Estudo projeta explosão de ansiedade e depressão com aquecimento de até 6 °C nos EUA
Pesquisa publicada na The Lancet Planetary Health estima até 1,8 bilhão de dias adicionais de ansiedade por ano; impacto econômico pode chegar a US$ 57 bilhões anuais

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Um aumento de até 6 °C na temperatura média dos Estados Unidos pode elevar em até 23% os dias anuais de sofrimento mental autorrelatado, com impacto particularmente severo entre populações de baixa renda e na região dos Apalaches. A projeção consta de estudo publicado nesta sexta-feira (20), na revista The Lancet Planetary Health, financiado pela US Environmental Protection Agency (EPA).
A pesquisa estima que o aquecimento entre 1 °C e 6 °C no território continental norte-americano resultaria em 401 milhões a 1,8 bilhão de dias adicionais de ansiedade por ano e 329 milhões a 1,4 bilhão de dias extras de depressão, o que representa um aumento de 5% a 23% em relação à linha de base de 2005.
Em termos individuais, isso significaria dois a sete dias adicionais de ansiedade por pessoa por ano e um a seis dias extras de depressão, com números ainda mais elevados entre pessoas de baixa renda.
“Nossos resultados mostram que os impactos na saúde mental associados ao aquecimento podem ser substanciais e economicamente relevantes”
Caitlin A. Gould, da EPA, autora correspondente do estudo
Metodologia combina clima, saúde e economia
O trabalho utilizou dados do Behavioral Risk Factor Surveillance System (BRFSS), sistema nacional de vigilância em saúde dos EUA, combinados a projeções climáticas de cinco modelos do CMIP6.
Os pesquisadores analisaram exposições agudas — variações de temperatura e precipitação no último mês — e também efeitos crônicos de elevação sustentada da temperatura média máxima, especialmente em áreas urbanas.
A equipe aplicou modelos epidemiológicos previamente validados para estimar a relação entre variações térmicas e dias de sofrimento mental autorrelatado. Em seguida, monetizou os impactos com base na perda de qualidade de vida (QALY), utilizando como referência o valor estatístico da vida adotado pela EPA.
Segundo o estudo, sob as condições demográficas atuais (2022), o custo anual estimado dos dias adicionais de ansiedade varia de US$ 13 bilhões a US$ 57 bilhões. Para depressão, o impacto vai de US$ 11 bilhões a US$ 47 bilhões (valores de 2023, não descontados).
Quando projetado para 2095, com crescimento populacional e aumento de renda, o impacto econômico pode ser quase 90% maior.
Desigualdade social amplia vulnerabilidade
Os dados mostram que o aquecimento atinge de forma desproporcional populações vulneráveis.
Entre indivíduos de baixa renda, o estudo projeta quatro a 15 dias adicionais de ansiedade por ano e três a 14 dias extras de depressão, números significativamente superiores aos observados em grupos de maior renda.
“Encontramos maior sensibilidade à temperatura nas populações de baixa renda, refletindo tanto maior vulnerabilidade basal quanto menor capacidade adaptativa”, destacam os autores.
As mulheres também apresentaram maior sensibilidade aos aumentos de temperatura em comparação aos homens.
Apalaches concentram maior impacto
A região dos Apalaches desponta como a área mais afetada. Segundo o estudo, a combinação de maior incidência basal de sofrimento mental e projeções de aquecimento mais intenso faz com que o impacto relativo seja mais elevado ali do que em outras partes do país.

Mapa de calor extremo nos USA - Imagem da ABC
A região já apresenta taxas de pobreza acima da média nacional e menor acesso a serviços de saúde mental, fatores que podem agravar o cenário.
Temperatura, não chuva
Os pesquisadores identificaram que as mudanças na precipitação tiveram efeito mínimo sobre os resultados. O principal motor do aumento nos sintomas foi a elevação da temperatura, sobretudo em exposições de curto prazo.
“O impacto projetado é amplamente impulsionado pelo calor”, afirmam os autores.

Domínio público
Limitações e lacunas
O estudo reconhece limitações, como a dependência de dados autorrelatados e a ausência de projeções sobre adaptações futuras — como ampliação do uso de ar-condicionado ou políticas públicas de mitigação.
Além disso, a análise não inclui Alasca, Havaí ou territórios norte-americanos, e não incorpora efeitos indiretos de eventos extremos, como incêndios florestais ou furacões, o que pode subestimar os impactos totais.
Implicações para políticas públicas
Os autores defendem que os resultados reforçam a necessidade de investimentos em sistemas de saúde mental, sobretudo em regiões com menor capacidade adaptativa.
“O planejamento climático precisa incorporar a saúde mental como componente central”, afirmam os pesquisadores.
Num país que já enfrenta uma crise de saúde mental, os dados sugerem que o aquecimento global pode se tornar um fator adicional de pressão sobre indivíduos, famílias e sistemas públicos — ampliando desigualdades e custos sociais nas próximas décadas.
Referência
Projetando e avaliando os impactos das mudanças climáticas sobre a ansiedade e a depressão nos Estados Unidos continentais: uma abordagem de função de dano. A revista The Lancet sobre saúde planetária. Publicado em: 20 de fevereiro de 2026 . Ana Belova, Kate Munson, Durban Keeler, Maria Sluder, André Kiesel, Marcus C Sarofime e outros. DOI: 10.1016/j.lanplh.2025.101426Link externo