Meta-análise com 6,4 milhões de pacientes aponta que lítio, clozapina e alguns antidepressivos reduzem risco de suicídio
O estudo é uma revisão sistemática e meta-análise de 48 pesquisas observacionais conduzidas ao longo de três décadas. O trabalho foi liderado por pesquisadores da University of Oxford, do Karolinska Institutet...

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Um dos mais abrangentes levantamentos já feitos sobre medicamentos psiquiátricos e risco de suicídio analisou dados de mais de 6,4 milhões de pessoas em 13 países e concluiu que alguns fármacos amplamente prescritos — entre eles o lítio, a clozapina e classes específicas de antidepressivos — estão associados à redução de mortes por suicídio e tentativas de autoagressão. Em contrapartida, benzodiazepínicos foram ligados a maior risco em diversos diagnósticos.
O estudo, publicado no sábado (21), na revista eClinicalMedicine, periódico do grupo The Lancet, é uma revisão sistemática e meta-análise de 48 pesquisas observacionais conduzidas ao longo de três décadas. O trabalho foi liderado por pesquisadores da University of Oxford, do Karolinska Institutet e de outras instituições europeias e asiáticas.
“Certos medicamentos psicotrópicos estão associados a uma redução do risco de desfechos relacionados ao suicídio, mas os efeitos variam de acordo com o diagnóstico psiquiátrico”, afirmou o psiquiatra Seena Fazel, da Universidade de Oxford, autor sênior do estudo, em declaração incluída no artigo.
Antipsicóticos e esquizofrenia
Entre pacientes com transtornos do espectro da esquizofrenia, antipsicóticos de segunda geração apresentaram associação consistente com menor risco de morte por suicídio. A clozapina se destacou: o uso do medicamento foi associado a uma redução de 60% no risco de morte por suicídio (OR = 0,40). Olanzapina e quetiapina também mostraram efeitos protetores.
Para tentativas de suicídio, olanzapina (OR = 0,76) e risperidona (OR = 0,61) estiveram associadas a menor risco. Já benzodiazepínicos e antipsicóticos de primeira geração apareceram ligados a maior risco em alguns modelos.
“Os achados reforçam evidências anteriores de que a clozapina tem um papel particular na prevenção do suicídio em esquizofrenia”, escreveram os autores.
Lítio mantém protagonismo no transtorno bipolar
No transtorno bipolar, o lítio voltou a demonstrar um dos efeitos mais robustos. O medicamento foi associado a uma redução de 62% no risco de morte por suicídio (OR = 0,38) e também a menor risco de tentativas (OR = 0,60 em análises intraindividuais).
O ácido valproico também esteve ligado a menor risco de morte por suicídio (OR = 0,66), embora os autores ressaltem que diretrizes recentes impõem cautela ao seu uso devido a efeitos adversos de longo prazo.
“Os resultados são consistentes com décadas de pesquisa sugerindo um efeito protetor do lítio”, afirmam os pesquisadores, observando, contudo, indícios de viés de publicação em parte das análises.
Depressão: SSRIs e tricíclicos
Em pacientes com depressão, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (SSRIs) e antidepressivos tricíclicos foram associados a menor risco de morte por suicídio. Para SSRIs, a redução estimada foi de 39% (OR = 0,61). Já para tentativas de suicídio, os resultados foram menos consistentes.
Em contraste, antipsicóticos usados em depressão apresentaram associação com maior risco de tentativas em algumas análises, com elevada heterogeneidade entre estudos.

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Benzodiazepínicos sob alerta
Benzodiazepínicos apareceram associados a maior risco de morte por suicídio em esquizofrenia, transtorno bipolar e transtornos de personalidade. Em transtornos de personalidade, por exemplo, a associação com morte por suicídio foi mais que quadruplicada (OR = 4,29).
Segundo os autores, isso pode refletir tanto efeitos farmacológicos quanto o fato de que esses medicamentos são frequentemente prescritos a pacientes em pior estado clínico — um fenômeno conhecido como “confusão por indicação”.
Evidência observacional, não causal
O estudo enfatiza que os resultados não estabelecem causalidade. Por se tratar de pesquisas observacionais — e não ensaios clínicos randomizados —, permanece o risco de fatores de confusão residuais.
Os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos de efeitos aleatórios e avaliaram a qualidade metodológica com ferramentas como Newcastle-Ottawa Scale e QUIPS. A maioria dos estudos incluídos foi classificada como de baixo risco de viés, e a certeza geral da evidência foi considerada moderada segundo o sistema GRADE.
“A utilização apropriada de medicamentos prescritos em pessoas com alto risco pode ser uma estratégia importante de prevenção do suicídio”, concluem os autores. “Mas os resultados precisam ser triangulados com outros desenhos de pesquisa, como emulações de ensaios clínicos.”
Implicações clínicas
Especialistas destacam que suicídio é um evento relativamente raro, mesmo em populações psiquiátricas de alto risco, e que nenhuma medicação é capaz de eliminá-lo isoladamente. Intervenções farmacológicas devem ser combinadas a psicoterapia, monitoramento clínico e estratégias sociais de proteção.
Ainda assim, a meta-análise sugere que a escolha do medicamento — alinhada ao diagnóstico específico — pode ter impacto significativo no risco de desfechos fatais.
Com dados de milhões de pacientes e abrangendo 70 fármacos diferentes, o trabalho fornece um dos panoramas mais detalhados até hoje sobre como tratamentos psiquiátricos se relacionam com um dos desfechos mais graves da saúde mental.
Referência
Efeito de medicamentos psicotrópicos em desfechos relacionados ao suicídio: uma revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais. eClinicalMedicineVol. 93 103800 Publicado em: 21 de fevereiro de 2026. Stefaniya Kozhevnikova, Cristina Emiliana, Giulio Scola, Zheng Chang, Denis Yukhnenko, Seena Fazel. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103800