente.

Em um cenário de crescente demanda por medicina personalizada, as plaquetas — antes vistas apenas como agentes da coagulação — podem ganhar protagonismo como sentinelas silenciosas do sistema imunológico.


Referência
Plaquetas como sensores imunológicos: monitorando a dinâmica imunológica e diagnosticando estados patológicos em diversas doenças. eBioMedicinaVol. 125 106174 Publicado em: 19 de fevereiro de 2026. Lin ZhengDan Feng, Yuting Wu, Wei Liang, Juan Chen, Shijun Nie outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106174Link externo

 

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