Saúde

Novo comprimido único mantém supressão do HIV em pacientes com histórico de resistência, mostra estudo de fase 3
Os resultados do estudo ARTISTRY-1, publicados na revista Lancet, indicam que a combinação de bictegravir e lenacapavir em dose fixa diária foi não inferior aos regimes complexos na manutenção da supressão viral após 48 semanas.
Por Laercio Damasceno - 27/02/2026


A terapia antirretroviral (TARV) possibilitou que pessoas com HIV suprimissem sua carga viral e vivessem quase tanto quanto pessoas sem o vírus. Imagem cortesia


Um novo regime em comprimido único, combinando dois antirretrovirais de última geração, mostrou-se tão eficaz quanto esquemas complexos com múltiplas pílulas diárias para manter o HIV sob controle em pessoas com longo histórico de tratamento e resistência a medicamentos — um grupo frequentemente excluído das opções terapêuticas mais simples.

Os resultados do estudo ARTISTRY-1, publicados nesta quarta-feira (25), na revista The Lancet, indicam que a combinação de bictegravir e lenacapavir em dose fixa diária foi não inferior aos regimes complexos na manutenção da supressão viral após 48 semanas.

“Durante duas décadas, falamos sobre simplificação do tratamento como padrão de cuidado. Mas uma parcela importante dos pacientes nunca pôde se beneficiar plenamente disso”, afirmou a infectologista Chloe Orkin, do Queen Mary University of London, autora principal do estudo. “Agora temos uma alternativa viável para pessoas que vivem com HIV há décadas e enfrentam múltiplas comorbidades.”

População envelhecida e altamente tratada

O ensaio clínico de fase 3, randomizado e aberto, incluiu 557 adultos com supressão virológica sustentada, recrutados em 15 países. A idade mediana foi de 60 anos — a mais alta já registrada em um programa de registro para terapia antirretroviral, segundo os autores.

Os participantes viviam com HIV há, em média, 28 anos. Cerca de 81% utilizavam regimes complexos devido a resistência prévia a medicamentos; 77% tomavam esquemas contendo inibidores de protease potencializados; e alguns ingeriam até 11 comprimidos por dia.

Mais da metade apresentava duas ou mais comorbidades, como dislipidemia (68%), hipertensão (50%) ou diabetes/hiperglicemia (24%), refletindo o envelhecimento da população vivendo com HIV.

Os comprimidos dos cinco diferentes medicamentos antirretrovirais utilizados. Drogas 1... Imagem cortesia

Resultados: eficácia mantida e sem resistência emergente

Após 48 semanas: 1% dos pacientes que migraram para o comprimido único bictegravir–lenacapavir apresentaram carga viral ?50 cópias/mL; 1% dos que permaneceram no regime complexo tiveram o mesmo desfecho; a diferença entre os grupos foi de ?0,3% (IC 95,002% ?2,3 a 1,8), dentro da margem de não inferioridade pré-estabelecida de 4%.

Não houve surgimento de mutações de resistência relacionadas ao tratamento em nenhum dos grupos.

“A ausência de resistência emergente é particularmente encorajadora em uma população com histórico significativo de falhas terapêuticas”, disse Pedro Cahn, da Fundación Huésped, em Buenos Aires, que integrou o grupo ARTISTRY-1.

Segurança comparável — e perfil metabólico melhorado

Eventos adversos ocorreram em proporções semelhantes nos dois grupos (82% no grupo do comprimido único versus 84% no grupo complexo), sendo majoritariamente leves ou moderados. Seis pacientes (2%) descontinuaram o novo regime por eventos adversos.

Cinco mortes ocorreram no grupo bictegravir–lenacapavir, nenhuma considerada relacionada ao medicamento.

Um dado que chamou atenção foi a melhora no perfil lipídico entre aqueles que trocaram para o comprimido único. Houve redução significativa no colesterol total, LDL e triglicerídeos em comparação com o grupo que manteve regimes complexos — um achado relevante em uma população com elevado risco cardiovascular.

“O potencial impacto metabólico favorável pode ser clinicamente importante para pacientes com múltiplos fatores de risco”, escreveram os autores.


Maior satisfação com o tratamento

Os participantes que migraram para o regime simplificado relataram aumento significativo na satisfação com o tratamento, medido por questionários padronizados. No grupo que manteve regimes complexos, não houve mudança.

Especialistas destacam que satisfação terapêutica está associada a melhor adesão — fator crítico para evitar falhas virológicas e resistência.

Os regimes de comprimido único revolucionaram o tratamento do HIV no início dos anos 2000, mas muitos pacientes com resistência acumulada ou interações medicamentosas permaneceram dependentes de combinações complexas.

A nova formulação combina o bictegravir, um inibidor de integrase com alta barreira genética à resistência, e o lenacapavir, primeiro representante de uma nova classe que atua sobre o capsídeo viral.

O estudo foi financiado pela Gilead Sciences, fabricante do medicamento, que também participou do desenho e análise do ensaio.

Para Orkin, os dados sinalizam uma mudança importante: “Estamos falando de uma população que envelheceu com HIV, com décadas de exposição terapêutica. Oferecer uma opção eficaz, segura e mais simples pode representar uma melhora real na qualidade de vida.”

Os autores concluem que o regime bictegravir–lenacapavir “oferece novas oportunidades para otimização do tratamento” em pacientes que até agora estavam à margem da simplificação terapêutica.


Referência
Transição de um regime complexo para HIV para bictegravir-lenacapavir em comprimido único (ARTISTRY-1): um ensaio clínico randomizado, aberto, de fase 3. The LancetPublicado em: 25 de fevereiro de 2026 . Grupo de Estudos ARTISTRY-1. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00307-7Link externo

 

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