Saúde

Biomarcador simples pode prever lesão renal após ponte de safena, aponta estudo chinês
Os pesquisadores demonstraram que níveis elevados da razão neutrófilo/HDL-colesterol — conhecida pela sigla NHR — antes da cirurgia estão associados a um risco significativamente maior de lesão renal aguda (AKI) nos sete dias seguintes
Por Laercio Damasceno - 22/02/2026


Domínio público


Um exame de sangue rotineiro, calculado a partir de dois parâmetros já disponíveis antes da cirurgia, pode ajudar médicos a identificar quais pacientes correm maior risco de desenvolver lesão renal aguda após cirurgia de revascularização do miocárdio — a popular ponte de safena.

A conclusão é de um estudo multicêntrico retrospectivo publicado na revista Scientific Reports, que analisou 1.011 pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio (CABG) em dois grandes hospitais chineses entre 2016 e 2025.

Os pesquisadores demonstraram que níveis elevados da razão neutrófilo/HDL-colesterol — conhecida pela sigla NHR — antes da cirurgia estão associados a um risco significativamente maior de lesão renal aguda (AKI) nos sete dias seguintes ao procedimento.

Incidência relevante e impacto clínico

A lesão renal aguda é uma das complicações mais temidas após cirurgia cardíaca. No estudo, 18,5% dos pacientes desenvolveram AKI segundo os critérios internacionais do KDIGO. Aqueles que apresentaram a complicação permaneceram mais tempo hospitalizados, ficaram mais dias em ventilação mecânica e tiveram cirurgias e anestesias mais prolongadas.

“A identificação precoce de pacientes de alto risco continua sendo um grande desafio clínico”, escrevem os autores liderados por Jiankang Zheng, do Hospital Afiliado da North Sichuan Medical College, e Yuxia Qi, do Qingdao Public Health Clinical Center.

Segundo os pesquisadores, biomarcadores acessíveis e de baixo custo podem ser decisivos para aprimorar a estratificação de risco no período perioperatório.

O que é a NHR — e por que importa

A NHR combina dois componentes com papéis biológicos opostos:

Neutrófilos, células inflamatórias que participam da resposta imune e estão envolvidos em processos de isquemia e reperfusão — mecanismos centrais na lesão renal pós-cirúrgica.
HDL-colesterol, conhecido como “colesterol bom”, que exerce efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e protetores do endotélio vascular.

Ao dividir a contagem absoluta de neutrófilos pelo valor do HDL-colesterol, obtém-se um índice que reflete o equilíbrio entre inflamação e proteção vascular.

“Uma NHR elevada pode representar um estado de maior carga inflamatória combinada com menor capacidade anti-inflamatória, tornando o rim mais vulnerável ao estresse cirúrgico”, afirmam os autores.

Risco aumenta de forma linear

A análise estatística mostrou que cada aumento unitário na NHR elevou em 5% o risco de lesão renal no modelo não ajustado, pacientes no tercil mais alto da NHR tiveram 78% mais chance de desenvolver AKI, mesmo após ajuste para idade, sexo, hipertensão, diabetes, função renal prévia, proteína C reativa, albumina e variáveis cirúrgicas (OR 1,78; IC 95% 1,13–2,26; p=0,003); a relação foi aproximadamente linear, sem efeito de limiar abrupto; valores acima de 3,9 já estavam associados a risco aumentado.

Os resultados se mantiveram consistentes em subgrupos definidos por sexo, uso de circulação extracorpórea, hipertensão, diabetes e histórico de AVC.

Melhora na capacidade preditiva

Quando os pesquisadores incorporaram a NHR aos modelos clínicos tradicionais, a capacidade de prever quem desenvolveria lesão renal melhorou de forma estatisticamente significativa.

A área sob a curva (AUC) aumentou progressivamente até 0,81 no modelo totalmente ajustado. Medidas de reclassificação de risco (NRI e IDI) também mostraram ganho incremental relevante.

“Esses achados sugerem que a NHR pode fornecer valor prognóstico adicional além dos fatores clínicos convencionais”, escrevem os autores.


O estudo é retrospectivo, o que impede conclusões definitivas sobre causalidade. Além disso, o diagnóstico de lesão renal foi baseado apenas na creatinina sérica, sem dados consistentes de débito urinário. O número reduzido de casos graves também limitou a análise por estágios de severidade.

Ainda assim, os pesquisadores defendem que a simplicidade do índice é um ponto forte.

“Por ser facilmente obtida a partir de exames laboratoriais de rotina, a NHR pode representar uma ferramenta prática para identificação precoce de pacientes de alto risco”, concluem.

Ensaios prospectivos e comparações diretas com outros marcadores inflamatórios — como a razão neutrófilo-linfócito — serão necessários para confirmar o papel da NHR na prática clínica.

Se validado em populações independentes, o biomarcador poderá integrar protocolos de avaliação pré-operatória, ajudando equipes cirúrgicas a intensificar monitoramento e estratégias preventivas em pacientes mais vulneráveis.


Referência
Zhang, Z., Piccini, G. Explorando a química e a catálise através da manipulação de distribuições assimétricas via aprendizado profundo. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69586-8

 

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