Análise de quase 2 milhões de casos identifica fator genético compartilhado por 21 enfermidades e amplia debate sobre divisão histórica entre psiquiatria e medicina clínica

Domínio público
Uma ampla investigação genética internacional encontrou evidências robustas de que transtornos psiquiátricos e doenças físicas compartilham bases biológicas comuns — e que essa sobreposição vai além de associações pontuais entre diagnósticos específicos. Publicado neste sábado (21), na revista Nature Communications, o estudo analisou 73 doenças físicas, somando cerca de 1,9 milhão de casos, e identificou um fator genético amplo que atravessa múltiplos sistemas do organismo.
O trabalho, liderado por pesquisadores do Institute for Behavioral Genetics e da University of Pennsylvania Perelman School of Medicine, aplicou métodos estatísticos avançados — como o Genomic Structural Equation Modeling (Genomic SEM) — para mapear correlações genéticas entre transtornos mentais e doenças que afetam sistemas como o circulatório, respiratório, digestivo, metabólico, neurológico e musculoesquelético.
“O padrão de compartilhamento genético é muito mais difuso e abrangente do que se supunha”, afirma o psicólogo Jeremy M. Lawrence, autor correspondente do estudo. “Não estamos falando apenas de depressão associada a uma doença cardíaca específica, mas de redes de risco que atravessam múltiplos diagnósticos.”
Estudos de associação de todo o genoma | Nature Reviews Métodos Primers
Fator transdiagnóstico
Na etapa mais abrangente da análise, os pesquisadores testaram se doenças físicas tradicionalmente agrupadas por sistema orgânico realmente compartilhavam a mesma base genética. Ao aplicar um modelo exploratório em todos os 73 desfechos físicos, identificaram um fator comum composto por 21 enfermidades, distribuídas em seis dos oito domínios médicos avaliados.
Esse fator transdiagnóstico apresentou 27 regiões genômicas associadas ao risco compartilhado. Em testes independentes realizados no banco de dados clínico do Penn Medicine BioBank, os escores genéticos derivados desse fator mostraram associação significativa com condições como diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, doença arterial coronariana, apneia do sono, dor crônica e doença pulmonar obstrutiva.
“O fato de um único fator genético predizer uma gama tão diversa de doenças reforça a ideia de que parte do risco biológico é sistêmico, não restrito a um órgão específico”, diz Andrew D. Grotzinger, coautor do estudo.
Diferenças entre grupos psiquiátricos
Os pesquisadores também modelaram cinco grandes dimensões psiquiátricas previamente estabelecidas: transtornos compulsivos, psicóticos, internalizantes, do neurodesenvolvimento e por uso de substâncias.
Os resultados revelaram padrões distintos:
Transtornos internalizantes (como depressão maior, ansiedade e estresse pós-traumático) exibiram correlações genéticas significativas com fatores de todos os sistemas físicos analisados.
Transtornos do neurodesenvolvimento (incluindo TDAH e TEPT, conforme definido no modelo) mostraram correlações moderadas a altas com múltiplos sistemas corporais.
Transtornos por uso de substâncias apresentaram associações amplas e consistentes com praticamente todos os domínios médicos.
Já os transtornos psicóticos (como esquizofrenia e bipolaridade) demonstraram correlações mais modestas e específicas.
O fator compulsivo exibiu poucas associações, incluindo um efeito protetor em relação a um grupo de doenças digestivas.
Em alguns casos, as correlações genéticas entre determinados transtornos psiquiátricos — como depressão maior, TDAH e TEPT — e doenças físicas foram mais elevadas do que as correlações médias entre as próprias doenças físicas entre si.

“Isso sugere que certos transtornos mentais capturam vias de risco biológico extremamente amplas, que transcendem as fronteiras diagnósticas tradicionais”, afirma Lawrence.
Desafio à divisão histórica
Historicamente, a medicina separou doenças “orgânicas” — com alterações físicas identificáveis — de condições “funcionais”, tradicionalmente atribuídas à esfera psicológica. Essa divisão moldou a organização de especialidades médicas ao longo do século XX.
Para os autores, os novos achados reforçam a necessidade de rever esse enquadramento.
“Nossos resultados não significam que doenças mentais e físicas sejam a mesma coisa do ponto de vista clínico”, pondera Grotzinger. “Mas indicam que compartilham sistemas de risco biológico que não respeitam as categorias diagnósticas atuais.”
Os pesquisadores destacam que os dados se baseiam em variantes genéticas comuns em populações europeias e que estudos futuros devem incluir maior diversidade ancestral e investigar o papel de variantes raras.
Implicações clínicas
Embora o estudo não estabeleça relações causais — isto é, não determina se um transtorno leva diretamente a outro —, os autores discutem dois cenários possíveis:
Pleiotropia vertical, quando uma condição desencadeia outra ao longo de uma cadeia causal;
Pleiotropia horizontal, quando variantes genéticas influenciam múltiplos desfechos independentemente.
A distinção é crucial. Se o risco for predominantemente vertical, tratar precocemente um transtorno poderia reduzir o risco subsequente de doenças físicas. Se for horizontal, intervenções deveriam mirar fatores biológicos ou comportamentais mais amplos.
“Entender se estamos lidando com cadeias causais ou com mecanismos paralelos será fundamental para transformar esses achados em estratégias de prevenção”, afirma Lawrence.
Ao revelar a extensão do compartilhamento genético entre mente e corpo, o estudo acrescenta uma nova camada ao debate sobre multimorbidade — condição que já atinge cerca de 38% da população global, segundo dados epidemiológicos citados pelos autores.
A principal mensagem, dizem os pesquisadores, é que as fronteiras entre especialidades médicas podem ser menos biológicas do que históricas.
Referência
Lawrence, JM, Foote, IF, Breunig, S. et al. Responsabilidade genética compartilhada entre sistemas de doenças psiquiátricas e físicas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69218-1