Pesquisa alemã mostra que a progesterona — e não o estrogênio — é o principal motor de mudanças estruturais ao longo do ciclo menstrual

Domínio público
Um estudo publicado nesta sexta-feira (20), na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, indica que o cérebro feminino sofre alterações estruturais mensuráveis ao longo do ciclo menstrual — e que a progesterona, mais do que o estrogênio, é a principal responsável por essas mudanças.
A pesquisa, conduzida por cientistas da RWTH Aachen University e do Research Centre Jülich, utilizou ressonância magnética estrutural para comparar o cérebro de 32 mulheres saudáveis durante duas fases hormonalmente opostas: a menstruação (baixos níveis hormonais) e o período periovulatório (pico de estrogênio e elevação da progesterona).
“Demonstramos que a progesterona emerge como o modulador mais consistente do volume de substância cinzenta e da espessura cortical ao longo do ciclo”, afirma a psiquiatra Susanne Nehls, autora principal do estudo, em comunicado da instituição.

Figura. Correlação positiva entre os níveis de progesterona e o volume da substância cinzenta: durante a fase perivoulatória, observou-se um efeito significativo no cerebelo (amarelo). Durante a menstruação, um efeito significativo apareceu no giro orbitofrontal (azul-esverdeado)...
Aumento de volume na ovulação
Os exames revelaram que o volume total de substância cinzenta foi significativamente maior na fase periovulatória em comparação à menstruação (p = 0,004; tamanho de efeito moderado). Já o volume total de substância branca e o líquido cefalorraquidiano não apresentaram diferenças relevantes.
Os níveis médios de estradiol saltaram de 30,3 pg/ml na menstruação para 131,2 pg/ml na ovulação. A progesterona, por sua vez, subiu de 0,42 ng/ml para 1,78 ng/ml no mesmo intervalo.
Embora hipóteses iniciais previssem alterações no hipocampo e na amígdala — regiões clássicas associadas a memória e emoção — essas diferenças não resistiram à correção estatística para múltiplas comparações.
Em vez disso, a progesterona mostrou associação robusta com mudanças em outras áreas: cerebelo, durante a fase periovulatória; córtex orbitofrontal e regiões frontais, durante a menstruação; e variações amplas na espessura cortical, dependendo da fase do ciclo.
“A distribuição espacial das alterações coincidiu com regiões ricas em receptores de progesterona, sugerindo um mecanismo biológico plausível”, diz Natalia Chechko, coautora sênior.
Evidência com base em receptores
Um diferencial do trabalho foi a análise de colocalização espacial: os pesquisadores cruzaram os mapas de alterações cerebrais com bancos de dados públicos de densidade de receptores hormonais. O alinhamento foi significativo apenas para receptores de progesterona (p corrigido = 0,016), e não para receptores de estrogênio.
Isso reforça a hipótese de que a progesterona — e seus metabólitos neuroativos, como a alopregnanolona — desempenha papel central na neuroplasticidade feminina ao longo do ciclo.
Humor e vulnerabilidade
As participantes apresentaram escores ligeiramente mais altos de sintomas depressivos e tensão pré-menstrual durante a menstruação, mas sem níveis clínicos relevantes. Não houve correlação direta entre intensidade de sintomas e níveis hormonais, possivelmente devido à baixa variabilidade da amostra.
Segundo os autores, os achados ajudam a refinar modelos sobre saúde mental feminina. Flutuações hormonais já são associadas a maior vulnerabilidade a transtornos de humor em períodos como puberdade, pós-parto e perimenopausa.
“Compreender como o cérebro responde dinamicamente aos hormônios é essencial para modelos mais precisos de risco e proteção em saúde mental feminina”, escrevem os autores.
Limitações e próximos passos
O estudo tem limitações: amostra relativamente pequena, ausência da fase lútea (quando a progesterona atinge pico máximo) e mapas de receptores baseados majoritariamente em cérebros masculinos.
Ainda assim, a combinação de análises volumétricas, espessura cortical, dosagens hormonais e mapeamento de receptores representa um avanço metodológico.
Para os pesquisadores, o próximo passo é integrar esses dados estruturais a estudos de conectividade funcional e desempenho cognitivo, além de acompanhar mulheres ao longo de diferentes transições reprodutivas.
A conclusão central é clara: o cérebro feminino não é estruturalmente estático ao longo do mês. Ele responde, de forma dinâmica e regionalmente específica, às oscilações hormonais — com a progesterona no papel principal.
Referência
Alterações na estrutura cerebral associadas à progesterona durante a menstruação e a fase periovulatória — um estudo de ressonância magnética. eBioMedicinaVol. 125 106184 Publicado em: 20 de fevereiro de 2026
Susanne Nehls,bElena Losse, Maya Armin, Ute Habel, Natalia Chechko. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106184