Saúde

Estudo revela que heterogeneidade imunológica impulsiona evolução da gripe
A técnica empregada — um ensaio baseado em sequenciamento genético — permitiu medir simultaneamente milhares de interações entre vírus e anticorpos, algo impraticável com métodos tradicionais.
Por Laercio Damasceno - 23/02/2026


Foto: Imagem de Internet


Um amplo estudo publicado nesta segunda-feira (23), na revista eLife, conclui que as variantes do vírus influenza H3N2 que mais se espalharam em 2023 foram justamente aquelas capazes de escapar da imunidade de uma maior parcela da população. A pesquisa sugere que medições em larga escala de anticorpos humanos — e não apenas testes com soros agrupados ou modelos animais — podem oferecer uma ferramenta mais precisa para prever quais cepas dominarão as próximas temporadas de gripe.

O trabalho, liderado por cientistas do Fred Hutch Cancer Center e da University of Washington, analisou aproximadamente 11.700 medições de neutralização envolvendo 78 variantes recentes do vírus H3N2 e 150 amostras de soro de crianças e adultos. A técnica empregada — um ensaio baseado em sequenciamento genético — permitiu medir simultaneamente milhares de interações entre vírus e anticorpos, algo impraticável com métodos tradicionais.

“Encontramos uma correlação forte entre a taxa de crescimento das cepas em 2023 e a fração de indivíduos cujos soros tinham títulos baixos contra essas cepas”, afirmou Jesse D. Bloom, biólogo evolutivo do Fred Hutch e autor sênior do estudo. “Isso indica que a evasão da imunidade populacional é um motor central do sucesso evolutivo do vírus.”

Heterogeneidade individual molda a evolução viral

A influenza é notória por sua rápida mutação na proteína hemaglutinina (HA), alvo principal dos anticorpos neutralizantes. Essas mutações permitem ao vírus driblar defesas adquiridas por infecções ou vacinas anteriores — um processo conhecido como deriva antigênica.

O novo estudo demonstra que essa dinâmica não depende apenas da média de imunidade da população, mas de sua distribuição desigual. Crianças e adultos exibiram ampla variação nos títulos de anticorpos contra as cepas testadas. Algumas amostras infantis neutralizavam quase todas as variantes com alta potência; outras apresentavam respostas modestas ou seletivas.

Segundo Caroline Kikawa, primeira autora do artigo, “a heterogeneidade foi impressionante, especialmente entre as crianças. Mesmo dentro de faixas etárias semelhantes, os perfis de neutralização variavam de forma marcante”.

Os pesquisadores observaram que cepas cuja proporção de soros com títulos inferiores a 138 era maior apresentaram crescimento mais rápido ao longo de 2023, conforme estimado por regressão logística multinomial aplicada a dados de sequenciamento global. Nenhuma das 200 randomizações estatísticas superou a força da correlação observada, reforçando a robustez do achado.

Visão geral do ensaio de neutralização baseado em sequenciamento.
( a ) Geramos uma biblioteca de vírus da influenza com código de barras contendo diferentes hemaglutininas (HAs), cada uma identificada por um código de barras único de 16 nucleotídeos em seu genoma. Veja a Figura 1—Figura Suplementar 1 para detalhes. ( b ) A biblioteca de vírus é incubada com soros e, em seguida, adicionada a células MDCK-SIAT1 em uma placa de 96 poços. De 12 a 14 horas após a infecção, as células são lisadas e uma concentração conhecida de RNA com código de barras é adicionada a cada poço. ( c ) A porcentagem de infectividade de cada variante viral em cada concentração de soro é calculada determinando-se a contagem de códigos de barras por sequenciamento.

Soros agrupados não capturam a complexidade

Tradicionalmente, análises para seleção de vacinas utilizam soros agrupados ou modelos animais, como furões infectados experimentalmente. Mas o novo estudo mostra que amostras combinadas tendem a refletir predominantemente os indivíduos com títulos mais altos, comprimindo diferenças cruciais entre variantes.

Quando os cientistas compararam títulos medidos em soros agrupados com a mediana dos títulos individuais, a correlação foi modesta. Mais importante: não houve correlação entre os títulos do soro agrupado e a taxa de crescimento das cepas.

“Os pools de soro não capturam a heterogeneidade que realmente importa para a evolução viral”, disse Bloom. “Se queremos entender quais variantes têm vantagem competitiva, precisamos considerar a diversidade imunológica real da população.”


Implicações para a escolha da vacina

A seleção das cepas da vacina contra a gripe ocorre em reuniões semestrais coordenadas pela World Health Organization. O processo envolve caracterização genética, epidemiológica e antigênica dos vírus circulantes.

Os autores argumentam que ensaios de neutralização em larga escala, realizados poucos meses antes dessas decisões, poderiam fornecer dados mais diretos sobre quais variantes estão escapando da imunidade coletiva.

“O desenho da nossa biblioteca de 78 cepas levou cerca de 12 semanas, e as medições experimentais exigiram aproximadamente quatro semanas de trabalho concentrado”, observou Kikawa. “Em princípio, é viável gerar informações úteis dentro do calendário de decisão vacinal.”

Embora os próprios autores reconheçam que a correlação entre crescimento viral e número de mutações na hemaglutinina também foi significativa — o que dificulta separar totalmente efeitos filogenéticos de medições experimentais — a análise sugere que os dados imunológicos explicam uma parcela substancial da vantagem evolutiva.

Uma visão mais refinada da imunidade coletiva

O estudo reforça a ideia de que a história individual de exposições — incluindo infecções anteriores e vacinação — molda de maneira singular o repertório de anticorpos de cada pessoa. Essa “impressão imunológica” ajuda a explicar por que a mesma variante viral pode encontrar resistência em parte da população e suscetibilidade em outra.

Para os pesquisadores, incorporar essa heterogeneidade aos modelos de previsão pode aprimorar a resposta global à influenza. “A evolução do vírus não ocorre em um vácuo”, disse Bloom. “Ela é moldada, em tempo real, pela diversidade imunológica humana.”

Se confirmadas em temporadas futuras, as descobertas podem representar um avanço metodológico significativo — aproximando a ciência da gripe de uma previsão mais precisa e, potencialmente, de vacinas melhor ajustadas às ameaças emergentes.


Referência
Caroline Kikawa, Andrea N Loes, John Huddleston, Marlin D Figgins, Philippa Steinberg, Tachianna Griffiths, Elizabeth M Drapeau, Heidi PeckIan BarrJanet A Englund, Scott E Hensley,Trevor Bedford, Jesse D Bloom (2026). Medições de neutralização de alto rendimento correlacionam-se fortemente com o sucesso evolutivo de cepas da gripe humana. eLife 14 :RP106811. https://doi.org/10.7554/eLife.106811.4

 

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