Saúde

Estudo identifica dois subtipos biológicos de depressão em adolescentes, com padrões opostos no fluxo de informação cerebral
A pesquisa, liderada por Xiaobo Liu e Bin Wan, analisou exames de ressonância magnética funcional (fMRI) em repouso de 302 adolescentes com depressão e 207 controles saudáveis, com idades entre 11 e 17 anos.
Por Laercio Damasceno - 22/02/2026


Domínio público


Um amplo estudo internacional publicado neste domingo (22), na revista Nature Communications, descreve a identificação de dois subtipos neurobiológicos distintos de transtorno depressivo maior (TDM) em adolescentes — cada um marcado por padrões divergentes na organização funcional do cérebro e no fluxo de informação entre regiões sensoriais e áreas associativas de ordem superior.

A pesquisa, liderada por Xiaobo Liu e Bin Wan, analisou exames de ressonância magnética funcional (fMRI) em repouso de 302 adolescentes com depressão e 207 controles saudáveis, com idades entre 11 e 17 anos. Os dados foram coletados em múltiplos centros, incluindo a Wuhan University of Science and Technology, o Max Planck Institute for Human Cognitive and Brain Sciences e a McGill University. Os resultados foram posteriormente replicados em um conjunto independente de 73 pacientes.

Dois cérebros depressivos distintos

Utilizando técnicas avançadas de decomposição de matrizes e aprendizado de máquina não supervisionado, os pesquisadores mapearam o chamado “gradiente sensório-associativo” — eixo que organiza o cérebro da adolescência das áreas sensoriais primárias (visão, audição, movimento) até regiões associativas responsáveis por cognição complexa e regulação emocional.

A análise revelou dois subgrupos claramente diferenciados:

Subtipo 1 — padrão sensorial, fluxo “bottom-up”

Predominância de reorganização em córtices sensoriais primários
Fluxo de informação ascendente (das áreas sensoriais para as associativas)
Redução de sinergia neural e aumento de redundância em regiões sensoriais
Rede cerebral altamente modular, porém com baixa eficiência global

Segundo os autores, esse perfil sugere “processamento sensorial aberrante e dificuldades de integração global da informação”. Clinicamente, esse grupo apresentou escores significativamente mais altos nas escalas de depressão (HAMD) e ansiedade (HAMA), além de maior histórico de negligência emocional e física na infância.

Subtipo 2 — padrão associativo, fluxo “top-down”

Expansão funcional em áreas associativas (como córtex cingulado posterior e regiões occipito-parietais)
Fluxo descendente (das áreas associativas para as sensoriais)
Redução de sinergia em regiões de alta ordem cognitiva
Eficiência de rede intermediária entre o subtipo 1 e controles saudáveis

Nesse grupo, os pesquisadores observaram sinais de possível engajamento compensatório de redes cognitivas superiores.

“Os dois subtipos refletem trajetórias neurodesenvolvimentais divergentes ao longo do eixo sensório-associativo”, escrevem os autores. “Essa distinção integra heterogeneidade funcional, dinâmica cortical, trajetória de desenvolvimento e influências genéticas.”


Sinergia versus redundância: como o cérebro integra informação

Um dos diferenciais metodológicos do estudo foi a aplicação da chamada Decomposição Integrada da Informação (IID), abordagem que distingue dois modos fundamentais de processamento neural:

Sinergia: quando diferentes regiões combinam informações para gerar algo novo.
Redundância: quando múltiplas regiões compartilham informação semelhante, aumentando robustez, mas reduzindo diversidade.

Ambos os subtipos apresentaram redução de sinergia e aumento de redundância nas regiões sensoriais. Contudo, no subtipo 2, houve aumento expressivo de redundância também em áreas associativas — padrão que, segundo os autores, pode refletir tentativas de compensação diante de menor eficiência integrativa.

Desenvolvimento cerebral fora da trajetória típica

Durante a adolescência, o cérebro saudável tende a migrar de uma organização fortemente sensorial para uma arquitetura mais integrada, com predominância de redes associativas.

No entanto, os dois subtipos desviaram desse padrão.

No subtipo 1, os efeitos da idade seguiram um eixo motor-auditivo/visual.
No subtipo 2, mantiveram-se alinhados ao eixo sensório-associativo, mas com características atípicas.

Essas diferenças sugerem que a depressão adolescente pode envolver interrupções específicas no processo de maturação cortical.

Assinaturas moleculares distintas

Os autores também cruzaram os mapas funcionais com dados de distribuição de receptores neurotransmissores disponíveis na plataforma Neuromaps. Ambos os subtipos mostraram associação com receptores excitatórios (como mGluR5) e inibitórios (5-HT1B, CB1, D2, MOR), mas os processos genéticos enriquecidos diferiram:

Subtipo 1: genes ligados à organização sináptica, crescimento neuronal e plasticidade estrutural.
Subtipo 2: processos relacionados a transporte proteico intracelular, splicing de RNA e resposta celular ao estresse.

Para os pesquisadores, isso indica que “o subtipo 1 pode estar relacionado a alterações mais estruturais do desenvolvimento neuronal, enquanto o subtipo 2 envolve mecanismos de eficiência sináptica e resposta ao estresse celular”.

Implicações para a psiquiatria de precisão

Os autores defendem que o modelo binário proposto — sensorial versus associativo — pode representar um passo relevante rumo à psiquiatria de precisão na adolescência.

“Nosso estudo oferece uma estrutura hierárquica que sistematiza os neurofenótipos da depressão adolescente”, escrevem. “Isso pode auxiliar no desenvolvimento de intervenções personalizadas, orientadas por biomarcadores funcionais e moleculares.”


Apesar das limitações — como ausência de análise estrutural e possível influência medicamentosa não explorada — o trabalho sugere que a depressão na adolescência não constitui uma entidade neurobiológica única, mas sim múltiplos caminhos cerebrais distintos que convergem em sintomas clínicos semelhantes.

Em um período da vida marcado por intensa reorganização neural, compreender essas trajetórias pode ser decisivo para intervenções mais precoces e eficazes.


Referência
Liu, X., Wan, B., Wu, X. et al. Subtipos de transtorno depressivo maior em adolescentes caracterizados por dinâmicas de informação divergentes nos córtex de associação sensorial. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69697-2

 

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